Logo após a primeira escola atravessar a Avenida, muitas vezes antes mesmo do fim da primeira noite de desfiles na Marquês de Sapucaí, alguns artistas do maior espetáculo da Terra já começam a deixar o Rio de Janeiro. A maioria a caminho de São Paulo para reforçar desfiles no Anhembi. Não faltam histórias de intérpretes que dividem a voz entre duas agremiações na mesma noite ou de rainhas de bateria que assumem uma rotina digna de atleta para brilhar em solo fluminense e paulista em questão de horas.

A ponte aérea de 40 a 50 minutos, tão familiar a integrantes dos mais diversos cargos no Carnaval carioca, é apenas o primeiro passo de uma maratona anual que corta o mundo. Depois das apurações no eixo RJ–SP, a rota se expande, indo desde cidades brasileiras como Uruguaiana (RS), Manaus (AM), Guaratinguetá (SP) e Porto Alegre (RS), até países como Canadá, EUA, França, Portugal, Suíça, Chile, Inglaterra, Alemanha, Austrália, Espanha e Japão.

Trata-se de um verdadeiro êxodo carnavalesco, que atravessa continentes não apenas para fortalecer desfiles competitivos no exterior, mas também para ministrar aulas, palestras e workshops, além de protagonizar apresentações e shows. “Quando termina o nosso Carnaval – em fevereiro ou março – começa a temporada de aulas dos principais professores lá fora. Há mercado de aulas de samba na América do Sul, como no Chile e na Argentina, na Austrália e nos EUA, mas o maior mercado ainda é a Europa”, explica Gabriel Castro, duas vezes estandarte de ouro de melhor passista, diretor da ala de passistas da Unidos de Vila Isabel e Acadêmicos de Vigário Geral e coreógrafo de comissão de frente da G.R.E.S Bota, escola de samba mais antiga de Portugal.

Gabriel Castro em workshop de comissão de frente em Sesimbra, Portugal | Crédito: MegaSamba

Wic Tavares em Londres, após desfile da Paraíso School of Samba em 2025 | Reprodução / Redes sociais

O “segredo” para uma manifestação tão brasileira, marcada por referências lexicais, históricas e rítmicas tão locais, ser compreendida e valorizada em outros contextos culturais, é simples, segundo o mestre Fafá, comandante da bateria da Acadêmicos do Grande Rio: “A linguagem da música é muito fácil. No caso do samba, então, nem se fala. É uma linguagem que dispensa tradução: você não precisa falar outro idioma para se comunicar. O samba se fala no olhar”.

No Carnaval de 2025, Fafá incorporou os curimbós — tambores de origem indígena típicos de Belém do Pará — à bateria da tricolor de Caxias para compor o enredo “Pororocas Parawaras: As Águas dos Meus Encantos nas Contas dos Curimbós”. Após o desfile que garantiu o vice-campeonato, ele seguiu para a França, onde ministra aulas anualmente para batucadas, grupos locais de percussão inspirados no samba e em ritmos afro-brasileiros. “Todo mundo que não conhecia o curimbó passou a querer entender, buscar referências dos toques e aprender a desenvolver a sonoridade”, explica.

Mestre Fafá e sua diretoria a caminho dos Estados Unidos para evento internacional | Crédito: Grande Rio

O mestre ressalta que esses intercâmbios resultam em crescimento mútuo, com reflexos diretos no Carnaval carioca: “Em 2024, criei uma paradinha junto com uma batucada. Aquela ideia ficou na minha cabeça e, recentemente, usei numa gravação de samba. O resultado ficou muito legal”.

Após meses intensos ao redor do mundo, o trânsito de artistas carnavalescos começa a rarear em outubro, à medida que os compromissos com as escolas nacionais se intensificam. “Costumo programar minha temporada na Europa para o meio do ano, antes do período de férias por lá. Alguns professores conseguem retornar em novembro ou início de dezembro, mas não é o meu caso. Nesse período, estou totalmente envolvido com as escolas de samba com as quais trabalho no Brasil”, explica Castro, que já visitou mais de dez países graças ao Carnaval.

Para além da troca cultural, as viagens revelam um verdadeiro mercado de exportação que atua praticamente de maneira independente, sem incentivo governamental ou regulação oficial. Enquanto o Carnaval é visto, na maioria das vezes, como apenas um produto turístico para o início do ano, os barracões das escolas de samba funcionam diariamente como multinacionais informais, exportando tecnologia (o know-how do “Brazilian Carnival), mão de obra especializada e até matéria-prima, como fantasias e alegorias.

Em julho de 2025, as alegorias infláveis do abre-alas da Grande Rio decoraram o salão principal do museu francês Grand Palais, um dos pontos turísticos mais famosos de Paris. Em 2022, o “Carnaval de Rio”, em Moulins, apresentou mais de 140 fantasias desenvolvidas por artistas como Rosa Magalhães, Renato e Márcia Lage, Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon – a maior exposição de indumentária carnavalesca já realizada fora do Brasil.

Venda de alegorias e adereços movimenta mercado internacional | Crédito: Reprodução

As vendas de alegorias e adereços integram uma etapa fundamental para as agremiações. A devolução das fantasias, por exemplo, é um processo obrigatório e garante o recadastramento do componente para o ano seguinte. “Utilizamos essas fantasias para alimentação de outras escolas. A gente recebe, contabiliza, verifica o que está completo ou não, separa e negocia com compradores. Parceiros fazem contato o ano todo e já produzem seus enredos do ano seguinte contando com as fantasias e alegorias que nossa escola vai desfilar. É a moeda do Carnaval que não pode parar nunca”, afirma Moisés Carvalho, diretor de Carnaval da Unidos de Vila Isabel.

A partir da internacionalização desses ativos, o Brasil reforça seu soft power. O conceito refere-se à capacidade de um país conquistar influência e prestígio internacional sem o uso da força, por meio da cultura, dos valores e da ideologia. Segundo o professor Caio Gracco, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP-USP), em entrevista ao Jornal da USP, “o poder, classicamente, está associado ao poder militar, o chamado hard power, que consiste em obrigar outros atores a fazerem o que você deseja. O soft power, por sua vez, afirma-se de forma oposta, buscando convencer sem recorrer à violência”.

A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) parece ter compreendido a importância estratégica desse poder. Em entrevista ao podcast Deixa Falar, o presidente da entidade, Gabriel David, classificou o Carnaval carioca como “um dos maiores soft powers brasileiros”. Iniciativas institucionais como o lançamento da marca global Rio Carnaval na Times Square, em 2022, demonstram que a presença internacional do Carnaval é também uma extensão da diplomacia do país.

Marca foi exibida em abril nos telões da Times Square | Crédito: Rio Carnaval

Seja para lucrar, aprender ou ensinar, a possibilidade de ultrapassar fronteiras por meio do Carnaval converge para um sentimento comum entre aqueles que fizeram da festa profissão. “É um sentimento enorme de gratidão. O samba já foi muito marginalizado, às vezes as pessoas não respeitam, não entendem…  E quem não gostaria de conhecer outro país, viajar a trabalho, ser remunerado por isso e perceber o respeito pela sua cultura? Hoje, o samba vive um ótimo momento no Brasil, graças a Deus, depois de períodos muito difíceis. Mas sair dessa bolha e chegar a um país onde você nunca imaginou pisar e ver pessoas apaixonadas pelo samba é algo transformador”, afirma Fafá.

“É um sentimento de gratidão à ancestralidade. Acredito que todas as pessoas que fazem parte de uma escola de samba, independentemente do cargo, estão ali por uma missão. E, ao cumprir essa missão, cada uma contribui para elevar a nossa cultura. Sou muito grata por pertencer ao movimento das escolas de samba, que é, na essência, um quilombo”, completa Wic.

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