A Escócia participou de oito edições da Copa do Mundo, nunca passou da primeira fase e detém o recorde de mais participações sem jamais avançar a um mata-mata. São números sem graça alguma, não resta dúvida. Mas o que realmente importa é que nenhuma outra seleção transformou com tanta maestria a busca por um troféu em uma peça ruim de teatro, daquelas onde o herói sempre tropeça na própria capa na hora de entrar no palco. Se a Copa do Mundo premiasse a criatividade no fracasso, não tinha pra mais ninguém. 

O que torna a trajetória escocesa no Mundial tão fascinante não é a ausência de talento. Pelo contrário, o país produziu grandes craques ao longo de sua história. O problema, ao que tudo indica, é uma combinação explosiva de otimismo desmedido, preparo questionável e uma pitada de má sorte tão persistente que parece conspiração cósmica. A história da Escócia nas Copas prova que, no futebol, às vezes a jornada é tão memorável que o destino (eliminação na primeira fase) acaba sendo apenas um detalhe. 

A história da Escócia no futebol é a prova viva de que o esporte é muito mais do que o peso das taças ou das medalhas no peito. Entre falsas voltas olímpicas, canções de rock excessivamente otimistas e partidas bizarras contra adversários fantasmas, os escoceses conquistaram algo que o dinheiro e os títulos muitas vezes não compram: o carinho universal de quem ama o futebol pelo seu poder de gerar crônicas humanas inesquecíveis. Eles podem nunca levantar a taça da FIFA, mas continuarão sendo campeões mundiais da resiliência e do bom humor.

O castelo de Edimburgo, um dos mais famosos pontos turísticos da Escócia (Crédito: Reprodução)

O marco zero do futebol de Seleções 

Em 30 de novembro de 1872, Escócia e Inglaterra se enfrentaram no Hamilton Crescent, em Glasgow, em um empate sem gols que entrou para a história como a primeira partida oficial entre seleções nacionais. Cerca de 4 mil pessoas testemunharam o evento, que estabeleceu as bases para tudo o que viria depois. Incluindo, claro, as décadas de frustrações escocesas em Copas do Mundo. 

Foram nove participações no total (incluindo a atual). Curiosamente, o país chegou a se classificar para a edição de 1950, no Brasil, mas a Associação Escocesa de Futebol (SFA) recusou o convite por uma questão de princípio: só iria se vencesse o British Home Championship  _ o que não aconteceu. A teimosia, como se verá, é um traço recorrente. 

O apelido “Tartan Army” (Exército de Tartan) vem do padrão xadrez típico dos kilts escoceses, usado massivamente pelos torcedores que acompanham a seleção pelo mundo. Atenção para o detalhe, porque muitos confundem. o tartan é o padrão quadriculado de cores do tecido, não o saiote propriamente dito.  Com seu entusiasmo contagiante e bom humor inabalável, a Torcida Tartan se tornou tão famosa quanto o próprio time, muitas vezes ofuscando o desempenho em campo com humor irreverente e imensa capacidade de consumir bebidas alcoólicas sem perder a esportividade. Este ano eles lançaram o primeiro tartan nas cores verde e amarela da história. Custa uma bobagem de R$ 4.500. E a gente não sabe se eles pretendem usar ou só curtir com a nossa cara. 

Campanha de divulgação do Tartan brasileiro (Crédito: Divulgação)

Uma obra-prima do absurdo 

A campanha de 1978 na Argentina é o ápice da tragicomédia escocesa. O técnico Ally MacLeod assumiu o comando em 1977 e rapidamente contagiou o país com um otimismo que beirava a alucinação coletiva. Sua bravata era digna de um Muhammad Ali: ele chegou a dizer que já havia reservado um espaço no armário para sua medalha de campeão mundial e que a data da final da Copa seria conhecida como “Dia Nacional do Ally”. 

A histeria coletiva tomou conta do país. O AC/DC fez um show vestindo camisas da Escócia, o programa infantil Blue Peter presenteou o elenco com um distintivo de boa sorte, e empresas de todos os setores queriam uma fatia do delírio coletivo. Documentários esportivos da BBC Scotland relembram que o clima no país era de vitória garantida, alimentado pelas declarações audaciosas do elenco e por uma imprensa que preferia ignorar a força dos adversários estrangeiros. 

Detalham do show do AC/DC em fardamento nacional (Crédito: Reprodução)

O delírio em Hampden Park 

O apogeu de toda essa doidice aconteceu no dia 25 de maio de 1978, quando o icônico estádio Hampden Park, em Glasgow, virou palco de um dos momentos mais surreais do futebol mundial. Antes de embarcar para a Argentina, a federação organizou um desfile de despedida para a seleção. Diante de 60 mil torcedores ensandecidos que lotavam as arquibancadas, o técnico Ally MacLeod deu uma volta olímpica na pista de atletismo em carro aberto, acenando e sorrindo como se já estivesse carregando a taça da FIFA. 

Arquivos fotográficos e jornais locais daquela exata data mostram o delírio da multidão que jogava cachecóis e bandeiras no gramado. MacLeod, um motivador nato cuja autoconfiança beirava a irresponsabilidade, alimentou o frenesi popular prometendo voltar com o ouro, transformando um embarque em uma procissão de campeões virtuais. 

O humilde treinador escocês Ally Mcleod (Crédito: Reprodução)

Rod Stewart e o hino da vergonha 

Que o famoso cantor inglês, filho de escoceses, é um plagiário que se maquia com óleo de peroba, todo brasileiro além do Jorge Ben Jor sabe. Mas parece que rola uma obsessão aí. A trilha sonora oficial desse delírio coletivo foi gravada por ele e é um milk-shake de rock-britânico e, vá lá, samba-rock brasileiro chamada (atenção) “Ole Ola (Mulher Brasileira)”. 

Foi em fevereiro daquele ano que Rod Stewart veio pular o Carnaval no Rio, conheceu a canção “Taj Mahal”, de Ben Jor, e lançou “Do ya think i´m sexy”, que você tem de ser muito patriota da pátria alheia para não reconhecer o plágio. Os dois acabaram firmando um armistício, no qual Stewart doou todos os lucros da música que gravou à UNICEF. 

Mas, voltando ao assunto, “Ole Ola” foi creditada pela gravadora Riva Records como “Rod Stewart And The Scottish World Cup Squad 1978”, sugerindo que os jogadores estiveram envolvidos na gravação. Mesmo que o quanto cada um efetivamente cantou seja uma daquelas questões que a história, talvez por piedade, preferiu não aprofundar. 

A letra da música abandonava qualquer sinal de diplomacia ou humildade esportiva, afirmando categoricamente que os escoceses trariam a taça para casa e zombando abertamente das potências do futebol. A gravação tornou-se um sucesso comercial estrondoso nas rádios do Reino Unido, vendendo milhares de cópias e funcionando como o hino oficial de uma autoconfiança que envelheceria muito mal em questão de dias. 

Capa do famoso Hino da vergonha

O choque de realidade 

Assim que a bola rolou na Argentina, o castelo de cartas desmoronou com estrondo. No jogo de estreia, a Escócia foi dominada e derrotada por 3 a 1 pela seleção do Peru. Para completar o cenário de desolação, o atacante Willie Johnston, testou positivo para fencamfina, um estimulante proibido. Johnston alegou que a substância era de um remédio para febre do feno. Foi enviado de volta para casa em desgraça, e o episódio se tornou o símbolo máximo do caos da campanha. Anos depois, o goleiro Alan Rough revelou que pelo menos quatro jogadores do elenco haviam tomado pílulas proibidas. 

Na partida seguinte, o vexame aumentou com um empate protocolar em 1 a 1 contra o modesto time do Irã, um resultado que sepultou praticamente todas as chances de classificação, mergulhando o país em depressão e levando o Tartan Army ao caos. 

Escócia enfrentando o Irã na Copa de 1978 Crédito: Reprodução)

Caos no hotel, noites de porre e uma vitória genial (e inútil) 

Livros de jornalistas que cobriram o evento detalham que o hotel da delegação virou um cenário de desespero, com os jogadores passando as noites bebendo no bar para afogar as mágoas e esquecer a pressão asfixiante da torcida e da mídia britânica. A falta de ânimo e o isolamento criaram um ambiente de completo marasmo.  

No último jogo, contra a Holanda, a Escócia precisava vencer por três gols de diferença para se classificar. Jogou de forma brilhante e venceu por 3 a 2, com um golaço antológico de Archie Gemmill, que driblou meia defesa holandesa antes de marcar. A FIFA até hoje considera esse jogo como uma das grandes partidas do torneio.  

No entanto, a vitória não foi suficiente: o Peru havia goleado o Irã por 4 a 1 no outro jogo, e a Escócia ficou em terceiro lugar no grupo por saldo de gols. A seleção voltou para casa eliminada, mas com uma das vitórias mais memoráveis de sua história. Além da certeza de que o troféu da tragicomédia em Copas do Mundo era indiscutivelmente seu. 

O colapso diplomático em Tallinn  

Em 9 de outubro de 1996, as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1998 reservaram um dos episódios mais bizarros da história do futebol. A Escócia viajou até Tallinn para enfrentar a Estônia. Mas os arquivos da FIFA apontam que tudo mudou quando a comissão técnica escocesa realizou um treino de reconhecimento no Kadrioru Stadium na noite anterior e constatou que o sistema de iluminação do estádio era precário, incapaz de atender aos padrões exigidos para as transmissões de televisão internacionais. 

A federação escocesa pressionou o comitê executivo da FIFA, alegando razões comerciais e potenciais riscos de segurança devido à escuridão. A entidade cedeu aos apelos e tomou a decisão drástica de antecipar o horário da partida do início da noite para as 15h do dia seguinte. Só faltou combinar com a Estônia. 

Que, por sua vez, ficou furiosa. O governo e a federação local viram a mudança forçada como uma humilhação internacional e uma interferência ocidental arrogante em sua infraestrutura recém-independente da União Soviética. Como protesto político, os estonianos simplesmente se recusaram a aparecer no novo horário. 

O jogo de três segundos 

A seleção da Escócia compareceu ao estádio pontualmente às 15h. Os jogadores escoceses subiram ao gramado completamente sozinhos, perfilaram-se diante das arquibancadas onde milhares de torcedores do “Tartan Army” observavam a cena atônitos e ouviram a execução dos hinos nacionais. O capitão escocês deu o pontapé inicial na bola, iniciando formalmente a partida. E exatamente três segundos depois, sem nenhum jogador da Estônia em campo, o juiz Miroslav Radoman  encerrou o confronto, decretando o fim do jogo mais curto e surreal da história das competições internacionais. 

Os escoceses deixaram o gramado celebrando o que acreditavam ser uma vitória por W.O.. Contudo, a alegria durou pouco. Temendo um incidente diplomático de maiores proporções com as recém-independentes repúblicas bálticas, o comitê da FIFA recuou na punição severa e determinou que a partida deveria ser jogada inteiramente em um campo neutro, escolhendo o Estádio Luis II, em Mônaco. 

O jogo remarcado aconteceu em fevereiro de 1997 e terminou em um empate sem gols horroroso. A incapacidade de furar o bloqueio da Estônia fez com que a Escócia virasse piada instantânea na imprensa internacional, por “não conseguir vencer nem um time que não entrou em campo”. O episódio ficou conhecido como “One Team in Tallinn”. 

Time da Escócia sozinho em campo dá a partida para um dos jogos mais curtos da história (Crédito: Reprodução)

O naufrágio da Seleção Britânica unificada em 2012 

Por ocasião dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, surgiu uma forte movimentação política e esportiva para recriar a histórica Seleção Britânica de futebol. No entanto, o projeto de unificação permanente não avançou devido à resistência ferrenha da federação escocesa (SFA), apoiada pelas federações do País de Gales e da Irlanda do Norte, por medo de comprometer o status independente de suas federações dentro da FIFA. 

A FIFA, sendo a FIFA, deixou claro que era mesmo por aí. Uma seleção britânica permanente poderia representar uma ameaça a autonomia das quatro federações. E assim o sonho do “Team GB” foi, britanicamente, esquecido _ pelo menos por enquanto. 

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