O Rio de Janeiro vive uma preocupante alta nos casos de golpes envolvendo empréstimo consignado, com um padrão que se repete em um ciclo nefasto de desinformação, fragilidade dos alvos e organização criminosa. Os recentes casos, somados às prisões realizadas no início de julho, revelam o quanto esse tipo de golpe está crescendo e evoluindo no estado.
Segundo investigações da Delegacia do Consumidor (Decon), as quadrilhas obtêm dados pessoais de idosos e pensionistas — muitas vezes cruzáveis com informações do INSS ou bancos — e entram em contato se passando por representantes dessas instituições.
Prometem “portabilidade vantajosa” ou quitação de dívidas antigas com condições melhores, mas, na realidade, induzem as vítimas a contrair novos empréstimos. O dinheiro obtido é transferido quase que integralmente para contas de terceiros, e as vítimas só descobrem a fraude quando os descontos passam a ser debitados de seus benefícios.
Segundo o delegado titular da Decon, delegado Wellington Vieira, algumas medidas simples podem ajudar as vítimas a se prevenirem desse tipo de golpe.
“O primeiro passo é não aceitar ligações telefônicas para resolver assuntos bancários e ir pessoalmente ao banco. O segundo passo, casa seja vitimado, é procurar uma delegacia para pedir ajuda e registrar um boletim de ocorrência. Também é fundamental que não forneça dados pessoais, principalmente o CPF, a estranhos”, alerta Vieira.

Casos recentes
Nesta quarta-feira (16) a Polícia Civil cumpriu 13 mandados de busca e apreensão na capital, Baixada Fluminense e Costa Verde, resultando em bloqueios de aproximadamente R$ 500 mil. A ação, capitaneada pelo delegado Wellington Vieira, desarticulou um grupo especializado em fraudar idosos.
Pouco mais de uma semana antes, no dia 8 de julho, nove pessoas foram presas em flagrante em Cascadura (Zona Norte), em um escritório clandestino que operava o esquema. Os investigadores confirmaram que os alvos eram aposentados e pensionistas do INSS. Entre os presos estava Julia Garcia Domingues, de 28 anos, uma das filhas do funkeiro Mr. Catra.
Nos últimos 12 meses, o Estado do Rio também registrou prisões maciças pelo mesmo tipo de crime. Em dezembro de 2024, 24 presos em operação contra escritórios que induziam idosos a contratar empréstimos falsos. Também em 2024, no mês de setembro, 11 pessoas capturadas em Nova Iguaçu, em esquema parecido.

Organizações estruturadas
A repetição desses esquemas revela quadrilhas estruturadas, com hierarquias e divisão de tarefas claras: captação de dados, abordagem das vítimas, formatação de contratos fraudulentos, e movimentação das verbas por redes de “laranjas”.
Muitos desses grupos operam em escritórios clandestinos ou “call‑centers”— inclusive em salas alugadas no Centro do Rio — o que torna possível a rápida expansão do golpe.
Há suspeitas de que há pessoas dentro do INSS ou que tenham acesso facilitado aos dados de aposentados, o que facilita o perfilamento das vítimas, segundo investigações.
As principais vítimas são idosos e beneficiários do INSS — camada da população que geralmente não revisa extratos bancários com frequência ou desconhece mecanismos digitais como o site Meu INSS. Após a prisão dos golpistas, as vítimas frequentemente reclamam de descontos indevidos e de empréstimos não autorizados.
O Código de Defesa do Consumidor é claro: bancos e financeiras têm responsabilidade objetiva — mesmo sem culpa — no reparo dos danos causados por falhas em suas estruturas de segurança
Medidas de proteção e prevenção
Segundo o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), reforça as recomendações das autoridades e forneceu dicas preciosas para o Agenda do Poder.
“O primeiro passo é nunca fornecer dados pessoais ou bancários a desconhecidos. Desconfie de ligações, mensagens ou e-mails pedindo seus dados (RG, CPF, contracheque, número de benefício do INSS, senha ou número do cartão). Golpistas se passam por bancos, financeiras ou até pelo INSS”, explica.

Outra medida é desconfiar de ofertas “milagrosas” ou muito vantajosas. “Promessas como ‘limpe seu nome e ainda receba dinheiro’, juros muito baixos, ou empréstimos liberados sem análise de crédito são indícios de golpe. Golpistas usam isso para atrair aposentados e pensionistas do INSS. É fundamental verificar a instituição financeira. Antes de fechar qualquer contrato, confirme se a empresa é autorizada pelo Banco Central”, alerta Braz.
Atenção ao assinar qualquer documento também é fundamental para evitar se vítima desse tipo de golpe. “Não assine documentos em branco ou por impulso, leia todo o contrato antes de assinar. Se não entender alguma cláusula, peça ajuda a alguém de confiança”, ensina.
Bloquear as opções de empréstimo no aplicativo do INSS também pode ser eficaz para se proteger e o economista da FGV ensina como fazer: “Para evitar fraudes, você pode solicitar um bloqueio voluntário no seu benefício para impedir contratação de consignado sem sua autorização: Acesse: meu.inss.gov.br, vá até ‘Bloqueio/Desbloqueio de Benefício para Empréstimo’. É possível reverter a qualquer momento, caso deseje contratar futuramente”, detalha André.
Consignado para CLT
Recentemente, a regulação e Inclusão de trabalhadores CLT, juntamente com a flexibilização, facilitou o acesso ao consignado. Além disso, segundo André Braz, grandes fraudes internas os escândalos recentes do INSS abriram brechas e aumentaram a demanda por “devoluções”.
“A estratégia dos golpistas passa pelo uso intensivo de telefonemas, SMS e apps falsos para enganar o público. A falta de controle eficaz e a demora de resposta institucional, além da fiscalização insuficiente, agravam ainda mais o problema”, analisa André.
Abaixo, as principais dicas para quem foi vítima do golpe do consignado através de instituições privadas ou do INSS.
- Entre em contato com o banco imediatamente
- Ligue para o SAC ou ouvidoria do banco que aparece como responsável pelo empréstimo fraudulento
- Solicite o cancelamento imediato do contrato e informe que se trata de uma fraude
- Peça o número de protocolo e guarde
- Registre um boletim de ocorrência, que pode ser feito em uma delegacia física ou online (na maioria dos estados).
- Inclua todas as informações disponíveis, como valor, data, nome da instituição e conversas, se houver.
INSS
- Comunique imediatamente ao INSS
Se o golpe envolver benefício previdenciário:
- Acesse o Meu INSS ou ligue para o telefone 135.
- Solicite bloqueio de empréstimos consignados e informe a fraude
- Formalize uma reclamação no Banco Central
- Acesse www.bcb.gov.br/acessoinformacao/reclamacoes.
- Registre uma queixa contra a instituição financeira envolvida
- Procure o Procon
- Vá ao Procon da sua cidade para receber orientação e abrir um processo administrativo
- Leve documentos: RG, CPF, comprovante do golpe, extrato bancário e o registro de ocorrência
- Bloqueie novos empréstimos
- No INSS, é possível bloquear a contratação de novos consignados. Isso protege contra novas fraudes
- Também há a possibilidade de solicitar bloqueios diretamente com os bancos.
- Consulte um advogado ou a Defensoria Pública. Um advogado pode ajudá-lo a entrar com ação judicial para:
o Anular o contrato;
o Reaver valores descontados;
o Pedir indenização por danos morais.


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