O ano era 1972 e a Ditadura Militar precisando de motivos para continuar fazendo de trouxa a população brasileira, deparou-se com uma ideia fantástica. Comprar uma Copa do Mundo para, de tabela, conquistar o planeta. E, assim, uma fortuna monumental foi torrada para criar um torneio sob medida, batizado oficialmente de Taça Independência, mas carinhosamente apelidado de Minicopa. A Confederação Brasileira de Desportos, sob a batuta de um homem que via o esporte como um imenso tabuleiro de xadrez corporativo, decidiu que o país do futebol seria o um anfitrião mais gastador que o Daniel Vorcaro, convidando quase todas as nações dispostas a cruzar o Atlântico com todas as despesas pagas.
O plano de fundo desse festival de patriotismo artificial era uma jogada de mestre que ia muito além das quatro linhas do Maracanã. Enquanto o público assistia aos jogos transmitidos pela primeira vez em cores e ao vivo, os bastidores fervilhavam com jantares caros e promessas políticas sussurradas em hotéis de luxo. Tratava-se, na verdade, da maior boca de urna da história do futebol mundial, financiada indiretamente pelos cofres públicos e patrocinada por gigantes do tabaco e do petróleo, tudo projetado para pavimentar a ascensão de um, vá lá, brasileiro, ao topo do comando do maior, mais popular e lucrativo esporte do planeta.
O desfecho do torneio seguiu o roteiro esperado pelas autoridades, terminando com um gol sofrido de Jairzinho aos 44 minutos do segundo tempo contra Portugal, garantindo o troféu aos donos da casa. Contudo, o verdadeiro campeão daquela epopeia não calçava chuteiras e nem suava o uniforme. O evento serviu perfeitamente para provar que a periferia do mundo capitalista sabia como organizar um espetáculo de massa e que o comando do futebol internacional estava prestes a mudar de mãos, deixando os engomados cavalheiros europeus em absoluto estado de choque.

O que foi a Taça Independência de 1972?
Foi um torneio amistoso de seleções organizado pela CBD para celebrar os 150 anos da Independência do Brasil, disputado entre 11 de junho e 9 de julho de 1972, reunindo seleções sul-americanas, europeias e combinados da África e da Concacaf. O evento fez parte de um pacote maior de comemorações do Sesquicentenário, que incluiu também a Olimpíada do Exército e… a Corrida do Fogo Simbólico da Pátria!
O torneio foi realizado em doze cidades espalhadas pelas cinco regiões do país, de Manaus a Porto Alegre, e teve ampla cobertura televisiva, com transmissão em cores recém-inaugurada no Brasil, dividida entre Globo, Tupi e a Rede de Emissoras Independentes ao vivo ou em VTs, logo após o fim das partidas.
Vinte seleções chegaram ao Brasil, mas o caminho até esse número foi acidentado. Itália, Inglaterra e Alemanha Ocidental recusaram o convite, os dois primeiros por desinteresse e a Alemanha alegando desgaste físico após disputar a Eurocopa de 1972. A União Soviética topou vir, mas, também alegando cansaço devido à Eurocopa mandou um time alternativo, formado quase inteiramente por jogadores do clube ucraniano Zarya Voroshilovgrad. A Inglaterra chegou a ser cogitada em versão “seleção britânica” combinada, com nomes como Bobby Moore e George Best ao lado de atletas da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales, mas a ideia não vingou.
O que vingou foi o primeiro vexame. A Espanha foi sondada como substituta, e alegou que toparia participar se a CBD saldasse uma dívida de 65 mil dólares do Flamengo com o Barcelona, referente ao atacante Sila Batuta, revelado pelo Corinthians, mas que não se firmou na Europa. A dívida foi quitada pela entidade e mesmo assim a Espanha não veio. A vaga acabou no colo da Escócia.

Como foi o torneio?
Um dos capítulos mais folclóricos da história do futebol se deu no estádio do Arruda, no Recife, quando Irlanda e Irã entraram em campo com uniformes praticamente idênticos, ambos em tons de verde. A confusão obrigou um sorteio às pressas, e os iranianos tiveram de recorrer ao uniforme emprestado do Santa Cruz _ o que deve ter feito até a terra tremer em Meca.
Portugal surpreendeu ao chegar à final com uma base quase inteira do Benfica, incluindo Eusébio, e o iugoslavo Dušan Bajević terminou como artilheiro da competição, com 13 gols, entre eles cinco marcados sozinho na goleada de 10 a 0 sobre a Venezuela. Já a estreia soviética, sem a força máxima do time vice-campeão europeu, e a recusa posterior da URSS em viajar ao Chile para a repescagem contra o país então sob a ditadura de Augusto Pinochet, após o rompimento de relações diplomáticas, expuseram como o futebol de 1972 estava longe de ser só futebo. A decisão, no Maracanã, ficou para o último suspiro: Jairzinho decidiu para o Brasil aos 44 minutos do segundo tempo, batendo Portugal por 1 a 0.

O gambito do nadador
Apesar desse nome aristocrático, Jean-Marie Faustin Godefroid de Havelange nasceu na Guanabara em 8 de maio de 1916, filho de um imigrante belga que fizera fortuna como fabricante de armamentos, conforme descreve a biografia do dirigente. Antes de virar cartola, Havelange foi nadador e jogador de polo aquático, tendo representado o Brasil nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936 e, mais tarde, em Helsinque, em 1952.
Formado em direito, empresário bem-sucedido e dono da Viação Cometa, Havelange assumiu a presidência da CBD em 1958 e ali permaneceu até 1973, período em que a entidade organizou as conquistas brasileiras nas Copas de 1958, 1962 e 1970. Foi dali, do comando do esporte brasileiro, que ele construiu a rede de contatos internacionais que o levaria, em 1974, a se tornar o primeiro presidente não europeu da FIFA, cargo que ocuparia por 24 anos, o segundo mandato mais longo da história da entidade, atrás apenas do fundador Jules Rimet.

Por que diziam na época que a FIFA era uma entidade “europeia”?
Porque era, oras. Operando de uma sede modesta em Zurique, com pouco mais de cem entidades filiadas e apenas um torneio relevante, a Copa do Mundo, para o qual só dezesseis seleções se classificavam, a FIFA da época era descrita por Alan Sugden e John Tomlinson, autores citados pela revista FourFourTwo, como pouco mais do que uma operação artesanal comandada por um só homem. A exclusividade do Mundial garantia à Europa o domínio das vagas e da agenda, alimentando o ressentimento de federações da África e da Ásia, que disputavam uma única vaga contra 10 européias.
O episódio mais simbólico dessa tensão foi o boicote de quinze países africanos à Copa de 1966, decidido no congresso da FIFA em Tóquio em 1964, depois de a Confederação Africana de Futebol (CAF) ser tratada com desdém pela cúpula da entidade, segundo livro do pesquisador Paul Darby. Uma carta de 1963 do então secretário-geral da FIFA, Helmut Kaeser, acusando a CAF de seguir uma linha com “germe de despotismo e ditadura”, resume bem o tom da relação. Não à toa, o técnico italiano Alfredo Foni já havia relatado após a Copa de 1966, que a Taça Jules Rimet só cumpriria seu papel quando os cinco continentes estivessem de fato representados.
Quem era sir Stanley Rous?
Foi um lendário árbitro inglês que virou secretário da Federação Inglesa de Futebol entre 1934 e 1962 e sexto presidente da FIFA, cargo que ocupou de 1961 a 1974. Rous, reformulou as Leis do Jogo em 1938, introduziu o sistema diagonal de arbitragem e comandou a FIFA durante a conquista da Copa do Mundo pela Inglaterra em 1966. Mas sua gestão ficou marcada por um apego a um modelo amador e paroquial de administração esportiva, num momento em que o futebol começava a se tornar um grande negócio, conforme descreveu Rose-Marie Breitenstein, sua assistente pessoal por 25 anos, à reportagem da FourFourTwo.
O declínio de Rous se acentuou pela sua insistência em reintegrar a África do Sul sob o regime do apartheid integrada ao futebol internacional, o que gerou profunda revolta nas recém-independentes federações africanas. Idoso e apegado a um modelo de gestão colonialista, Rous não percebeu que o mapa do poder global havia mudado e que sua liderança estava completamente desconectada dos novos rumos da entidade.
No discurso final antes de perder mais uma reeleição, já sentindo o terreno escorregar, Rous chegou a pedir abertamente à UEFA que votasse nele “porque é Europa contra América do Sul”, frase que soou mais com desespero do que estratégia.

Havelange teve apoio da Ditadura Militar?
E de forma substancial. A Taça Independência se situava dentro do projeto de propaganda política do regime militar brasileiro, que via no futebol um instrumento eficaz de afirmação de um consenso social em torno do governo, sobretudo no contexto do chamado “Milagre Econômico” e do Plano de Integração Nacional. O evento se encaixava perfeitamente na retórica do “Brasil grande” que o governo do general Médici cultivava à época.
Essa convergência de interesses, entre a ambição pessoal de Havelange e o projeto de propaganda nacionalista da ditadura, resultou em generoso aporte de recursos públicos: estádios foram reformados e até construídos especificamente para o torneio, e quando as receitas de bilheteria ficaram abaixo do esperado, gerando déficit, foram os cofres públicos que cobriram o prejuízo. O relacionamento pessoal de Havelange com os presidentes militares também é mencionado em depoimento do próprio dirigente ao CPDOC da FGV, no qual ele cita a amizade com Antonio Delfim Neto, a admiração por João Figueiredo e o contato direto com Médici.

Então a Taça Independência fazia parte mesmo era da campanha para a presidência da FIFA?
Isso é praticamente consensual na historiografia especializada, embora com as devidas ressalvas acadêmicas. Os pesquisadores afirmam diretamente que o desejo de Havelange de demonstrar capacidade organizacional, tendo em vista a eleição de 1974, foi fator decisivo para a concretização do torneio, tratando essa tese como uma das explicações correntes na imprensa da época para as recusas de seleções europeias.
Mas contra os fatos não há argumentos. O torneio permitiu a Havelange exibir, diante de dirigentes de vinte federações reunidos simultaneamente em solo brasileiro, estádios modernos, cobertura televisiva em cores e uma logística internacional complexa bem-sucedida, tudo isso dois anos antes da votação em Frankfurt. Dirigentes de peso, como Jean Sadoul da Federação Francesa, saíram do Brasil declarando publicamente que o voto de suas nações pertenceria ao cartola brasileiro no pleito da FIFA de 1974.
Não é exagero dizer que a Taça Independência funcionou como cartão de visitas geopolítico, mesmo que não tenha sido, sozinha, a causa da vitória. O resultado apertado da eleição, (como veremos adiante) sugere que a mobilização diplomática de Havelange, iniciada muito antes do apito inicial da Minicopa e continuada muito depois de seu apito final, foi um processo mais amplo, do qual o torneio de 1972 foi apenas um capítulo, ainda que particularmente vistoso.

Como foi a eleição de Havelange?
A eleição ocorreu em 11 de junho de 1974, durante o congresso da FIFA em Frankfurt, na véspera da abertura da Copa do Mundo na Alemanha Ocidental. No primeiro turno, nenhum dos candidatos atingiu a maioria de dois terços necessária, com Havelange à frente por pequena margem. No segundo turno, bastava maioria simples, e o resultado consagrou a virada histórica: 68 votos para Havelange contra 52 para Rous, conforme coberturas de jornais da época, incluindo o Daily Mirror e o Daily Express.
Havelange percebera que o descontentamento das federações da África, Asia e das Américas com o domínio europeu na FIFA era um trunfo político. Ele prometeu expandir o número de vagas para a Copa do Mundo, dar mais poder de voto e, principalmente, reconhecer a importância dessas nações para o futebol global. Sua estratégia era clara: conquistar o “Terceiro Mundo” para derrubar o “Velho Mundo”. E funcionou.
No segundo turno da votação, Havelange derrotou Stanley Rous ao consolidar uma avalanche de votos vindos em massa das federações da África, da Ásia e da América Central, somados ao apoio unânime da América do Sul. Foi a primeira vez na história que um não europeu assumiu o controle da entidade máxima do futebol mundial.
Naturalmente houve controvérsias. O jornal Daily Express chegou a apontar que Havelange havia pago despesas suntuosas de viagem de cerca de trinta delegados representando entre oito e dez países africanos, prática que o próprio jornal classificou como “perfeitamente legítima” dentro das regras da época, mas que ilustra o nível de mobilização logística e financeira da candidatura brasileira.




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