No dia 22 de junho de 1974 o mundo assistiu às gargalhadas a uma das mais inusitadas cenas da história das Copas do Mundo. Aos 33 do segundo tempo, o Brasil vencia o Zaire (o nome na época da República Democrática do Congo), por 3 a 0 quando o juiz marcou uma falta a favor dos então campeões mundiais. Ao ver Rivelino se preparar para disparar uma “patada atômica”, um zagueiro abandonou a barreira, saiu em disparada em direção à bola e a zuniu à distância. O que poucos sabiam é que ele e seus companheiros jogavam literalmente por suas vidas, ameaçados de exílio ou morte caso o placar contra o Brasil ultrapassasse os três gols de diferença. O que se viu em campo não foi futebol, foi uma aula de sobrevivência.
A Copa do Mundo de 1974 era para ser a grande vitrine de uma nação que, sob o comando do ditador Mobutu Sese Seko, se autointitulava potência emergente do continente africano. O próprio Mobutu financiou a campanha, projetando uma imagem de força que ruiu em campo, depois que os cartolas desviaram o dinheiro dos atletas e ameaçaram até acabar com a vida de suas famílias, caso os jogadores não comessem a grama e fizessem o impossível.
Aquela primeira participação congolesa em Copas foi muito mais do que futebol: foi um capítulo sombrio de manipulação política, violência institucional e resistência humana. Os Leopardos entraram para a história como símbolo do que há de pior no casamento entre política e esporte. Enquanto Mobutu queria projetar uma África forte, só mostrou ao mundo um time refém, desnorteado e tratado como lixo pelo próprio governo. Meio século depois, o Congo ainda busca reencontrar o brilho que um dia lhe foi roubado pelas botas de um ditador e pela ganância de seus asseclas.

O Mobutismo entra em campo
Em 1974, a República Democrática do Congo havia sido rebatizada como Zaire, um nome inventado para soar profundamente africano, mas que era, ironicamente, uma corruptela portuguesa de uma palavra local para “grande rio”. O país vivia sob as mãos de ferro de Joseph-Désiré Mobutu, um governante humilde, que mudou seu nome para Mobutu Sese Seko Kuku Ngbendu Wa Za Banga _ algo traduzido como “o guerreiro todo-poderoso que, por sua força e bravura inabaláveis, vai de vitória em vitória, deixando fogo em seu rastro”.
Precisa dizer mais alguma coisa?
Segundo o historiador David Van Reybrouck, em sua obra monumental Congo: The Epic History of a People, o país tentava se consolidar como uma potência cultural e econômica na África, impulsionado pela alta dos preços do cobre no mercado internacional. E assim o ditador criou uma ideologia oficial de estado, o Mobutismo, uma doutrina baseada no conceito de autenticidade africana. Ele baniu os nomes ocidentais, os ternos e gravatas, substituídos pelo abacost, uma túnica de gola alta sem colarinho, muito parecida com o traje tradicional de Mao Zedhong.
O mobutismo, conforme documentado pelo cientista político Crawford Young no livro The Rise and Decline of the Zairian State, transformou o país em uma cleptocracia clássica, onde todos os recursos do Estado eram canalizados para o palácio presidencial em Gbadolite, apelidado de “Versalhes da Selva”.

Tem até o Che Guevara nessa história?
O cenário que permitiu a ascensão de Mobutu foi pavimentado quase uma década antes, com uma das incursões estrangeiras mais bizarras da Guerra Fria. Em 1965, o revolucionário argentino Che Guevara desembarcou secretamente no leste do Congo com um contingente de 120 guerrilheiros cubanos. Seu objetivo era apoiar a rebelião liderada por Laurent-Désiré Kabila, um jovem marxista que tentava derrubar o governo central de Mobutu, apoiado pelo Ocidente, que em 1960 deu um golpe de estado no líder anticolonial Patrice Lumumba e assumiu o país.
As memórias do próprio revolucionário, publicadas no livro The African Dream: Diaries of the Revolutionary War in the Congo, revelam um fracasso retumbante. Che encontrou tropas locais desorganizadas, lideranças mais preocupadas com bebidas e amuletos mágicos do que com a teoria marxista, e um Kabila frequentemente ausente. O argentino deixou o país meses depois, com uma frase: “Esta é a história de um fracasso”.
A consequência direta dessa intervenção desastrosa foi o fortalecimento de Mobutu perante os Estados Unidos e a Bélgica. Visto como o único baluarte anticomunista confiável no coração da África, o ditador recebeu carta branca financeira e militar do Ocidente para consolidar seu poder absoluto pelas três décadas seguintes.

Do sonho ao calvário
Para projetar a imagem de uma “África moderna” e forte, Mobutu despejou rios de dinheiro na seleção nacional durante as eliminatórias. Os jogadores eram tratados como heróis nacionais. Após a classificação para a Copa do Mundo, Mobutu presenteou cada jogador com uma casa e um carro, numa tentativa de associar seu governo ao sucesso esportivo.
Mas tudo não passava de propaganda, e para os jogadores os problemas estavam só começando. A escolha do apelido “Os Leopardos” para seleção nacional veio diretamente da obsessão de Mobutu pelo felino, símbolo de realeza e agressividade no folclore congolês. Ele jamais era visto sem uma boina de pele de leopardo na cabeça. Contudo, a seleção nem sempre se chamou assim. Nos anos 1960, logo após a independência do domínio belga e muito, mas muito antes do sucesso do “Rei Leão”, o time era chamado “Simba” (Leão em suaíli).
Mobutu embolsou os prêmios prometidos pela FIFA pela classificação, estimados em cerca de US$ 45 mil por atleta. Esses recursos ajudaram o ditador a patrocinar naquele mesmo ano na capital Kinshasa, a famosa “Rumble in the Jungle”, a luta de boxe entre Muhammad Ali e George Foreman, considerada um dos grandes eventos esportivos do século XX, mas que para Mobutu era só mais uma ação mediática para projetar seu regime.

O humilhante 9 a 0
A derrocada do Zaire na Alemanha Ocidental começou nos bastidores, longe das quatro linhas. Após uma estreia digna contra a Escócia, com uma derrota por 2 a 0 em que o time mostrou velocidade e técnica, os jogadores finalmente descobriram que haviam levado um beiço do governo, conforme relatado pelo jornalista britânico Jon Spurling no livro Death or Glory: The Dark History of the World Cup.
Revoltados por estarem jogando de graça enquanto os cartolas esbanjavam em hotéis de luxo, os jogadores ameaçaram entrar em greve. Foram convencidos a entrar em campo contra a Iugoslávia, mas o clima de revolta resultou em um dos maiores fiascos da história das Copas. Sem qualquer disposição tática ou física, os Leopardos assistiram passivamente à goleada de 9 a 0 aplicada pelos iugoslavos. O técnico jugoslavo do Zaire, Blagoje Vidinic, chegou a substituir o goleiro titular por um reserva visivelmente despreparado, agravando o colapso moral da equipe.

Um ditador furioso e o drama contra o Brasil
O 9 a 0 feriu o ponto mais sensível de Mobutu: sua vaidade monumental. Furioso com a vergonha internacional, o ditador enviou membros de sua temida guarda presidencial armada diretamente para o hotel da delegação na Alemanha. O recado, detalhado anos mais tarde pelo zagueiro Mwepu Ilunga em entrevistas à rede BBC, foi um ultimato literal de vida ou morte. Se o Zaire perdesse para o Brasil por quatro ou mais gols de diferença, nenhum jogador ou membro da comissão técnica retornaria ao país, e as consequências seriam fatais inclusive para suas famílias.
Enfrentar o Brasil, então campeão do mundo, transformou-se em um cenário do mais puro desespero. Os Leopardos entraram em campo não para competir por pontos, mas para defender as próprias vidas contra os ataques de Jairzinho e Rivelino. Cada minuto da partida era uma contagem regressiva de terror. O Brasil vencia por 3 a 0, o limite exato da sobrevivência dos congoleses, quando ocorreu um dos lances mais incompreendidos e bizarros da história do futebol.
O desespero de Mwepu Ilunga, que arrancou risos mundiais
Aos 78 minutos do jogo, na cidade de Gelsenkirchen, com o Brasil vencendo por 3 a 0, o juiz anotou uma falta que nem era tão perto assim da grande aérea do Zaire. Jairzinho se posicionou para a cobrança, mas quando o zagueiro Mwepu Ilunga viu Rivelino, famoso pela “patada atômica, também se preparar para arriscar o chute, entrou em desespero.
Tal qual um foguete, ele abandonou a barreira e correu em direção à bola dando uma bicuda para o alto tão forte que quase mandou a pelota para fora do estádio. Gargalhadas gerais entre o público presente e os telespectadores. A imagem correu o mundo como sinônimo de ingenuidade ou ignorância do regulamento. Na época, comentaristas renomados como John Motson, da BBC, atribuíram o ato à falta de conhecimento tático dos africanos.
Anos mais tarde, Ilunga revelou que sabia perfeitamente o que estava fazendo. Em entrevista para a BBC ele admitiu que o chute foi um ato deliberado de desespero para gastar tempo, quebrar o ritmo psicológico dos brasileiros e provocar o árbitro para quem sabe, tomar um cartão vermelho e ganhar mais tempo ainda. A seleção conseguiu segurar o resultado até o apito final. Os jogadores retornaram ao país vivos, mas caíram no ostracismo completo, tendo seus passaportes confiscados e suas carreiras destruídas pela fúria de um ditador que mandou esquecê-los.

A Diáspora Congolesa no Futebol Europeu
A instabilidade política e econômica crônica herdada das eras de Mobutu e as guerras civis gerou uma imensa diáspora congolesa na Europa, transformando o país em uma das maiores matrizes involuntárias do futebol. Muitos atletas de elite mundial nasceram no Congo ou são filhos de refugiados congoleses, mas optaram por defender as cores de seleções europeias, principalmente a Bélgica e a França.
A lista é vasta em quantidade e qualidade. Dela fazem parte nomes conhecidíssimos como o de Romelu Lukaku (filho de congoleses, estrela da seleção belga com passagens por Inter de Milão, Chelsea e Roma), Claude Makélé (nascido em Kinshasa, ídolo do Real Madrid e Chelsea que defendeu a França), Presnel Kimpembe (campeão mundial pela França e zagueiro do Paris Saint-Germain) e Vincent Kompany (eterno capitão do Manchester City e da seleção belga, filho de um ativista político congolês), Christopher Nkunku (meia-atacante do Chelsea e da seleção francesa, também filho de congoleses e o volante Eduardo Camavinga, que embora defenda a seleção francesa e o Real Madrid, nasceu em um campo de refugiados em Cabinda, filho de pais congoleses que fugiam da guerra civil antes de migrarem para a França. Praticamente uma baita Seleção.



O enigma das quatro idades
Poucos casos sintetizam tanto as bizarrices administrativas do futebol congolês moderno do que a trajetória do zagueiro Chancel Mbemba. Ídolo do Porto, do Olympique de Marselha e atual capitão da seleção, ele foi pivô de uma investigação oficial da FIFA que descobriu que ele possuía nada menos que quatro datas de nascimento registradas em diferentes documentos ao longo de sua carreira profissional.
No início da carreira, em clubes menores da capital Kinshasa, ele dizia ter nascido em 1988. Para sua estreia na Seleção, em uma partida da Copa Africana de Nações, ele mandou documentos com o nascimento registrado em 1991. E quando se transferiu para o Anderlecht, da Bélgica, disse que data correta era 1994. Mas para os amigos boleiros dizia que havia nascido mesmo em 1990.
Tudo isso complicou sua carreira internacional. Comprado pelo Porto por quase 10 milhões de euros em 2018, ele não teve seu contrato renovado pelos portugueses, quando estes descobriram o rolo todo e que o jogador poderia ter até cinco anos a mais do que dizia. De lá ele foi para o Marseille e hoje defende o Lille.


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