A possível doação de um Boeing 747-8 da família real do Catar ao governo dos Estados Unidos, para uso exclusivo do presidente Donald Trump como novo Air Force One, está gerando polêmica e acendendo alertas sobre questões éticas. A informação foi divulgada originalmente pela ABC News e confirmada por The New York Times, com base em fontes oficiais ligadas ao Departamento de Defesa.
De acordo com um alto funcionário com conhecimento direto do processo, a aeronave será reformada para atender aos padrões de segurança exigidos para o transporte presidencial e, posteriormente, doada à biblioteca presidencial de Trump. A operação representa um dos maiores presentes estrangeiros já recebidos por um presidente norte-americano — um Boeing novo do modelo 747-8 custa cerca de US$ 400 milhões no mercado comercial.
O plano inclui a adaptação do jato por meio de um contrato com a empresa L3Harris, no Texas, e prevê que a aeronave esteja pronta até o fim do ano. No entanto, ainda não há um acordo firmado entre a Força Aérea dos EUA e a empresa para realizar as modificações, segundo informou um oficial do Pentágono. “Estamos falando de anos, não meses”, afirmou o funcionário, sob condição de anonimato, ao abordar o tempo necessário para concluir o processo.
A aeronave em questão — que tem pouco mais de uma década de uso — foi examinada por Trump em fevereiro, quando estava estacionada no Aeroporto Internacional de Palm Beach, na Flórida. O atual jato de Trump, um Boeing 757 dos anos 1990, contrasta com o modelo mais novo e sofisticado oferecido pelos catarianos, o que torna a oferta ainda mais atrativa ao ex-presidente.
O caso levanta dúvidas legais e éticas, especialmente pela possibilidade de uso pessoal da aeronave após o fim do mandato, ainda que ela esteja sob custódia de sua biblioteca presidencial. A Constituição dos EUA proíbe que presidentes aceitem “emolumentos” de governos estrangeiros, salvo com autorização do Congresso. Segundo uma das fontes, a proposta inicial previa que a aeronave fosse doada diretamente à biblioteca de Trump e que ele pudesse utilizá-la desde já — o que foi considerado inconstitucional. A versão atual foi aprovada por advogados do governo, que afirmam que ela não infringe a cláusula de emolumentos.
Ainda assim, especialistas apontam o ineditismo da situação: na biblioteca presidencial de Ronald Reagan, por exemplo, o Air Force One foi preservado como peça de museu, sem uso privado posterior. A eventual utilização da aeronave por Trump após o mandato estabelece um novo e controverso precedente.
Até o momento, a Casa Branca não respondeu aos pedidos de comentário sobre o caso.





