Uma ampla investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro, em parceria com o Ministério Público estadual, desarticulou uma rede criminosa responsável pelo fornecimento de armamento pesado e drogas para o Comando Vermelho (CV), expondo os bastidores de uma engrenagem milionária voltada à expansão territorial da facção. A operação, batizada de Contenção, teve desdobramentos em quatro estados e resultou na apreensão de 240 armas — entre elas, 16 fuzis —, 43 mil munições, documentos, dinheiro em espécie e relógios de luxo, em uma mansão na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. As informações são do jornal O GLOBO.
Segundo a investigação liderada pela delegada Patrícia Uana da Rocha Cambraia, titular da 60ª DP (Campos Elísios), o ponto de partida foi a prisão de três suspeitos com ligação ao CV em Duque de Caxias, no início de 2023. Com os detidos, os agentes encontraram um caderno com anotações e números de telefone que desencadearam um novo inquérito. Com autorização judicial, a polícia passou a monitorar conversas telefônicas e trocas de mensagens. Em pouco mais de um ano, os investigadores desvendaram uma estrutura organizada que movimentou mais de R$ 40 milhões em armamentos, munições e drogas, com pagamentos muitas vezes feitos por Pix e depósitos fracionados.
Entre os principais alvos da operação está Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, conhecido como Zeus Muzema ou Da Roça, apontado como chefe do Comando Vermelho na comunidade da Muzema, na Zona Oeste. Oriundo de Rondônia, ele teria passado um período refugiado no Complexo do Alemão antes de assumir o controle da favela, em meio à disputa violenta com milicianos. Os investigadores descobriram que Da Roça era meticuloso: mantinha planilhas detalhadas de compras, indicando datas, valores e fornecedores. Apenas entre fevereiro e março de 2023, ele investiu mais de R$ 5 milhões em armas e munições.
Na lista de aquisições, constavam um fuzil calibre .50, capaz de derrubar helicópteros, comprado por R$ 240 mil; fuzis .762 por R$ 85 mil cada; fuzis .556 por R$ 55 mil; e um lote de 14 mil projéteis para fuzis AK-47, pelo valor de R$ 505 mil. Um carregador de AR-15, comprado por R$ 725 a unidade, teve um lote de 262 peças negociado por quase R$ 190 mil.
O material bélico era fornecido por pessoas com fachada legal. Um dos investigados é Eduardo Bazzana, dono de uma loja de armas e presidente de um clube de tiro em São Paulo. Ele foi preso após a polícia rastrear movimentações financeiras que envolviam transferências diretas entre contas ligadas a Da Roça e as empresas de Bazzana. Um dos relatórios do Coaf apontou que o empresário recebeu R$ 1,6 milhão em transações relacionadas à venda de carregadores e munições.
— É um mercado cinza. Toda a operação é lícita até um determinado momento em que entra na ilegalidade. É uma atividade muito rentável e que estimula essas pessoas a entrarem no mercado cinza, porque elas possuem as autorizações do Poder Público — afirmou o delegado Carlos Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil.
Apreensão de arsenal em área nobre
A parte mais vistosa da operação ocorreu na última terça-feira, quando agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em imóveis de luxo nos condomínios Mansões e Novo Leblon, na Barra da Tijuca. Em uma das residências, pertencente ao empresário Jhonnatha Schimitd Yanowich, foram encontradas 16 fuzis — dois deles de calibre .30, de uso restrito —, 20 pistolas, dinheiro em espécie e dois relógios de luxo avaliados em R$ 2,5 milhões. Em um deles, os números eram representados por pedras de diamante.
Yanowich, preso na noite anterior em São Paulo, foi denunciado por lavagem de dinheiro e será investigado por associação ao tráfico. A polícia também identificou a compra de uma casa no Condomínio Mansões por R$ 9 milhões por Bruno de Lemo Garcia, considerado laranja de Yanowich, e sua posterior revenda a um filho menor do empresário por apenas R$ 500 mil — uma das transações consideradas suspeitas pelo Coaf.
A origem das armas apreendidas chamou atenção dos investigadores: havia modelos fabricados nos Estados Unidos, Japão, Israel e também no Brasil. A operação teve ainda apoio da Homeland Security Investigations, órgão ligado ao Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos.
— A investigação identificou e prendeu pessoas que passavam completamente despercebidas da atuação policial. Fizemos uma grande apreensão de armas e munição em uma mansão de luxo na Barra da Tijuca. As pessoas sempre falam que a polícia só vai à favela e tem que prender os tubarões do tráfico que estão fora. Pois bem, hoje a polícia também fez isso e tirou essas pessoas de circulação — declarou o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi.
Prisões e desdobramentos
Além de Bazzana, Yanowich e Bruno de Lemo Garcia, também foram presos Sidney Emerson da Silva, Adriano César de Camargo, César Sinigalha Alvares, João Vinicius Tavares Corrêa, Alexandre da Silva, Rondinei Aparecido de Assis e Silva e Pedro Gustavo da Silva. O Ministério Público pediu a prisão de 22 pessoas. Até o momento, Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, o Zeus Muzema, não foi localizado.
A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos citados até o fechamento desta edição.





