A trajetória de Tiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias, mudou drasticamente nos últimos meses. Dono de 15.105 votos em sua estreia eleitoral em 2022, ele alcançou apenas a segunda suplência pelo MDB na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Com a morte do deputado eleito Otoni de Paula Pai e a saída do substituto para o governo, o joalheiro dos famosos assumiu a vaga em junho de 2023. Na posse, prometeu atuar com “honra, lealdade e dedicação ao povo do Estado do Rio”. Um ano depois, foi preso acusado de integrar a cúpula do Comando Vermelho (CV).
Segundo a Polícia Federal, TH não apenas se aproximou da facção, mas teria se tornado um de seus chefes, beneficiando criminosos que aterrorizam comunidades e tentando ampliar o poder político do grupo.
O projeto político do CV
As investigações, divulgadas por reportagem do jornal O Globo, revelam que o CV pretendia lançar Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, a vereador em Duque de Caxias. Preso por tráfico, ele ganhou notoriedade como chefe do comércio de drogas na favela do Lixão e, posteriormente, como aliado de Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, líder do CV no Complexo do Alemão.
Mensagens interceptadas pela PF mostram conversas entre Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, ex-assessor de TH, e Índio. Nelas, Dudu afirma ter discutido a candidatura com o joalheiro e com Alessandro Pitombeira Carracena, ex-subsecretário estadual de Defesa do Consumidor, também apontado como integrante do “Núcleo Político” da facção. Tanto Dudu quanto Carracena foram presos na mesma operação que levou TH para a cadeia.
Milhões em dólares e cargos na Alerj
A PF afirma que entre 2021 e 2023 TH e seus associados movimentaram cerca de R$ 13 milhões. O parlamentar teria atuado como cambista da facção, realizando trocas de moeda que somaram R$ 9 milhões. Em uma das operações, discutia receber apenas notas de cem dólares da “faixa azul”, por serem mais valorizadas.
Além dos negócios, o esquema envolvia cargos públicos. Em uma conversa, três dias antes da posse de TH, Dudu informou a Índio que já estava “vendo as vagas” na Alerj e havia reservado uma para sua esposa, como agradecimento. “Tem auxílio alimentação alto e mais R$ 1,4 mil por cada filho. Vou fazer o cálculo amanhã, mas é em torno de R$ 12 mil líquidos e R$ 15 mil na carteira”, escreveu. A mulher acabou nomeada até maio deste ano, mas recebendo apenas R$ 2 mil mensais.
Para a PF, “tal fato configura não apenas uma imoralidade, mas um ato de lavagem de capitais e corrupção, onde o cargo público é utilizado como instrumento de remuneração indireta e mecanismo de blindagem institucional ao núcleo familiar de uma das lideranças da organização criminosa”.
Armas, drones e desavenças internas
O grupo também se envolveu em negócios de armas. Documentos apontam que TH e Dudu compraram bazucas antidrones para a facção, mas o pagamento demorou a ser feito. Índio teria enviado a foto de maços de notas de R$ 2, somando R$ 55 mil, como parte da quitação. Mesmo assim, houve reclamações de que os equipamentos não davam conta do grande número de drones usados pelas forças de segurança. Dudu então prometeu reforçar as bazucas com antenas mais potentes.
Outro episódio de tensão foi um chá revelação que teria consumido parte de valores desviados de uma transação de câmbio, gerando atritos com Pezão. Para se recompor, TH teria oferecido cargos públicos antes mesmo de tomar posse.
Queda política e expulsão do partido
Com a prisão na última quarta-feira, TH perdeu o mandato, retomado pelo suplente, e foi expulso do MDB. O caso também respingou em outras figuras: o delegado federal Gustavo Stell, acusado de repassar informações sigilosas ao grupo, pediu uma vaga na Alerj, mas não foi atendido.
A defesa de Stell afirma que ele é inocente. Os advogados de TH negam publicamente as acusações, enquanto outros citados não responderam aos contatos da imprensa.
A investigação, no entanto, reforça a suspeita de que o Comando Vermelho buscava não apenas controlar o crime organizado nas comunidades, mas também conquistar espaço dentro das instituições democráticas do Estado.






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