Samba de compositor bolsonarista anima, sem autorização, campanha de Javier Milei na Argentina (Ouça a música)

O comício que encerrou a campanha de Javier Milei à presidência da Argentina, na última quarta-feira (18) em Buenos Aires, , foi marcado por mais uma de suas performances ao estilo de estrela do rock que já se tornou a marca registrada do candidato de extrema direita que lidera por pequena margem as pesquisas de opinião.…

O comício que encerrou a campanha de Javier Milei à presidência da Argentina, na última quarta-feira (18) em Buenos Aires, , foi marcado por mais uma de suas performances ao estilo de estrela do rock que já se tornou a marca registrada do candidato de extrema direita que lidera por pequena margem as pesquisas de opinião.

Mas a reprodução de um jingle em português e no formato de samba-enredo durante a atração, que reuniu 15 mil pessoas em uma arena esportiva, surpreendeu não só o público como o próprio autor da canção, o brasileiro Edmar Marques Silva, de 60 anos, conhecido como Boca Nervosa.

“É o Milei, é o Milei, eu antes eu não sabia, mas agora eu sei”, diz a música tocando em alto volume no ginásio lotado no vídeo que circulou nas redes sociais, enquanto o público espera pela chegada do candidato.

Apesar de sua música estar sendo usada na campanha, seu autor, um sambista radicado em São Paulo e conhecido pelo nome artístico Boca Nervosa, disse ao jornal Folha de S. Paulo que não tinha ideia de que Milei sequer conhecia o samba.

A música teve repercussão no Tik Tok, onde o cantor soma 66 mil seguidores, e já ganhou até capa própria no Spotify, mas ele garante que não foi procurado pela campanha do argentino e tampouco foi remunerado pelo trabalho.

“Eu soube pela internet, não recebi um centavo de nada. Tanto é que quando viralizou e tocou no comício, pensei: ‘Poxa, deveria estar rico agora’”, afirmou Boca Nervosa por telefone.

Um vídeo com cenas da campanha eleitoral na Argentina ao som do samba-enredo tem circulado no WhatsApp. O cantor assegura que não tem relação com a montagem – e frisa que incluíram até mesmo legendas em espanhol.

Boca Nervosa ganha a vida tocando em bares na capital paulista, mas é conhecido entre seus pares por fazer sambas de conotação política – e por seu apoio a Bolsonaro nas últimas eleições.

Num de seus sambas políticos que fez sucesso durante o auge da Lava-Jato, “Não é nada meu”, de 2016, ele ironizava Lula por ter negado ser o dono do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia. O então ex-presidente foi condenado e preso pela Lava-Jato no caso do imóvel no litoral paulista, mas o processo foi anulado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021.

Nas últimas eleições, seu pagode “Faz o L, jumento” teve mais de 2,5 milhões de pageviews no TikTok. A canção “ Janja, vice-presidenta” teve quase 100 mil views no mesmo aplicativo.

Embora Milei tenha recebido apoio expresso da família Bolsonaro e vários políticos da direita brasileira estejam engajados na campanha do argentino, Boca Nervosa afirma que ninguém pediu a ele para fazer o samba.

Na conversa com os jornalistas, ele falou que decidiu compor a música depois que um amigo músico e brasileiro que mora na Argentina contou sobre um curioso candidato que ameaçava o establishment político da nação vizinha ainda no início do ano. Ele não conhecia Milei na época, mas foi ler o que já havia sido publicado sobre ele, assistiu a vídeos e se encantou pelo político.

Mas se de fato Boca Nervosa não recebeu nenhuma encomenda para fazer o samba, entendeu direitinho o que a campanha de Milei precisava.

O refrão “É o Milei, antes eu não sabia, mas agora eu sei” caiu como uma luva para a campanha do argentino, que mira indecisos para tentar ganhar a eleição já no primeiro turno, que ocorre neste domingo, e espera contar com apoio da expressiva comunidade brasileira no país vizinho.

Na letra, referência a uma série de elementos que marcaram a candidatura do argentino, como o compromisso de dolarizar a Argentina, cortar ministérios e acabar com a inflação – hoje na faixa dos 140% ao ano.

Para um observador atento da disputa presidencial ouvido sob reserva, o endosso da campanha de Milei a um samba brasileiro que viralizou nas redes é estratégico por reforçar a narrativa de união da direita internacional em prol do candidato contra o peronismo.

Embora diga que não é bolsonarista, mas apenas um cidadão “de direita” que atua “pelo país”, Boca Nervosa se orgulha de ser seguido nas redes sociais por Eduardo e Flávio Bolsonaro, e diz esperar que Milei ajude a enfraquecer o Foro de São Paulo, grupo que congrega partidos de esquerda da América Latina.

Seu trabalho também já atraiu a atenção de outros bolsonaristas conhecidos, como a deputada Carla Zambelli (PL-SP) e o empresário Luciano Hang, da Havan, que já o recebeu pessoalmente em uma sede da empresa em Santa Catarina e elogiou suas músicas nas redes sociais.

Boca Nervosa, porém, diz que não teve mais contato com eles desde as eleições do ano passado. E faz questão de frisar que o hábito de compor sambas políticos não vem de hoje:

“Todos os dias eu componho uma música. Faço sambas políticos desde 1983. Já fiz letras críticas ao Jânio Quadros [prefeito de São Paulo entre 1986 e 1989, além de ex-presidente], aos escândalos do PC Farias [tesoureiro de Fernando Collor em 1989], do mensalão… Ou seja, eu tenho esse projeto há muitos anos, desde antes do PT chegar ao poder”.

Ele também não disfarça a expectativa pela eleição argentina, marcada para o próximo domingo (22).

“Espero que o Milei vença. Se ele usar o samba na vitória, então, vou ficar mais feliz ainda. Para mim é ótimo porque as pessoas ficam sabendo que faço jingle. Uma referência internacional ajuda muito na carreira”, torceu Boca Nervosa.

Apesar do sucesso e das constantes viralizações, Boca Nervosa se diz vítima de censura. Alguns dos seus vídeos mais visualizados na plataforma, todos com críticas carregadas ao PT e aos eleitores de Lula, tiveram o áudio removido pelo TikTok e passaram a exibir uma tarja sinalizando problemas relacionados a direitos autorais. Nos comentários, apoiadores de Bolsonaro se solidarizaram.

O cantor alega que o algoritmo das plataformas tem prejudicado o alcance de suas publicações, o que teria impactado até mesmo uma campanha para arrecadar dinheiro através do Pix. “Parece que estamos vivendo em uma ditadura”, resumiu, pouco antes de desligar.

Com informações da coluna de Malu Gaspar, no Globo.

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