Uma tampa de bueiro some. Depois, um hidrômetro, fios de cobre, grades, portões. Aos poucos, o que é público (ou privado) vira sucata nas mãos de quadrilhas que lucram com a venda ilegal de metal. No Rio de Janeiro, o furto desse tipo de material deixou de ser exceção. O Agenda do Poder apurou que, só no fim de 2024, a Polícia Militar prendeu mais de 230 suspeitos ligados a esses crimes — uma média de quase dois por dia.
Embora os objetos de furto pareçam inofensivos, produzem prejuízo em uma cadeia complexa e altamente lucrativa. No fundo da engrenagem, estão os chamados “lobos solitários”, conforme as autoridades. Pessoas que, muitas vezes em situação de vulnerabilidade, agem por conta própria em busca de dinheiro rápido.
Já no topo, estão empresas estruturadas, com logística, fachada legal, contatos certos e, muitas vezes, uma rede de proteção.
“Quando falamos de materiais metálicos, estamos nos referindo a itens como cabos e hidrômetros, mas o que realmente interessa aos criminosos é o cobre”, explica o delegado Allan Luxardo, titular da 42ª DP (Recreio).
Segundo ele, quadrilhas organizadas já desenvolveram um verdadeiro “saber fazer” do furto urbano: “Essas quadrilhas montam toda uma estrutura: usam caminhões, funcionários, uniformes, cones na rua — tudo para passar a aparência de legalidade”, detalha.

Foi essa a situação que se revelou diante dos olhos de Rayane Magno, de 22 anos. Moradora da Taquara, na Zona Oeste do Rio, ela flagrou uma tentativa de furto tarde da noite, quando amamentava seu bebê. Na ocasião, ela estava do lado da avó.
‘Olho de gato’
“Eu acordei às 4h para amamentar meu bebê e minha avó acabou acordando junto. No momento, escutei um barulho alto parecido com bueiro e comentei com a minha vó. Na mesma hora, ela olhou na janela e eles saíram, deixando a tampa lá. Não sei se era furto de fio ou iam tentar levar a tampa, mas eles estavam com roupa parecida com roupa de obras azul, aquele olho de gato e um carro branco. Assim que notaram minha vó, eles saíram”, lembra.
Em 2023, a Light registrou 264 ocorrências de furtos de cabos que deixaram mais de 108 mil pessoas sem luz por um tempo médio de 2 horas. O levantamento feito pela concessionária revelou que a Tijuca, na Zona Norte, lidera o ranking dos bairros com maior incidência de furtos de cabos, seguida da Barra da Tijuca, na Zona Oeste. Essa região, inclusive, concentra os casos mais alarmantes.
Luxardo destaca que as quadrilhas organizadas se diferem dos lobos solitários por um motivo específico: elas sabem o tipo de material que, quando retirados, causa “menos estrago”. No mundo dos fios telefônicos e de energia, existem dois tipos de cabos, os ativos e os inativos.
“Algumas dessas quadrilhas são altamente especializadas e visam cabos inativos, principalmente em túneis. Elas sabem exatamente onde estão esses cabos, para evitar cortar os ativos e causar interrupções de serviço. Como os inativos não fazem falta, ninguém percebe o furto”.
Para os criminosos destas organizações, os alvos preferidos são cabos inativos que ficam localizados em túneis ou estações abandonadas. O furto deste tipo de material pouco influi nos serviços de internet, fornecimento de energia ou de telefonia, reduzindo a chance de descoberta do crime.
Já a outra ponta do esquema é menos sofisticada, mas igualmente nociva. São homens e mulheres que vagam pelas ruas, com ferramentas improvisadas, em busca de qualquer resíduo metálico que possa ser transformado em trocado: hidrômetros, portões, tampas de bueiro, fiações de telefonia e iluminação pública.

Receptadores: O ‘X’ da questão
No circuito do crime, uma coisa é certa: os objetos têm destino final. “A chave para entender e combater esse mercado está no receptador”, reforça Luxardo. Uma vez que o cobre é derretido, fundido ou fragmentado, torna-se impossível rastrear sua origem.
É nesta brecha que os estabelecimentos legais ou semi-legais passam a operar na ilegalidade, funcionando como ‘’centro de transbordo’’ de materiais furtados, como ferros-velhos, centros de reciclagem e metalúrgicas.
Esses locais funcionam como zona cinzenta da economia, explica o advogado criminalista e especialista em segurança pública Marcos Espínola: “O comerciante que compra cobre queimado, sem nota, danificado, sabe que há algo errado. Não existe inocência nisso. Compra porque quer lucrar”.
Os ganhos financeiros revelam o abismo entre quem furta e quem lucra. Enquanto o lobo solitário arrisca a vida por R$ 20 ou R$ 50, o valor médio oferecido em ferros-velhos de beira de rua, quadrilhas que abastecem empresas maiores podem movimentar cifras milionárias. O mercado paralelo de metais, em especial o cobre, pode girar em torno de R$ 2 bilhões por ano no Brasil, afirma Espínola.
São os furtadores, contudo, que correm os maiores riscos. É o que aponta o antropólogo, pesquisador e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Lenin Pires.
“Os ‘delinquentes’ finais correm os maiores riscos, de prisão, de acidentes e recebem os menores valores. No topo da cadeia, quem transforma, distribui e revende movimenta verdadeiras fortunas. Catadores e recicladores autônomos acabam sendo criminalizados junto com empresas criminosas. Isso distorce o debate e dificulta qualquer tentativa de regulamentação séria do setor”, afirma.
Colapso urbano
Além dos danos financeiros e estruturais, que incluem apagões, interrupções de internet, vazamentos e até acidentes graves, o furto de metais corroi a cidade de forma simbólica.
“Há um impacto direto na sensação de desordem e abandono urbano. A ausência de tampas de bueiro, postes caídos, lixeiras destruídas transmitem a ideia de que o poder público perdeu o controle”, diz Pires. “Essa estética do abandono alimenta a percepção de insegurança e favorece a naturalização do crime.”
A legislação brasileira prevê penas que variam de 2 a 8 anos para furto qualificado. Quando há envolvimento de mais de um criminoso ou o uso de estruturas organizadas, com tarefas definidas e continuidade do trabalho, a pena pode aumentar.
Em 2022, a Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que institui a Política Nacional de Prevenção e Combate ao Furto e Roubo de componentes metálicos como geradores, baterias, transformadores e placas. O texto propõe multas mais rigorosas para empresas envolvidas e endurece a punição para os responsáveis.
Para Espínola, o rigor da fiscalização deve exigir, inclusive, a cassação de licenças e criação de um cadastro nacional de empresas aptas a operar no setor. Na contramão das disputas pelo mercado, as autoridades apontam para investigações que acompanhem do início ao fim do circuito clandestino.
“É preciso que a polícia monitore, tenha informação e trabalhe com serviço de inteligência. Isso envolve uso de testemunhas, diligências de campo, e até o monitoramento de flagrantes. Por exemplo, quando estiver acontecendo o flagrante, postergar o ponto para seguir e descobrir onde eles vão descarregar o material”, conclui o delegado Allan Luxardo.


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