Em algum ponto entre a Crise dos Mísseis e o Golpe Militar de 1964, um clube de futebol do subúrbio da Guanabara decidiu que as tensões da Guerra Fria eram, no fundo, um problema do aspira. O Madureira Esporte Clube não tinha Pelé, nem Garrincha. Tinha, no entanto, uma vocação no mínimo curiosa para aparecer nos lugares mais improváveis do planeta, cumprimentar líderes revolucionários, golear adversários que mal sabiam o que era um escanteio e voltar para casa com histórias que nenhum jornalista da época sabia muito bem como, ou mesmo se poderia, noticiar.
O que ninguém esperava é que esta viraria uma trama que envolveria Che Guevara como “torcedor vip”, um tour de 155 dias pela China comunista, familiares desesperados achando que os jogadores tinham sido “comidos vivos” do outro lado do mundo, e até uma detenção coletiva que envolveu uma troca de farpas geopolíticas entre Brasil e China. Se hoje a FIFA se preocupa com calendário apertado, nos anos 1960 ela se preocupava (e muito) com times de futebol atravessando a Cortina de Ferro sem pedir licença. E o Madureira, com a sua “política internacional” nada ortodoxa, estava prestes a testar a paciência da entidade máxima do futebol, dos militares que tomaram o poder no Brasil e, acima de tudo, das mulheres dos jogadores.
A história do Madureira nos anos 1960 é, em essência, a história de um clube pequeno que se encontrou acidentalmente no centro de eventos que não tinha como controlar. Em nenhum desses momentos o clube parece ter agido com algum senso de missão ideológica. O que ficou foi a fotografia, a camisa e aventura que, décadas depois, valeu mais do que qualquer troféu. O Tricolor Suburbano provou, sem querer, que às vezes a melhor estratégia é simplesmente aparecer nos lugares onde ninguém espera que você apareça. E de preferência sapecando uns golzinhos em time gringo abusado.

O apito inicial
A história do clube e estudos jornalísticos sobre o período indicam que os dirigentes do Madureira, com destaque para a forte influência do empresário José da Gama, adotaram uma política deliberada de expor o time internacionalmente, não apenas como forma de lucro, mas também de “promoção da marca” do clube.
A estratégia de excursões começara mesmo antes de 1963, com viagens pela América do Sul, e foi ampliada de forma estratégica para países do “bloco comunista”, onde poucos clubes brasileiros ousavam ir.
Na verdade, a partir da vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, nosso futebol ganhou um novo status internacional, e clubes brasileiros como Santos, São Paulo, Botafogo ou Flamengo, entre outros, passaram a ser cobiçados para turnês e amistosos internacionais. A “era do futebol‑show” se intensificou, e excursões a países da Europa, América do Sul e, posteriormente, Ásia, se tornaram mais frequentes.
A internacionalização do Madureira
Os dirigentes do Madureira, fortemente influenciados pelo empresário José da Gama, português que presidiu o clube entre 1959 e 1960 e depois atuou como intermediário na negociação das excursões, perceberam que a visibilidade obtida com as turnês internacionais poderia alavancar o nome do clube e trazer retornos financeiros.
A estratégia de excursões começou em 1961 com viagens pela América do Sul, países europeus e asiáticos. Nessa brincadeira, o clube passou 144 dias fora do país, disputou 36 jogos, e se tornou o primeiro clube brasileiro de futebol a visitar o Japão e Hong Kong.
A Excursão a Cuba em 1963
Em maio de 1963, depois de jogar na Colômbia, Costa Rica, El Salvador e México, o o Madureira chegou a Cuba. O time carioca foi o primeiro clube estrangeiro de futebol a visitar a ilha após a Revolução Cubana de 1959, que depôs o ditador Fulgencio Batista e levou Fidel Castro e Che Guevara ao poder. Meses antes Cuba havia passado pela traumática Crise dos Mísseis de outubro de 1962, o momento mais próximo que o mundo chegou de uma guerra nuclear. Era um país cercado de tensão geopolítica.
O Madureira jogou exatamente cinco partidas e venceu todas: 5 a 2 contra o Industriales (então campeão nacional); 6 a 1 contra o Municipalidad de Morrón, da Província de Camagüey; 11 a 1 contra um combinado universitário; e duas vitórias contra uma seleção de Havana, por 1 a 0 e 3 a 2. Mas a bomba midiática viria em seguida.
No dia 18 de maio de 1963, em um dos jogos contra o selecionado de Havana, o Madureira contou com um espectador ilustre. O mítico guerrilheiro Ernesto Che Guevara esteve presente ao estádio. Ao contrário das lendas urbanas, o então ministro da Indústria de Cuba não apitou nem mesmo deu o pontapé inicial da partida. Mas a imagem se tornaria uma das mais icônicas da história dos clubes brasileiros no exterior. Nascido em Rosario, na Argentina, Guevara era torcedor do Rosario Central e fã de Alfredo Di Stéfano; o futebol, portanto, não lhe era algo tão estranho como aos cubanos que amam beisebol e boxe.

A “Viagem Proibida”: o Madureira no Olho do Furacão
O sucesso da excursão cubana abriu uma porta ainda mais improvável. Motivado pelo burburinho da visita a Cuba, o governo de Mao Tsé-Tung convidou o Madureira a jogar em seu país. Em uma época sem merchandising digital, levar o time para jogar logo na China comunista era uma ousadia de marketing. A viagem rendeu ao clube a quantia de quatro mil dólares por jogo, um valor considerável para a época.
Só que em 1º de abril de 1964 o presidente João Goulart foi deposto pelos militares e a excursão virou uma aventura épica, que durou inacreditáveis 155 dias, pelos motivos mais diversos. Não era mais apenas futebol.
O “Caso dos Nove Chineses”
A novela começou no dia 3 de abril de 1964, quando a polícia política da Ditadura Militar invadiu dois apartamentos no Rio e prendeu nove cidadãos chineses, todos funcionários do governo da República Popular da China que haviam chegado ao Brasil entre 1961 e 1964 em missões comerciais e jornalísticas legítimas sob acusação de espionagem.
Sobrou para o Madureira. O time ficou retido na China e chegou a puxar uma cana de 10 dias. O governo chinês teria tentado usar os jogadores como moeda de troca pelos presos no Brasil. A situação só se resolveu após negociações que duraram semanas.
Somando tudo, jogos, viagens, problemas burocráticos, o Madureira passou 155 dias na China, um recorde que poucos clubes ousaram desafiar. Esse feito, embora traumático para os atletas e suas famílias, consolidou o Madureira como um clube de uma resiliência ímpar e entrou para os anais do futebol brasileiro como a maior “turnê” da história em termos de duração.

É verdade que as famílias dos jogadores achavam que o time tinha morrido?
É difícil hoje estimar o tamanho da aflição das famílias em uma época sem telefone celular, internet e com comunicação internacional precária. Histórias coletadas por pesquisadores indicam que alguns familiares de jogadores chegaram, de fato, a cogitar que o time tivesse sido preso ou “perdido” em algum ponto do país comunista.
Essa percepção, no entanto, é registrada mais como memória coletiva e narrativa popular do que como um dado estatisticamente medido. Não há evidência de que a torcida tenha acreditado literalmente que o clube tinha morrido, mas sim que a incerteza gerou um clima de “tensão dramática”, típico de uma aventura internacional que acaba influenciada pelas questões políticas turbulentas da época.
O legado das viagens: punição, glória ou ambos?
No fim das contas, o que as viagens renderam ao Madureira em termos concretos? A resposta é, como quase tudo nessa história, ambígua. A FIFA não aprovava que clubes visitassem países cujas federações não eram reconhecidas ou com quem as relações institucionais do futebol eram problemáticas. Segundo relatos de dirigentes do clube e da imprensa esportiva, a entidade teria repreendido o Madureira pelas viagens a países comunistas e ameaçado o clube com suspensão de até um ano.
A punição, no entanto, acabou sendo mitigada, possivelmente devido ao contexto político interno e à comoção em torno da “aventura” dos jogadores, mas a advertência serviu como um recado claro de que os dirigentes do futebol não tolerariam “desvios” ideológicos em campo.
No Brasil, porém a chapa era mais quente. Não que o Madureira tivesse sofrido qualquer grande punição. Mas os militares passaram a monitorar de perto as atividades esportivas e as relações com o exterior. A ida do Madureira foi vista como um deslize perigoso, e cogitou-se, em altas esferas, a criação de mecanismos de controle mais rígidos para impedir que outros clubes seguissem o exemplo. O clima era de caça às bruxas, e o futebol, como grande vetor de influência popular, não escapou da mira dos generais.

A camisa do Che, o maior sucesso comercial da história do clube
Em 2013, cinquenta anos após a visita a Cuba, o Madureira decidiu transformar a história em produto. A ideia partiu de Carlos Gandola, vice-presidente de marketing do clube, que encomendou duas camisas comemorativas à fabricante carioca WA Sports para a equipe de Futebol de Sete do clube: uma grená com o rosto de Che Guevara estampado na frente e a frase “Hasta La Victoria Siempre” nas costas, e outra, para o goleiro, nas cores da bandeira cubana (azul, branco e vermelho), também com a imagem do revolucionário.
O que era um lançamento discreto para o futebol de sete virou fenômeno. Em menos de duas semanas os estoques se acabaram. Foi a camisa mais vendida da história do Madureira, ultrapassando as fronteiras do subúrbio e virando item de colecionador no Brasil e no exterior.
A publicação britânica Four Four Two incluiu a camisa na sua lista das 50 camisas mais icônicas da história do futebol, em 2017, na 39ª colocação. A publicação destacou que o clube não usou a imagem de Che apenas por modismo, mas como forma de celebrar o momento em que o time conheceu o revolucionário após o jogo de 1963. O Madureira superou uniformes de gigantes europeus e se tornou um símbolo de que história e ousadia vendem mais do que qualquer publi-editorial.


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