Uma faceta política está em destaque na Copa do Mundo de futebol disputada no Qatar.
Várias seleções, informa reportagem da Folha de S. Paulo, planejaram protestos contra o país anfitrião, de regime ditatorial, por violações constantes dos direitos humanos. Além disso, pelo menos sete países europeus enfrentam a Fifa há alguns meses por proibir que os jogadores entrem em campo com a braçadeira do arco-íris e a inscrição One Love, em apoio às causas LGBTQIA+. A Fifa avisou que os árbitros puniriam com cartão amarelo os capitães que entrassem com a braçadeira.
Em nota conjunta, as federações da Inglaterra, da Dinamarca, Holanda, Bélgica, País de Gales e Suíça afirmaram que estavam “preparadas para pagar multas, que normalmente são aplicadas sobre brechas nas regras de uniformes”. Alegaram, porém, que não podiam colocar os jogadores em situação na qual poderiam receber cartões ou mesmo serem forçados a deixar o campo”.
“Estamos muito frustrados com a decisão da Fifa, que acreditamos que é sem precedentes. Escrevemos para a Fifa em setembro informando nosso desejo de vestir a braçadeira One Love para apoiar ativamente a inclusão no futebol, e não tivemos resposta. Nossos jogadores e treinadores estão desapontados. Eles são fortes apoiadores da inclusão e irão mostrar seu apoio de outras formas”, afirmou, ainda, a nota dos europeus.
Nos jogos desta segunda-feira, com os primeiros europeus em campo, Harry Kane (Inglaterra) e Virgil van Dijk (Holanda) usaram braçadeiras com a inscrição “no discrimination” (“não à discriminação”), fornecidas pela própria Fifa como uma forma de abafar o protesto.
Dos 13 países europeus nesta Copa do Mundo, a França já anunciara que não usaria a braçadeira do arco-íris. Polônia, Sérvia, Croácia, Espanha e Portugal calaram.
Antes do início da Copa, os europeus já protestavam contra as condições impostas aos trabalhadores nas obras dos estádios e de infraestrutura. De acordo com a Anistia Internacional, milhares morreram. Eles não tinham acesso a assistência médica, salários adequados, Justiça trabalhista e eram obrigados a fazer jornadas exaustivas.
Em março de 2021, a Noruega, do artilheiro Haaland, entrou em campo trajando uma camiseta com os dizeres “direitos humanos, dentro e fora de campo”.
“Muitos estão interessados no assunto, se preocupam e querem fazer algo para tentar contribuir”, comentou na época Odegaard, titular do Arsenal.
Clubes noruegueses queriam inclusive que a seleção boicotasse o Mundial –mas a Noruega não foi classificada.
Hoje, ao estrear na Copa, a Dinamarca entrará em campo com um uniforme em que praticamente não aparece com o escudo da equipe e nem o da Hummel, a fornecedora de materiais esportivos.
“Não queremos ser visíveis durante um torneio que já custou a vida de milhares de pessoas. Apoiamos a seleção dinamarquesa até o fim, mas não apoiamos o Qatar como sede. Acreditamos que o esporte deve unir as pessoas, e quando isso não acontece, queremos marcar uma posição”, postou Eriksen, o líder do time dinamarquês.
A duas semanas da estreia, os jogadores fizeram mais uma tentativa de protesto. Queriam treinar no Qatar usando uma camiseta com a inscrição “direitos humanos para todos”. A Fifa impediu.
Já a camisa 2 da Bélgica foi barrada pela Fifa dois dias antes da estreia no Mundial, nesta quarta-feira, diante do Canadá. A segunda camisa da seleção, branca, ganhou a inscrição “love” (“amor”) na parte interna da gola.
“A seleção belga jogará com a camisa principal vermelha nos três primeiros jogos”, disse o porta-voz da seleção, Stefan van Loock. Caso a Bélgica avance, a questão será resolvida, completou o belga.
E os protestos no Mundial não se dirigem só ao Qatar. Nesta segunda-feira, a seleção do Irã se recusou a cantar o hino na partida de estreia contra a Inglaterra. Foi uma demonstração de solidariedade à onda de manifestações que têm acontecido no país nas últimas semanas, desde a morte da jovem Mahsa Amini, curda de 22 anos, assassinada pela polícia moral, em Teerã, por violar uma lei que impõe um código de vestimenta.
O protesto não ficou restrito às quatro linhas. Muitos torcedores e torcedoras levaram faixas e bandeiras com dizeres como “liberdade para o Irã” e “mulheres”. Em outra, as palavras eram “mulher, vida e liberdade”.
Se jogadores e torcida se manifestaram contra o regime iraniano, o técnico da seleção, o português Carlos Queiroz, foi na contramão.
Na entrevista no dia que antecedeu o duelo com os ingleses, foi questionado sobre os direitos das mulheres no Irã. O treinador se levantou incomodado, e antes de deixar a coletiva, respondeu ao jornalista que ele “devia pensar também sobre o que acontece com os imigrantes na Inglaterra, como são tratados”.
Do lado brasileiro, qualquer protesto ou posicionamento a favor dos direitos humanos seria uma surpresa.
Antes do início do Mundial, a Fifa escreveu às federações pedindo que se concentrassem no futebol durante a Copa, e que não deixem que o esporte seja arrastado para questões ideológicas ou políticas. A seleção, que estreia nesta quinta-feira contra a Sérvia, parece ter acatado o aviso.






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