Praças do subúrbio do Rio têm brinquedos quebrados, lixo e risco para crianças, aponta relatório

Levantamento de gabinete mapeou 138 praças e revelou a grande desigualdade entre áreas nobres e perfiéricas

Enquanto bairros da Zona Sul e da Barra da Tijuca contam com praças bem cuidadas, acessíveis e equipadas, o cenário é bem diferente nos subúrbios do Rio. Um levantamento divulgado na última semana pelo gabinete da vereadora Thais Ferreira e reportado pelo jornal Extra escancarou a desigualdade na infraestrutura dos espaços públicos de lazer infantil. O relatório, intitulado “Qual criança tem o direito de brincar?”, aponta que as praças da Zona Norte e da Zona Oeste concentram quase a totalidade dos equipamentos danificados ou perigosos para crianças.

Foram avaliadas 138 praças em diversas regiões da cidade durante o mês de abril. Dessas, 83 apresentavam itens que oferecem risco, como ferros expostos, fiações descobertas e brinquedos quebrados. Apenas um desses locais está na Zona Sul — o restante, 89%, encontra-se nas periferias.

Entre os piores espaços avaliados estão a Praça Amor de Núbia, em Santíssimo; a Praça Juan Espanhol, em Água Santa; e uma praça sem nome na Rua Doutor Nunes, em Olaria. Os dados revelam não apenas o abandono físico, mas uma exclusão geográfica de parte significativa da população infantil da cidade em relação ao seu direito ao lazer seguro.

— Esses dados não falam apenas sobre infraestrutura, mas sobre quem é visto como prioridade pelo poder público. Brincar também é um direito, mas infelizmente nem toda criança tem esse direito garantido. Diante do que constatamos, já passou da hora de ligar o alerta vermelho porque em mais da metade das praças que visitamos, o direito ao brincar virou perigo — afirma Thais Ferreira.

Das praças visitadas, somente 38 tinham todos os brinquedos em bom estado. A maior parte dessas está concentrada em regiões de renda mais alta. Bairros como Madureira, Oswaldo Cruz, Cascadura, Irajá (Zona Norte), e áreas da AP5 na Zona Oeste, registraram que em 60% das praças os brinquedos estavam danificados ou simplesmente inexistentes. Apenas três locais possuíam estrutura de acessibilidade e sete tinham fraldários — todos localizados na Zona Sul.

A equipe da vereadora utilizou denúncias de moradores e visitas de campo com registro fotográfico para mapear os espaços. Foram avaliados critérios como acessibilidade, iluminação, número de lixeiras e riscos estruturais.

Com base nos resultados, o mandato fez 117 indicações à Prefeitura do Rio, solicitando ações de reparo e manutenção nas praças analisadas. As propostas ainda aguardam resposta.

Concessão de seis parques

Enquanto isso, a prefeitura anunciou na última quinta-feira um edital para conceder à iniciativa privada a gestão de seis parques da cidade pelos próximos 30 anos. O modelo prevê investimento mínimo de R$ 48,9 milhões nos primeiros três anos de contrato.

Os parques incluídos no edital são: Madureira, Garota de Ipanema (Arpoador), Dois Irmãos (Leblon), Parque da Cidade (Gávea), Célio Lupparelli (Campinho) e um sexto a ser confirmado. O projeto foi desenvolvido em parceria com o BNDES e, segundo o prefeito Eduardo Paes, não se trata de privatização, mas de um modelo de “gestão compartilhada”.

Os espaços permanecerão com entrada gratuita, e o contrato prevê contrapartidas socioambientais, repasses financeiros à prefeitura e metas de melhoria na infraestrutura, conforto térmico e oferta de serviços.

A concessão integra o programa Parques Cariocas, que prevê mais de R$ 1 bilhão em investimentos para a recuperação e requalificação de áreas verdes da cidade, com foco em promover turismo local, mobilidade ativa e reordenamento comercial dentro dos parques.

A iniciativa é vista como uma tentativa de reequilibrar os cuidados com o patrimônio urbano, mas ainda não contempla diretamente a situação crítica das praças em bairros periféricos, onde crianças seguem privadas de um direito básico: o de brincar com segurança.

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