Polícia mira bicheiro Adilsinho em ação contra rede de apostas ligada ao PCC

Operação Banca Suja revela ligação entre contrabando de cigarros, lavagem de dinheiro e apostas online na Baixada Fluminense

A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou, na manhã desta quinta-feira (16), a Operação Banca Suja, com o objetivo de desarticular uma rede criminosa responsável por movimentar mais de R$ 130 milhões em apostas on-line, lavagem de dinheiro e contrabando de cigarros. A ação tem conexões diretas com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e envolve empresários e empresas de fachada usadas para ocultar o lucro das atividades ilegais.

A operação é conduzida pela Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD) e ocorre no Recreio, Zona Sudoeste do Rio, e na Baixada Fluminense, principalmente em Duque de Caxias. No total, são cumpridos 15 mandados de busca e apreensão, além de bloqueios judiciais de R$ 65 milhões em contas bancárias, R$ 2,2 milhões em veículos e sequestro de bens encontrados durante as diligências.

Ligação com a máfia dos cigarros e com Adilsinho

Alguns dos investigados desta quinta-feira também são citados em um inquérito que apura a atuação de Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, apontado como um dos chefes da máfia dos cigarros na Baixada Fluminense. Embora não seja alvo direto das buscas, Adilsinho é mencionado nas apurações por suas ligações comerciais com o grupo investigado. A DCOC-LD tenta compreender as conexões financeiras e societárias entre os suspeitos e o contraventor.

Segundo os investigadores, a organização apresenta uma estrutura empresarial complexa, unindo contrabandistas, operadores financeiros e empresários de fachada. Essa rede, além de interligar crimes financeiros e de contravenção, demonstra a expansão de facções paulistas para dentro do território fluminense, algo ainda pouco comum em operações desse tipo.

Palpite na Rede: o cassino virtual investigado

As investigações começaram após a análise das movimentações financeiras da empresa One Publicidade e Marketing Digital Ltda, conhecida comercialmente como Palpite na Rede. O site e suas redes sociais promoviam, de forma ostensiva, atividades ilícitas como cassinos on-line e outros jogos de azar — contravenções penais segundo a legislação brasileira.

O inquérito aponta que a Palpite na Rede, fundada em junho de 2023 e sediada em Duque de Caxias, declarava atuar no ramo de consultoria em publicidade e marketing, mas na prática funcionava como fachada para o esquema de apostas ilegais. A empresa não consta na lista da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda e acumula dezenas de reclamações de apostadores em sites de consumidores.

Em decisão judicial baseada no parecer favorável do Ministério Público, a Justiça destacou que as apostas podem estar “ligadas à exploração do jogo do bicho e outros jogos de azar”. A decisão autorizou o bloqueio de valores e a quebra de sigilos bancários e telemáticos dos envolvidos.

Fábrica clandestina e trabalho análogo à escravidão

Durante as investigações, a Polícia Civil identificou a relação de alguns alvos com uma fábrica clandestina de cigarros desmantelada em julho de 2022, também em Duque de Caxias. Na ocasião, 23 trabalhadores paraguaios foram encontrados em situação análoga à escravidão.

Um dos investigados da Banca Suja teria atuado como contador de quatro empresas citadas no inquérito que apura a existência de uma organização criminosa liderada por Adilsinho, a chamada Banca da Grande Rio, especializada no comércio ilegal de cigarros.

Transações milionárias e empresas de fachada

O levantamento da DCOC-LD revelou uma teia de transferências suspeitas entre contas de pessoas físicas, jurídicas e empresas de pequeno porte sem qualquer lastro financeiro. A estrutura criminosa movimentou cerca de R$ 130 milhões em apenas três anos, utilizando métodos sofisticados de lavagem, como fragmentação de valores e uso de intermediários para ocultar a origem do dinheiro.

Entre as empresas investigadas, está a AGR Distribuidora de Bebidas, que em pouco mais de um ano movimentou R$ 36 milhões, parte em espécie e de forma fracionada. A AGR transferiu mais de R$ 500 mil para a Bettr Filters Filtros para Cigarro Ltda, que tem como um dos sócios a Burj Administração de Imóveis, Investimentos e Participações Ltda.

A Burj, por sua vez, é administrada por Willian Barile Agati, conhecido como “Concierge do Crime Organizado”, investigado por sua ligação direta com o PCC. Essa conexão, segundo a polícia, confirma que o esquema ultrapassa os limites do Rio de Janeiro e envolve uma engrenagem de alcance nacional, articulando o contrabando, o mercado ilegal de apostas e a lavagem de dinheiro.

Investigações em andamento e novas fases previstas

A DCOC-LD deve continuar as investigações para rastrear os operadores financeiros do grupo e suas ligações com outras redes criminosas no Sudeste e Centro-Oeste. Novas fases da Operação Banca Suja estão sendo planejadas, com o objetivo de identificar mais empresas usadas como instrumento de lavagem e de rastrear o destino final dos recursos.

De acordo com os investigadores, o caso escancara a diversificação das fontes de renda das facções criminosas, que passaram a investir em atividades aparentemente legais para dar aparência de legitimidade ao dinheiro do crime. A meta, agora, é identificar os elos contábeis e bancários que sustentavam a rede e aprofundar a apuração sobre o papel do PCC na estrutura de poder financeiro que se consolidou na Baixada Fluminense.

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