A julgar pelo destino dos rebeldes, Madame Satã, esteja onde estiver, deve estar gargalhando com a ironia da história. Depois de uma vida fugindo da polícia, seu túmulo agora pode ser protegido pelo Estado. O malandro, capoeirista e transformista que transformou a navalha em adereço e o levou o escândalo ao estado da arte virou candidato a patrimônio histórico do Brasil. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional avalia um pedido para tombar sua sepultura na Ilha Grande que, se aprovado, será o primeiro patrimônio LGBTQIA+ tombado federalmente no país.
Ainda há incertezas, o processo leva tempo, e não é ainda não há nada dado como pronto, mas o simbolismo já está lançado. O que se desenha ali é o malandro da Lapa, o nordestino trocado por égua, o transformista revolucionário, convertendo-se em ícone nacional. Um feito que, convenhamos, Madame Satã teria recebido com um sorriso de canto e talvez um palavrão de surpresa.
É um desses raros momentos em que o Brasil parece querer reparar simbolicamente o que destruiu na prática. O marginal de ontem pode virar o monumento de amanhã e desse modo, como sempre fez, Madame Satã continua desafiando fronteiras entre o escândalo e a glória, entre o crime e a consagração, entre o inferno e a memória nacional.

Quem era Madame Satã?
João Francisco dos Santos nasceu em 1900, em Glória do Goitá, Pernambuco, filho de ex-escravizados. Segundo o próprio Satã relatou em entrevistas ao Pasquim ele foi “trocado por uma égua” por sua mãe quando criança e veio parar na Guanabara.
Essa versão de troca por égua pode soar literalmente inacreditável, mas seu uso simbólico ajuda a ilustrar o abandono, a miséria, e a vulnerabilidade da infância dele.
Da infância de abandono ao topo da malandragem carioca, a trajetória foi dura. João passou a vier nos piores dos piores submundos da Lapa dos cabarés, dos bares, do samba, e aventuras noturnas nem sempre dentro da lei.
Ele usava cabelos longos, navalha, dominava a capoeira como poucos e era temido nos botecos. Era ainda abertamente homossexual, gostava de se travestir e se apresentar publicamente.
A morte de Geraldo Pereira
A Lapa durante a badalada Belle Époque carioca era um ambiente de sociabilidade à margem, e a vida de Madame Satã não foi apenas de noitadas em cabarés ou rodas de samba e capoeira.
Ele passou cerca de 27 a 28 anos preso, em diferentes momentos da vida. Registram-se dezenas de processos: homicídios, agressões, furtos, porte de arma, desacato.
O caso mais famoso envolve o compositor Geraldo Pereira, criador do samba sincopado, uma das características mais marcantes da MPB. Numa discussão de bar com Madame Satã, o sambista levou uma cacetada e bateu com a cabeça no chão, morrendo depois.
Historiadores recentes, porém, aliviam Satã nessa. Segundo eles Geraldo Pereira já vinha adoentado, e que a briga pode ter sido um agravante, mas não o fator de sua morte.

Onde é exatamente o local de seu túmulo?
Madame Satã está sepultado no cemitério da Vila do Abraão, na Ilha Grande, em Angra dos Reis. A escolha desse local não foi acaso. Entre idas e vindas da prisão, Madame Satã passou quase 28 anos na Ilha Grande.
Após ser libertado pela última vez, ele decidiu permanecer na Vila do Abraão, talvez para se afastar das tentações da Lapa, da perseguição policial, ou simplesmente para construir um fim de vida mais tranquilo.
Ali será mesmo o primeiro monumento LGBTQIA+ tombado no Brasil?
De acordo com o próprio Iphan, não existe até agora registro de bem material tombado federalmente para comunidades LGBTQIA+. O processo formal do túmulo de Madame Satã foi aberto em março de 2025 sob o número SEI 01450.000869/2025-85.
O autor do pedido é de Baltazar de Almeida, pesquisador na área de afroturismo e turismo LGBTQIA+. Ele lidera um movimento com um abaixo-assinado que reuniu quase mil apoios, além de cartas favoráveis de diversas entidades.
A iniciativa é uma ponte entre turismo, memória negra, diversidade sexual e patrimônio.
Qual é a justificativa?
Múltipla e complexa: Madame Satã representa uma figura de resistência negra, LGBTQIA+, periférica, marginalizada historicamente, e seu túmulo constitui bem material tangível dessa memória.
Além disso, existe uma lacuna importante no patrimônio tombado que reconheça personalidades LGBTQIA+ ou negras dissidentes. O processo, então, busca não apenas preservar uma sepultura, mas ressignificar uma memória social e cultural.
Quanto tempo deve levar o tombamento?
Bom, se tudo seguir na temperatura ideal de pressão, pelo menos uns cinco anos.
Um processo de tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) segue algumas etapas: solicitação, abertura de processo, parecer, deliberação pelo conselho superior, publicação no Diário Oficial, inscrição em um dos “Livros do Tombo”.
Segundo o Iphan o processo foi encaminhado para “instrução na Superintendência do Iphan no RJ”. Não é amanhã que vai estar tudo resolvido, mas o movimento está em curso.






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