Búzios, um dos destinos turísticos mais desejados do Brasil, voltou ao centro de uma polêmica antiga: a presença dos navios de cruzeiro nas águas da cidade. A discussão, que opõe setores do comércio local e ambientalistas, ganhou novo fôlego no último dia 30 de abril, quando foi realizada uma audiência pública para debater os impactos das embarcações na economia e no meio ambiente.

De um lado, empresários e trabalhadores do setor de turismo afirmam que os transatlânticos são essenciais para a economia da cidade. Do outro, ambientalistas e moradores pedem mais estudos sobre os impactos ambientais e cobram cautela diante da possibilidade de danos irreversíveis ao ecossistema local.

Economia em alta: comércio defende permanência dos cruzeiros

Para Cesar Fernandes, CEO da Búzios Tour Shop, uma das maiores empresas de turismo receptivo da região, o impacto positivo dos navios é inquestionável. Segundo ele, a temporada 2023/2024 trouxe cerca de 355 mil passageiros e aproximadamente 6 mil tripulantes para Búzios, gerando um impacto econômico direto estimado em R$ 150 milhões. A movimentação turística, de acordo com Fernandes, representa cerca de 2 mil empregos temporários adicionais e o sustento de milhares de famílias.

Para Cesar Fernandes, o impacto positivo dos navios é inquestionável.

“A gente teve um movimento em que quase 80% do comércio da Rua das Pedras fechou por um dia com o slogan ‘Estamos fechando hoje para não fechar pra sempre’. Isso porque os lojistas temem que a suspensão dos navios torne insustentável manter os negócios abertos fora da alta temporada”, declarou Fernandes.

Ainda segundo ele, estudos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendados pela CLIA (Cruise Lines International Association), indicam que cada passageiro de cruzeiro deixa, em média, R$ 647 reais na cidade, valor que contribui para movimentar não apenas lojas e restaurantes, mas também taxistas, guias, barracas de praia e toda a cadeia de serviços turísticos.

Ambientalistas pedem estudos e transparência

Do lado contrário, ambientalistas e representantes da sociedade civil não necessariamente se dizem contra a presença dos navios, mas cobram estudos técnicos atualizados que atestem a segurança ambiental da atividade.

A principal preocupação gira em torno do fundeio das embarcações — o momento em que os navios lançam âncoras para permanecer parados na baía. Segundo críticas, esse procedimento poderia danificar o fundo marinho, incluindo recifes e bancos de coral, comprometendo permanentemente o ecossistema local.

Transatlântico passa pela Praia da Azeda, uma das mais bonitas de Búzios

Entidades ambientais apontam ainda a possibilidade de poluição hídrica e atmosférica, oriunda do despejo de resíduos ou da queima de combustíveis pesados por parte das embarcações, embora empresas do setor aleguem seguir rigorosas normas internacionais estabelecidas pela IMO (Organização Marítima Internacional).

Fernandes contesta essas alegações, afirmando que estudos já realizados entre 2007 e 2011 demonstraram que os pontos de fundeio são seguros, com fundo de lama profundo, sem corais ou estruturas sensíveis.

“Já tentaram até recuperar uma âncora perdida e não conseguiram por causa da profundidade da lama”, afirmou.

Além disso, ele critica a proposta de instalação de boias fixas como alternativa ao uso de âncoras, apontando inviabilidade técnica e econômica.

“Essas boias custariam dezenas de milhões de reais e sequer dariam estabilidade aos navios atuais, que são cinco vezes maiores do que os de dez anos atrás. E vale lembrar: nenhum outro porto no Brasil exige essas boias.”

Audiência pública e o impasse jurídico

A audiência pública do dia 30 reuniu mais de 300 pessoas favoráveis à permanência dos navios e cerca de 50 manifestantes que pediram novos estudos, segundo Fernandes. Na ocasião, representantes do Ibama esclareceram que o órgão não realiza estudos para pontos de fundeio, contrariando uma exigência antiga do Ministério Público Federal.

Esse impasse técnico e jurídico tem travado o andamento do processo regulatório, gerando incerteza para companhias marítimas e empreendedores locais.

“Hoje temos empresas planejando escalas em Búzios para 2027 e 2028. Se a cidade for retirada das rotas por insegurança jurídica, podemos perder um mercado que levamos décadas para conquistar”, alerta Fernandes.

Búzios parou — literalmente — para defender os cruzeiros. Na véspera do feriado de 1º de maio, cerca de 40 lojistas do Centro da cidade realizaram o chamado “fechadão do comércio”, fechando temporariamente suas portas durante uma audiência pública decisiva sobre o licenciamento ambiental da ancoragem de navios de cruzeiro no balneário.

Comerciantes protestaram contra a possível proibição dos navios

A manifestação, com o slogan “Vamos fechar por duas horas para não fechar para sempre”, foi liderada pela Associação do Centro Turístico de Búzios (ACTB), refletindo a preocupação de empresários com possíveis restrições que podem inviabilizar economicamente a presença dos cruzeiros na cidade.

O encontro, realizado na Praça Santos Dumont, foi convocado pela Justiça Federal após ação do Ministério Público Federal (MPF), que questiona o impacto ambiental da atividade. Os navios, que chegam a ultrapassar 180 mil toneladas, estão no centro de uma disputa que envolve economia, infraestrutura portuária e preservação ambiental.

Para os comerciantes, no entanto, o risco mais imediato é econômico.

“Acredito que 90% dos comerciantes fechariam as portas. Búzios é uma vitrine mundial do Brasil e o impacto econômico seria desastroso”, afirma Leandro de Oliveira, membro da Associação do Centro Turístico de Búzios (ACTB).

Leonardo de Oliveira diz que muitos comerciantes fechariam as portas sem os cruzeiros na cidade

A juíza federal Mônica Lúcia do Nascimento Alcântara Botelho, que conduziu a audiência, autorizou o envio de contribuições por e-mail em até 15 dias, seguido do novo prazo de 30 dias para manifestações oficiais. A decisão final ainda não tem data para ser anunciada, mas poderá impactar diretamente a próxima temporada de cruzeiros em Búzios.

Turismo que vai além da escala

O setor empresarial defende ainda que os cruzeiros funcionam como vitrine internacional para Búzios, atraindo turistas que voltam posteriormente para hospedagens mais longas.

“87% dos passageiros dizem querer voltar à cidade. É uma oportunidade de fomentar o turismo de baixa temporada, que é justamente quando o comércio mais precisa”, diz o CEO da Búzios Tour Shop.

Segundo ele, ferramentas como Wi-Fi gratuito com cadastro turístico, instalado recentemente no Píer do Centro, já permitem colher dados mais precisos sobre o perfil dos visitantes e seus hábitos de consumo — informações que poderão embasar futuros estudos de impacto.

E o meio ambiente?

Apesar das garantias apresentadas por empresários, ambientalistas pedem cautela. Segundo eles, a cidade precisa conciliar desenvolvimento econômico com sustentabilidade, respeitando a vocação natural de Búzios como uma área de grande sensibilidade ecológica.

A proposta de realizar novos estudos ambientais independentes e com participação social segue sendo o principal pedido de organizações da sociedade civil, que cobram mais transparência e diálogo entre os diferentes setores.

A atriz Alexia Dechamps, que é moradora de Búzios, está do lado dos ambientalistas. Ela afirma que apenas uma pequena parte dos comerciantes defende o modelo atual dos cruzeiros na cidade.

“Os comerciantes que apoiam isso são pouquíssimos. O próprio Chez Michou, que é o maior comerciante da cidade, está totalmente contra. A maioria dos comerciantes está totalmente contra”, alega a atriz, que já conseguiu uma petição com 2,5 mil assinaturas sobre o tema.

Alexia diz que não é contra os navios, e sim contrária ao aumento do número de embarcações na orla da cidade. Além disso, ela cobra um estudo de impacto ambiental e urbano causados pela atividade. Na cidade. Dechamps também se posiciona contrária ao píer privado na orla. “Não sou contra os navios. Sou contra ter mais navios. Já temos 100 por temporada, 2 por dia. Falei alto e em bom tom na audiência pública, que eu não era contra. Apenas gostaria de pedir um estudo de impacto ambiental e urbano. Nunca mais foi feito. O último tem uns 20 anos. Eu sou contra o píer privado, que privatiza nossa praia. São duas discussões diferentes”, ressaltou Alexia.

Moradora de Búzios, Alexia Dechamps é contra o aumentyo do número de embarcações na costa da cidade

O futuro dos navios em Búzios

A polêmica está longe de um desfecho. O Ministério Público deverá se manifestar sobre o andamento do processo, e a Justiça ainda pode exigir novas medidas de mitigação ambiental. Enquanto isso, empresas de cruzeiros e comerciantes locais seguem na expectativa de garantir a permanência dos transatlânticos — e, com eles, a movimentação econômica que mantém viva boa parte do turismo da cidade.

O desafio, agora, é encontrar um caminho de equilíbrio entre progresso e preservação, numa cidade que depende do mar tanto para sua identidade quanto para seu sustento.

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