PAQUETÁ: A ILHA DA FANTASIA
Reportagem Especial

PAQUETÁ: A ILHA DA FANTASIA

Em reportagem especial para a Agenda do Poder, Jan Theóphilo relata o renascimento cultural da ilha


Transatlânticos, assim como porta-aviões e ilhas, não dão cavalo de pau. Mesmo assim sempre aparece alguém querendo fazer uma bobagem dessas e acaba dando com os burros na água.  Foi o que aconteceu algum tempo atrás quando o então prefeito Marcelo Crivella, derrotado na sua campanha para reeleição, nomeou na bacia das almas como administrador do mais lírico dos bairros cariocas, a ilha de Paquetá, um militar bolsonarista também derrotado na campanha para vereador. Coisas da política. O que se seguiu foi o retrato do espírito de um povo. A autoridade decretou guerra a cultura insular: proibiu rodas de samba, bares com mesas na rua e avisou que não haveria mais desfiles de carnaval. Mas o que pegou mesmo foi a ordem para retirada de 104 placas de madeira com poemas que os moradores da ilha, por iniciativa própria, haviam pendurado em árvores da orla.  Liderados por músicos, jornalistas, artistas plásticos e até pelo padre da Igreja do Bom Jesus do Monte, os moradores decretaram a Guerra da Poesia. E após várias manifestações conseguiram derrubar o administrador fascistóide. A maioria das placas, porém, foi destruída, embora uma ou outra ainda seja vista nas praias da ilha.  

É difícil imaginar uma história como essa, e com esse perfil de manifestantes, em qualquer outro bairro da cidade.  Mas fato é que a tranquila Paquetá, nos fundos da Baía de Guanabara, sempre teve uma forte tradição cultural, que está vivendo um novo boom civilizatório – mais importante do que a troca das velhas charretes puxadas a cavalo por carrinhos elétricos semelhantes aos usados nos campos de golfe –  com a chegada de cada vez mais moradores ligados ao mundo das artes.  “Quando estourou a pandemia do Covid, acho que metade dos artistas de Santa Teresa se mudou aqui para Paquetá “, ironiza Ricky Goodwin, ex-membro da histórica equipe do Pasquim, que se radicou na ilha após o fim do programa Casseta & Planeta, na TV Globo, em 2010, onde atuava como redator.

Ricky Goodwin

“Paquetá vive um verdadeiro renascimento cultural. E acho que isso se deve a dois fatores: a internet e o carnaval “, diz Ricky. Segundo ele, o avanço da tecnologia permitiu a diversos escritores e poetas trocar as selvas de concreto pelo clima bucólico da ilha, com suas ruas arborizadas de terra batida e casas tombadas construídas no século XIX.  Até o momento, entretanto, não surgiu nenhum Paulo Coelho. “Mas foi o carnaval que se tornou a mola propulsora de todo esse processo. Aos poucos, as pessoas começaram a fugir dos megablocos do Rio e passaram a brincar aqui “, conta Ricky. Assim, a ilha que antes tinha apenas duas pequenas escolas de samba de bairro: a Silêncio do Amor e a Unidos de São Roque, contou com 15 blocos de rua desfilando no último carnaval, como o Foliões da Ilha, Pérola da Guanabara e Toma Uma, entre outros. Segundo dados da MORENA, a associação de moradores de Paquetá, durante as folias momescas deste ano a ilha recebeu mais de 12 mil turistas  – praticamente o triplo do número de nativos.

Nesse processo, alguns foram ficando.  Entre eles o baterista Oscar Bolão, um dos maiores nomes no domínio deste instrumento na história da MPB (que faleceu durante a epidemia da Covid), o bandolinista Pedro Amorim e, principalmente, da cantora e compositora Cristina Buarque de Holanda, Irmã de Chico Buarque, Miúcha e Ana de Hollanda. Morta em abril deste ano, Cristina descobriu Paquetá e passou a comemorar seu aniversário todo ano com uma mega roda de samba que atraía alguns dos melhores instrumentistas brasileiros.  “Ela montava uma mesa gigante, que ocupava uma rua inteira, até que resolveu comprar uma casa, onde vivia com 34 gatos “, conta Guto Pires, presidente da MORENA.

Caminhar pelas ruas de Paquetá emula um sentimento semelhante ao de passear por Paraty. E assim como a cidade costeira, a ilha organizou pela primeira vez em 2017 seu festival literário: a Feira Literária de Paquetá, ou para os íntimos, FLIPA, que teve três edições até a eclosão da pandemia do Covid. “A FLIPA tinha uma pegada muito mais comunitária, as editoras que participaram em sua maioria eram pequenas ou independentes “, conta o professor Marcelo Ficher, organizador do evento ” Não tínhamos dinheiro algum de patrocínio, mesmo assim nas três edições conseguimos promover atividades simultâneas em 12 pontos diferentes da ilha, como palestras, mesas redondas ou lançamento de livros “, conta ele. Veio a pandemia e Marcelo adiou os planos de um novo evento para cuidar da Casa Flor, uma pequena pousada e espaço dedicado a atividades gastronômicas e culturais, na qual se radicou ao lado da esposa, a jornalista Taís Mendes.

Pedro Amorim e Conceição Campos

Para a escrita Conceição Campos, casada com Pedro Amorim, Paquetá possui todo um lastro de tradição que permitiu esse renascimento cultural. “A gente tem registros que no século passado nomes como o do Pixinguinha vinham se apresentar nos saraus chiques da ilha. Sem falar de vários nomes de relevância que se estabeleceram por aqui, como o compositor e escritor Orestes Barbosa; o paisagista italiano Giovanni Battista Castagneto ou a pintora de arte naif Lia Mittarakis “, diz ela: ” É preciso fazer jus a este passado, que criou a identidade cultural da ilha “, diz ela brincando com o fato de algumas amigas até pouco tempo acharem que Paquetá era só um ponto turístico, sem sequer moradores.

O engenheiro João Lavrador

“A duras penas a gente vai vencendo as batalhas contra a futilidade, contra as pressões comerciais da aldeia global e acho que hoje estamos num bom caminho, diz José Lavrador Kevorkian.  Entre várias atividades, este engenheiro que fez carreira na Inglaterra, se mudou para a ilha e hoje  atua como coordenador da Casa de Artes Paquetá, onde desenvolve projetos de preservação e revitalização cultural para a ilha, valorizando sua rica identidade e modo de vida, com a comunidade como protagonista e beneficiária. Lá, ele toca os projetos Bem Me Quer Paquetá, Centro de Memória de Paquetá, Orquestra Jovem Paquetá, Série Amartes de Música Instrumental Brasileira, O Choro do Anacleto e o Ponto de Cultura Paquetá na Rede.

Charrete elétrica

E a cena cultural de Paquetá está prestes a ganhar reforço. A casa de D. João VI na ilha, também conhecida como Solar Del Rey, começou a ser restaurada após 15 anos de abandono. O projeto, orçado em R$ 7 milhões, prevê a recuperação do casario, que será reaberto como um centro cultural e espaço de memória.  “Conseguimos salvar o mobiliário, que está no Museu Imperial de Petrópolis, e a biblioteca, com mais de quatro mil volumes. Mas como a casa pertencia originalmente a um traficante de escravos, queremos que ela dialogue também com a questão da diáspora africana “, diz Guto Pires, presidente da MORENA.

Serão investidos R$ 7 milhões na recuperação do Solar Del Rey

Curioso é que muita gente pode pensar que o renascimento artístico de Paquetá, se deva a razões econômicas, como preços de imóveis mais em conta. Mas não é bem assim. Um quarto e sala modesto custa o mesmo de um apartamento nas mesmas proporções em alguns pontos da Zona Sul. E casas como o belo sobrado amarelo debruçado sobre a Praia dos Tamoios onde mora Ricky Goodwin, chega fácil na casa do milhão de reais.  O transporte, feito por balsas, é uma reclamação geral. Paquetá já contou com duas empresas de transporte, uma delas operando aerobarcos que deixavam o nativo na Praça XV em 20 minutos. Hoje a travessia leva pouco mais de uma hora. Mas no fim das contas, é como resume Pedro Amorim, olhando um bando de crianças jogando futebol descalças no meio de uma rua de terra:  ” Paquetá tem muitos problemas? Claro que sim. Mas, sinceramente, eu prefiro mil vezes os problemas daqui do que os de lá “, pontua, mostrando o continente ao longe.

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