* Paulo Baía
Algo está errado. Não é só crise política, porque crise a gente já conhece bem no Rio de Janeiro. O que está acontecendo agora é mais difícil de nomear. É como tentar explicar um jogo cujas regras mudam enquanto a partida acontece.
A decisão do ministro Cristiano Zanin, ao impedir a eleição indireta e manter o presidente do Tribunal de Justiça no comando do estado, não trouxe alívio. Trouxe mais uma camada de incerteza. A política, mais uma vez, foi retirada das mãos dos políticos e colocada em outro lugar, onde o tempo não é o da rua, nem o da urgência social.
O Rio vive uma espécie de desalinho contínuo. O Executivo perde o eixo, o Legislativo tenta se reorganizar e o Judiciário passa a ocupar um espaço que, em teoria, não deveria ser seu. Só que não há mais teoria suficiente para explicar o que se vê.
TJRJ, TRE, STJ, TSE, STF. As siglas se acumulam e, com elas, a sensação de que o estado já não decide por si. Cada movimento relevante depende de uma interpretação jurídica, de uma liminar, de um voto que pode mudar tudo em poucas horas. Não é exagero dizer que o comando político do Rio está condicionado a decisões que vêm de fora da arena política tradicional.
Enquanto isso, os atores seguem jogando.
Cláudio Castro observa e articula. Eduardo Paes mede cada palavra e ocupa espaço com habilidade. Douglas Ruas se movimenta com atenção redobrada, entendendo que o centro real da disputa não está apenas no governo, mas na Assembleia Legislativa. A presidência da Alerj virou peça-chave. Ali se define o caminho. Ali se constrói o roteiro do que pode vir a ser esse mandato tampão até janeiro de 2027.
E ninguém está parado.
A eleição de 2026 já começou, mesmo que oficialmente não tenha começado. Ela aparece nas entrelinhas, nas movimentações discretas, nas falas calculadas. Está nas redes sociais, nas articulações silenciosas, nas conversas que não chegam ao público.
O curioso é que tudo acontece ao mesmo tempo em que ninguém consegue afirmar com segurança qual será o próximo passo institucional. Eleição direta ou indireta. Decisão monocrática ou julgamento em plenário. Uma semana parece conter um mês inteiro de tensão acumulada.
É difícil explicar para qualquer pessoa comum. Quem governa o estado hoje. Quem governará amanhã. Qual regra será aplicada. Qual decisão será mantida. Nada disso é estável.
E essa instabilidade não fica só no plano abstrato. Ela entra na máquina pública, trava decisões, embaralha prioridades. Um governo que não sabe quanto tempo tem não governa, administra o imediato. Reage mais do que conduz.
O mais inquietante é perceber que essa confusão não parece perto de acabar. Ao contrário, há sinais claros de que ela vai se intensificar nos próximos dias. O julgamento no plenário reabre tudo. Recoloca todas as possibilidades na mesa. E cada possibilidade traz um novo ciclo de disputa.
Há também um ruído que cresce, ainda que poucos falem disso de forma direta. A política começa a atravessar os tribunais de maneira mais visível. Não por declarações explícitas, mas pelo peso que cada decisão passa a ter no jogo eleitoral. Isso muda o ambiente. Torna tudo mais sensível, mais tenso.
No fundo, o que se vê é um estado que perdeu a capacidade de oferecer respostas simples. Tudo virou exceção. Tudo virou disputa.
E o cidadão comum olha para isso tentando entender. Tentando acompanhar. Tentando acreditar que existe algum tipo de ordem.
Mas a verdade é que, neste momento, o Rio de Janeiro vive uma situação em que a perplexidade não é exagero. É reação natural.
A confusão é grande. E tudo indica que vai crescer ainda mais na próxima semana.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






Deixe um comentário