Na década de 1940, enquanto o mundo ardia em chamas sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, o Brasil também vivia seus próprios capítulos de vigilância, medo e repressão. Documentos oficiais, pesquisas acadêmicas e reportagens de época revelam que o país adotou políticas de confinamento de estrangeiros considerados “inimigos”. O que pouca gente sabe é que essas estruturas chegaram a ser chamadas, formal ou informalmente, de “campos de concentração”. 

A expressão, carregada de horror, causa estranhamento quando associada ao Brasil. Não se tratava, aqui, de campos de extermínio como os da Alemanha nazista, mas de espaços de detenção e vigilância criados em meio a uma política de segurança nacional durante o governo de Getúlio Vargas. Ainda assim, o uso do termo ainda causa sobressaltos e levanta debates éticos e históricos que seguem vivos até hoje. 

Os chamados “campos de concentração” brasileiros foram parte de um contexto global de medo, guerra e nacionalismo exacerbado. Mesmo diferentes dos campos nazistas eles ainda assim representam um momento em que direitos civis foram suspensos em nome da segurança. Resgatar essa história, com rigor e sem sensacionalismo fuleiro, é fundamental para compreender como democracias podem, em momentos de crise, adotar medidas excepcionais. E, talvez, para lembrar que até países conhecidos pela cordialidade também têm suas sombras. 

Entrada do campo de extermínio de Auschwitz (Crédito: Reprodução)

É verdade que durante a 2ª Guerra existiram 42 mil campos de concentração espalhados pelo mundo? 

Não, é pior. Esses números impressionam porque não tratam apenas de campos de morte como Auschwitz ou Dachau. Havia milhares de subcampos menores, usados para trabalho escravo e repressão política. O termo “campo de concentração” acabou se tornando guarda-chuva para diferentes tipos de instalações. 

De acordo com um estudo do United States Holocaust Memorial Museum, publicado em 2013, o sistema era muito mais vasto do que as estimativas anteriores sugeriam. No total seriam cerca de 42.500 locais que incluíam não só campos de extermínio ou de trabalhos forçados, mas até “bordéis” militares onde mulheres eram escravizadas. 

Essa rede colossal de repressão espalhava-se por toda a Europa ocupada, da França à Rússia. A existência de tantos pontos de confinamento revela que a máquina de segregação e morte do Terceiro Reich estava entranhada na infraestrutura cotidiana das principais cidades europeias. 

Os Aliados também tinham campos de concentração? 
 

E como! Embora a Alemanha nazista tenha levado o conceito ao ápice do horror industrial, ela não estava sozinha. Os Estados Unidos, por exemplo, confinaram cerca de 120 mil pessoas de ascendência japonesa (a maioria delas já cidadãos americanos) em campos como Manzanar, após o ataque a Pearl Harbor. A repressão daria inveja ao famigerado ICE do governo de Donald Trump: bastava o sujeito ter olho puxado para ir em cana. 

No Canadá e na Austrália, políticas semelhantes atingiram imigrantes japoneses, alemães e italianos. Já no Reino Unido, cidadãos considerados “estrangeiros inimigos” (um eufemismo que vale para praticamente qualquer coisa) foram presos, inclusive, e por incrível que possa parecer, judeus que haviam fugido do nazismo. Ainda na Europa, o governo colaboracionista francês do Marechal Philippe Petáin, manteve seus próprios campos de concentração para judeus e etcs, que guardavam prisioneiros de guerra anarquistas e comunistas da Guerra Civil Espanhola. 

Em geral, esses campos não tinham como objetivo o extermínio sistemático, mas sim o controle e isolamento de populações vistas como ameaça potencial. 

Mas como o Brasil entrou nessa? 

O principal articulador da repressão interna foi Filinto Müller, o chefe de polícia da Guanabara (então Distrito Federal), conhecido por sua admiração por métodos autoritários, violentos e por sua eficiência em perseguir opositores políticos e “elementos subversivos”. E sua epifania não surgiu porque ele fosse um grande democrata, até porque, lá no fundinho de seu coração, batia uma certa admiração pelo austríaco de bigodinho esquisito. 

Filinto Muller estava alinhado à Doutrina de Segurança Nacional da época, que via imigrantes de países inimigos como uma “quinta-coluna” em potencial que poderia sabotar portos, fábricas e comunicações brasileiras.  

O Exército e as Delegacias de Ordem Política e Social (DOPS) colaboraram na logística de identificação, prisão e guarda dos detentos, transformando a paranoia governamental em uma política de Estado estruturada. Na prática, isso levou a excessos e inúmeras arbitrariedades, como reconhecem diversos estudos posteriores. 

Existiram mesmo 31 campos de concentração em 13 estados brasileiros? 
 
Como dizem os militares, na guerra, a primeira vítima é a verdade. O número exato de instalações é tema de debate acadêmico, mas a pesquisadora Priscila Perazzo, autora da obra fundamental Prisioneiros da Guerra, identificou uma rede que se aproximava de 31 pontos de detenção ou controle rigoroso distribuídos pelo território nacional. 

Os estados com registros de estruturas de confinamento incluem São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Ceará, Mato Grosso, Pará e Amazonas. São Paulo, com cinco campos, foi o estado com maior número destas prisões. 

As regiões foram escolhidas por diferentes razões: presença de comunidades estrangeiras, infraestrutura disponível ou interesse estratégico. No Sul e Sudeste, por exemplo, havia grande concentração de imigrantes alemães, japoneses e italianos, o que explica o que levou o governo a intensificar a vigilância nessas áreas. 

Ruínas de um campo de concentração em Senador Pompeu, no Ceará (Crédito: Reprodução)

Onde quando foi instalado o primeiro campo de concentração brasileiro? 
 

Aqui há divergências entre os historiadores, mas por detalhes. Há um consenso que eles começaram a ser instalados após agosto de 1942, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo. Mas não há uma data exata única com a qual todo mundo concorde. A tese mais forte é de que primeiro tenha sido o campo de Tomé-Açu, a 180 km de Belém, onde hoje existe a terceira maior colônia de japoneses do Brasil.  

“Muitas pessoas tiveram suas casas queimadas, ficando só com a roupa do corpo. Alguns livros em japonês foram enterrados para não se perder totalmente o que tínhamos. Tive familiares presos, com pessoas consideradas hostis. Foi muito sofrimento.”, declarou Alberto Ke Iti Oppata, filho de sobreviventes e diretor da Cooperativa Agrícola Mista De Tomé-Açu. 

O campo do Pará disputa a primeira colocação com o de Pouso Alegre, em Minas Gerais, frequentemente citado como um dos mais organizados. Localizado nas instalações do 14º Regimento de Artilharia, o campo recebeu marinheiros alemães de navios mercantes capturados e, posteriormente, civis residentes no Brasil. 

Quantas pessoas passaram por estes campos? 

Estima-se que cerca de 3.000 pessoas tenham passado pelos campos brasileiros. Mas é apenas uma estimativa. Como quase tudo de ruim que acontece nesse país, embora o termo “campo de concentração” aparecesse em documentos oficiais da época, o Governo Vargas usou de eufemismos para, digamos, suavizar a imagem do arbítrio. 

Eles eram chamados de “Depósitos de Estrangeiros”, “Colônias Correcionais”, “Hospedarias” ou simplesmente eram identificados pelo nome das fazendas, áreas militares ou presídios onde funcionavam. O que dá uma dor de cabeça danada para os pesquisadores. 

E antes que você pergunte, não. Não há registros históricos de execuções sistemáticas ou políticas de extermínio nos campos brasileiros, o que diferencia drasticamente a experiência nacional do horror do Holocausto. O objetivo do governo Vargas era o isolamento e a neutralização política, não necessariamente a eliminação física dos prisioneiros, embora alguns casos tenham ocorrido. 

Relatos de sobreviventes e pesquisas de historiadores apontam para a prática de tortura psicológica, maus-tratos e violência física por parte dos guardas. O “assassinato” aqui vinha mais na forma da perda de bens, o estigma social de ser um “traidor” e o trauma do isolamento forçado longe da família deixando cicatrizes profundas que muitos levaram para o túmulo sem nunca receber um pedido oficial de desculpas. 

Quando os campos foram fechados? 
 
A desmobilização começou logo após o fim das hostilidades na Europa, em maio de 1945, e acelerou-se com a rendição do Japão em setembro do mesmo ano. Com a queda de Getúlio Vargas em outubro de 1945, o novo governo de transição e a subsequente redemocratização do país tornaram a manutenção desses campos juridicamente insustentável e politicamente vergonhosa. 

A maioria dos prisioneiros foi libertada entre o final de 1945 e o início de 1946. Muitos retornaram para suas cidades e descobriram que suas casas haviam sido saqueadas, seus negócios faliram ou suas terras haviam sido confiscadas. O processo de reintegração foi silencioso e doloroso, marcado pelo desejo do Estado de esquecer rapidamente que aquelas cercas de arame farpado um dia existiram. 

Porém, jamais houve um processo amplo de reconhecimento ou mesmo de reparação imediata aos presos por parte dos governos desde então. 

Entrada do 14º Grupo de Artilharia de Campanha em Pouso Alegre (MG) (Crédito: Reprodução)

Algum campo ainda está de pé? 

Sim, várias estruturas que serviram como campos ainda existem, embora tenham sido ressignificadas. O 14º Grupo de Artilharia de Campanha em Pouso Alegre (MG) ainda ocupa o local onde funcionou o campo de concentração mineiro. Que, sabe-se lá por que, entregou 62 alemães aos EUA quando acabou a guerra.  

No Pará, a colônia de Tomé-Açu transformou-se em um próspero município, e há esforços da comunidade local e de associações nipo-brasileiras para preservar a memória daquele período sinistro por meio da construção de um museu. 

Pelo menos três prédios da UFSC, as ruinas do antigo Hospital Oscar Schneider em Joinville e até um estábulo em Pindamonhangaba fazem parte da lista. E na Guanabara e em São Paulo ainda existem edificações originais, muitas vezes funcionando como prédios públicos ou áreas militares. Infelizmente, poucas possuem placas ou marcos históricos que expliquem claramente o papel que desempenharam como centros de detenção durante a Segunda Guerra Mundial, comuns hoje nas cidades europeias. 

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