O exemplo do PSB

O Partido Socialista Brasileiro, em vez de se deixar capturar pela inércia do tempo, ousa romper o espelho da tradição estéril e lançar-se à reinvenção

* Paulo Baía

Em meio às sombras espessas que recobrem o atual cenário político brasileiro, onde partidos se cristalizam como monumentos à repetição, alimentando-se da mesmice e das lideranças fossilizadas, uma claridade rara se insinua: fulgurante e inesperada. É o Partido Socialista Brasileiro (PSB), que, em vez de se deixar capturar pela inércia do tempo, ousa romper o espelho da tradição estéril e lançar-se à reinvenção. Ao eleger João Campos, jovem prefeito do Recife, como presidente nacional do partido neste primeiro dia de junho, em Brasília, o PSB faz mais do que mudar de comando. Acende uma esperança. Em um país saturado de velhos caciques que se eternizam no poder, o gesto do PSB reluz como metáfora e prática de um tempo por vir.

João Campos não é apenas o herdeiro de uma linhagem política. É, antes, o florescer lúcido de uma árvore cujas raízes mergulham no solo fértil da história: filho de Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, nomes que evocam lutas, sonhos e resistências. Mas não basta herdar. João construiu seu próprio caminho, tornando-se prefeito da capital pernambucana com uma gestão marcada pela inovação, pela inclusão e por uma escuta ativa da cidade. Não se limita à sombra dos antepassados. Ele produz sua própria luz, e essa luz agora ilumina um novo ciclo para o PSB.

O que se passa no Recife ressoa nas vielas e avenidas do Rio de Janeiro, onde o mesmo espírito de renovação se fez gesto concreto. O diretório municipal do PSB, alinhado ao pulso do novo, consagrou como presidente a jovem vereadora e intelectual Tatiana Roque. Professora universitária, filósofa, historiadora das ciências, militante de causas públicas, Tatiana é a encarnação de uma política que pensa, sente e transforma. Sua ascensão não é episódica nem simbólica. É a continuidade de uma aposta estrutural do partido em lideranças que unem densidade intelectual, compromisso republicano e vocação democrática.

Tatiana e João não são frutos de uma improvisação juvenil ou de uma estética da juventude. Representam, juntos, um projeto que desafia a anemia dos partidos contemporâneos e propõe outra gramática para o fazer político. Uma gramática que fala de justiça, de coragem, de empatia, de escuta, de utopia e de gestão com responsabilidade. O PSB não apenas convida os jovens a entrar no salão da política. Entrega-lhes a chave, o mapa e o bastão da travessia. E essa travessia, em tempos tão cinzentos, é quase um ato de resistência luminosa.

Não se trata aqui de celebrar a juventude como fetiche ou de negar o valor da experiência acumulada. O PSB tem a rara virtude de unir o novo ao legado. Carlos Siqueira, que deixa agora a presidência do partido, é um desses construtores silenciosos e firmes que deram ao PSB respeitabilidade e consistência ao longo de décadas, especialmente em períodos de ventos contrários. A passagem da liderança a João Campos não é uma ruptura. É uma travessia serena, em que o tempo antigo estende a mão ao tempo novo. E isso, por si só, já é lição para todos.

Num país onde as siglas se tornaram máquinas — devoradoras de ideias, devotas de interesses, burocratizadas até a alma — o PSB ensina que partido político pode ser escola. Pode ser sementeira. Pode ser casa onde se compartilha pão e pensamento. Enquanto outras legendas insistem em sua arquitetura mofada, impedindo a emergência de vozes novas e desautorizando o presente, o PSB aposta em figuras que vêm do agora, mas que sabem escutar os ecos do passado e imaginar o futuro. Não se trata apenas de uma nova direção. Trata-se de uma nova disposição: ética, estética e política.

A escolha de João Campos e Tatiana Roque indica um desejo profundo de reencantamento da política. Em tempos de desencanto, essa é uma aposta arriscada. Mas também necessária. Porque o Brasil real, o que pulsa nas periferias, nas universidades, nos coletivos, nos bairros esquecidos, nos sonhos clandestinos, é um Brasil jovem, plural, inteligente e ansioso por renovação. É a esse país que o PSB está se dirigindo. Não com promessas vazias, mas com gestos concretos, com rostos vivos, com lideranças que falam com naturalidade a língua do século XXI.

É preciso reconhecer. O que o PSB faz neste junho de 2025 é, ao mesmo tempo, um gesto simbólico e um acontecimento político. Um gesto que transcende a legenda e deve ecoar por todas as direções partidárias do país. Um acontecimento que precisa ser absorvido por todos os que acreditam que a democracia não é um monumento. É um jardim. E jardins, todos sabem, só florescem com renovação, cuidado e coragem.

Enquanto tantos partidos se orgulham de sua estabilidade como se ela fosse virtude, o PSB se orgulha de sua capacidade de mudar sem perder sua alma. Isso é raro. Isso é valioso. Isso é político, no melhor sentido da palavra. Que os ventos da renovação que hoje sopram do Recife ao Rio se tornem correnteza nacional, tocando outras siglas, outros diretórios, outros corações.

Porque, no fundo, o que o PSB está dizendo ao Brasil é simples e imenso. É possível começar de novo. E é preciso fazê-lo com quem tem coragem de sonhar e de fazer. E quem tem coragem de sonhar e de fazer, agora, tem nome, tem rosto e tem voz.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

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