HUDSON CARVALHO
Confirmando o favoritismo esboçado desde a pré-campanha, Lula venceu a eleição mais sórdida e ideologizada das últimas décadas. Tão horrendo quanto o ambiente do transcurso eleitoral foi a naturalização das barbaridades e das mentiradas processadas e divulgadas por ambos os flancos. Expôs-se um inaudito inventário de iniquidades e ilegalidades, que reflete o quão apodrecido se encontra o Brasil. Até o STF e o Tribunal Superior Eleitoral extrapolaram em suas obrigações regulares e contribuíram para engrossar o sarapatel. Valeu de tudo, e poucos se chocaram com as anomalias narrativas e com a cafetinagem de episódios espúrios e embusteiros. Transformamo-nos, miseravelmente, em uma pátria de carluxos e janones. Na penosa e indigente batalha das rejeições, o anti-Bolsonaro desvelou-se numericamente superior ao antilulopetismo. Nos livramos – aleluia! – da mais despreparada e abjeta figura a ocupar a Presidência da República na história do país, depois de inesquecíveis quase quatro anos de um desgoverno anticivilizatório que assombrou e traumatizou parcelas expressivas da sociedade brasileira. O antibolsonarismo exprimiu-se como o determinante impulsor do voto na eleição presidencial, e não Lula ou demais candidatos.
Na cruzada para exonerar Bolsonaro, juntaram-se algozes do PT – Joaquim Barbosa, relator do processo do “Mensalão” no STF, e o jurista Miguel Reale Jr., autor do pedido de impeachment de Dilma Rousseff -, tucanos econométricos de plumas aparadas, direitistas democráticos e pragmáticos, Simone Tebet, que se agigantou no curso eleitoral, e vítimas do sectarismo petista, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney e a amazônica Marina Silva. Na verdade, externou-se uma surpreendente, espontânea e inédita associação de personalidades na condenação a Bolsonaro e em defesa da democracia, e não propriamente em favor de Lula, beneficiado colateralmente. “A atuação de Bolsonaro na Presidência da República revelou a uma Nação estarrecida por seus atos e declarações a constrangedora figura de um político menor, sem estatura presidencial, de elevado coeficiente de mediocridades, destituído de respeitabilidade pública, adepto de corrente ideológica de extrema-direita que perigosamente nega reverência à ordem democrática, ao primado da Constituição e aos princípios fundantes da República”, sumarizou o respeitabilíssimo e circunspecto ex-ministro Celso de Mello. Milhares inspiraram-se na lógica de Churchill ao se aliar a Stalin contra Hitler na II Guerra Mundial. “Se Hitler invadisse o inferno, eu faria uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns”, explicou o espirituoso estadista britânico.
Como anabolizante dessa cabal, profilática e saneadora manifestação da maioria do eleitorado, também coadjuvaram, negativamente, alguns militares da cúpula do governo, ao ostentarem papel vexatório e intimidatório no questionamento das urnas eletrônicas – que se provaram o sucesso de sempre – e na dubiedade em relação às ganas golpistas do presidente. Resta-nos um consolo. Esse descaramento castrense evidenciou, categoricamente, o lado das Forças Armadas no coliseu ideológico. Com isso, anula-se a grotesca pregação direitista sobre a atemorização de um “levante comunista”, de uma “venezuelização”, em caso de instalação de governos esquerdistas. Com as Forças Armadas que temos, só cabe temer putsch à direita. No segundo turno, o general Hamilton Mourão, vice-presidente eleito senador, ainda deu uma força ao fluxo antibolsonarista, ao insinuar a adoção de vergonhosas trapaças para a obtenção do controle do Supremo Tribunal Federal. A própria pujança do bolsonarismo nas eleições parlamentares assustou consciências moderadas à direita, como a do empresário e ex-presidenciável João Amoedo, que recearam por um Congresso subserviente a caprichos autocráticos. Por fim, os incidentes com os armamentistas e alucinados Roberto Jefferson e Carla Zambelli ajudaram a adensar a fraternidade do antibolsonarismo. Agora, substantivar e adjetivar Bolsonaro é tarefa dos gladiadores das arenas políticas e dos especialistas midiáticos, sociológicos e psiquiátricos. Contento-me em celebrar a sua destituição. Tim-tim. No âmbito pessoal, nenhum governante incomodara-me tanto e me fizera tão mal.
Pela vasta experiência, Lula não deve se iludir quanto à dimensão do seu triunfo; meritório, redentor, mas conjectural. O povo queria, prioritariamente, se alforriar de Bolsonaro, e não necessariamente reentronizar o ex-metalúrgico no Palácio do Planalto, a despeito dos seus méritos e da sua imensa popularidade. Na falta de opção competitiva e em patoá umbandista, Lula converteu-se no cavalo da aspiração predominante da população, que se cansara da insensibilidade, da inumanidade, da incompetência, da bestialidade, da vulgaridade, do autoritarismo e dos cheliques de Bolsonaro. Como sumo líder popular do país, não se pode negar a Lula a virtude de ter facilitado a expectativa de esconjurar Bolsonaro. É duvidoso se outro o faria.
Jactante, Lula costuma se autorreferenciar e se consolar na trajetória de titãs universais – Nelson Mandela, Mahatma Ghandi e Martin Luther King -, sobretudo quando alude aos seus 580 dias de prisão. Em vários círculos – principalmente, aburguesados -, contudo, Lula é reputado – sem eufemismos – como “ladrão”, locução usual na jornada eleitoral. Essa percepção, extensiva ao PT, não se configura em uma abstração e possui lastros e carimbos – “Mensalão”, “Petrolão”, milhões de reais devolvidos etc. Intelectuais públicos, inclusive de esquerda, debruçaram-se sobre o tema. O filósofo Francisco Bosco, ex-presidente da Funarte na administração Dilma Rousseff, relaciona um apanhado em seu bom livro “O Diálogo Possível”, e alinha com “quantos paus fazem a canoa do antipetismo”. Observa ele: “O antipetismo é um afeto complexo, que reúne diversos fatores: a convicção de que o PT é o partido mais corrupto entre todos, que inventou e capitaneou um dos maiores esquemas de corrupção do mundo …; a assimilação da perspectiva, de origem olavista, de que o partido é autoritário, aparelhou todos os órgãos do Estado, cooptou movimentos sociais e se preparava para, junto aos demais países socializantes da América do Sul, implantar uma ditadura comunista no continente; a raiva diante do fato de que o partido nunca realizou a famigerada ‘autocrítica’…; o ódio dos setores conservadores em reação às políticas de estabelecimento de direitos para minorias, como sistemas de cotas em universidades, programas para igualdade de gênero, demarcação de terras indígenas etc.”. Em sua obra “Crônica de uma tragédia anunciada: Como a extrema-direita chegou ao poder”, citada por Bosco, ao lembrar que Lula já fora considerado “analfabeto”, “cachaceiro”, “nordestino” e “sapo barbudo”, o filósofo, teólogo e professor baiano Wilson Gomes resume: “O ódio ao PT vagabundeou muito de rótulo em rótulo, de palavra-chave em palavra-chave, até pousar na ‘corrupção’ e fazer desta o seu ninho”. Segundo ele, o antipetismo não é uma posição meramente intelectiva. E prossegue: “O antipetista … é o sujeito que considera o seu dever cívico e moral a erradicação do PT, é o odiador profundo, dogmático e irracional do PT e da esquerda”.
Bolsonaro personificou a proeza de ser o único presidente eleito não reconduzido ao cargo, após a normatização do instituto da reeleição em 1997. No “tocante” a isso, o real e obtuso Bolsonaro – “Bozo”, na maledicência dos detratores – desmoralizou e arruinou a farsa do “Mito”. No recente debate da Globo, o déficit cognitivo do “imbrochável” fulgurou como os fogos de artifício nos réveillons de Copacabana, brochando até os mais encarniçados bolsominions. No entanto, justiça seja feita, Bolsonaro visibilizou uma direita que se deprimia apática e rebuçada com o fim da ditadura militar. Totalizam 35% do eleitorado, de acordo com o IPEC; quantitativo excedente aos que se declaram esquerdistas – 26%. Gente à beça. Nas eleições gerais, a vitória dos representantes da direita e, particularmente, do bolsonarismo afirmou-se insofismável. Os centros – sim, há várias cepas -, praticamente, volatizaram-se. E as esquerdas claudicaram, sendo que algumas legendas sequer conseguiram ultrapassar a cláusula de barreira que restringe a atividade parlamentar no Congresso e assegura o direito ao fundo eleitoral. E mais relevante: Lula não ganhou por ser de esquerda. O fez por sua identificação consanguínea com milhões de desvalidos, que usufruíram de ganhos incomuns em seus governos pretéritos. E, essencialmente, pelo descomunal sentimento anti-Bolsonaro.
O que o futuro reservará a Bolsonaro, aos bolsonaristas e as direitas autóctones? Se não se encrencarem nas lides judiciais, Jair Bolsonaro e filhos poderão mirar no horizonte imediato das eleições municipais, em 2024, notadamente as prefeituras do Rio e de São Paulo. Inobstante ao fabuloso desempenho, parece incerto especular sobre o bolsonarismo em travessia pela aridez do deserto. Assim como o apóstolo Pedro negou Cristo por três vezes, veremos bolsonaristas de motociatas refutarem qualquer devoção a Bolsonaro. Haverá aqueles que vão apagar, nas redes sociais, os posts de veneração ao “Mito” e recusar vínculos, como fez o presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), Nabil Sahyoun, ao justificar a presença em jantar do empresariado com Lula em São Paulo, dizendo, na cara de pau, que “nunca foi bolsonarista”. Ademais, não será irrisório o contingente de antipetistas que, paradoxalmente, passará a “culpar” Bolsonaro pela volta do PT; o que, convenhamos, é apropositado.
Muitos, entretanto, entenderão que ainda há energético fundamentalista suficiente para animar a ensandecida rave da extrema direita, malgrada a derrota do capitão. Com ou sem Bolsonaro, o pior do éthos do bolsonarismo sobreviverá, mesmo sob invólucro reciclado. As direitas, em território cada vez mais conservador, vieram para ficar e mostrar a sua verdadeira face, sem se albergarem, envergonhadas e camufladas, em terceirizados empreendimentos “atucanados”. A direita latu sensu está aí bastante musculosa, orgulhosa, motivada e engajada. E transcende ao rudimentar bolsonarismo, embora perca tração de mobilização fora do radicalismo. No momento, é a ideologia majoritária no país, e os já presumidos players para a próxima eleição presidencial são todos do domínio da direita. O próprio Bolsonaro poderá perseverar. O porvir decantará os competitivos. Prevalecerá a fachada extremada vigente ou surgirão alternativas sóbrias, espelhando uma direita mais consequente e menos hidrófoba? Até quando a direita ponderada seguirá a reboque da direita dementada?
As esquerdas acabrunharam-se, sem discursos, sem propostas, e capitularam à porra-louquice das caricatas, excludentes e divisionistas comunidades identitárias e dos seus persecutórios tribunais de cancelamento. Deu no que deu. Por si só, o êxito de Lula não redime as esquerdas, que, desnorteadas, precisam se recriar, distantes das superadas doutrinas e práticas do passado e do rebelde, revanchista e contraproducente infantilismo do presente. As esquerdas malbarataram a sua questionável aura de superioridade ética e se desorientaram em um vácuo de ideias e projetos.
Os confrontos culturais contemporâneos parecem propícios à direita e se sobrepõem aos ditames econômicos e morais. Exigem-se, corretamente, escrúpulos de Lula por vínculos infestos com os abomináveis maduros e ortegas da vida, mas se negligenciam os nexos de Bolsonaro com os execráveis orbáns, putins et caterva. Aliás, habituamo-nos às reiteradas transgressões de Bolsonaro, como se ele fosse um césar inimputável. No terreno das espetacularizações, as direitas impuseram-se. O “Jesus na goiabeira” sobrepujou o “todxs”. No Brasil, convivemos com o agravante da expansão das igrejas neopentecostais – e do evangelismo, em geral – e da exploração política da religiosidade. Nos pleitos eleitorais, não existem mais ateus, e quase todos os candidatos se submetem à pantomina do louvor cênico e aquiescem às pautas retrógradas. Infelizmente, se não abrirmos os olhos, caminharemos para uma espécie de “islamização” da política nacional, com o apoio entusiasmado e acrítico das direitas. Os partidos que se cuidem, para não virarem simples ramais de seitas teocráticas.
A missão de Lula será árdua e múltipla. A sociedade continua, desafortunadamente, cindida. E amplos segmentos das elites – especialmente, econômicas -, que foram coniventes com as ilimitadas aberrações de Bolsonaro, não tolerarão o mínimo de deslize do presidente eleito. Lula lidará com um Congresso, preliminarmente, adverso e repleto de enclaves reacionários e de guerreiros culturais, mas, invariavelmente, suscetível às graças do poder. Os tempos e o mundo são distintos de quando ele se elegeu presidente, pela primeira vez, há 20 anos. O filho de Dona Lindu também não é mais o mesmo. A anosidade cobra-lhe, visivelmente, um preço físico e mental. Lula perdeu o viço e já não encanta serpentes como antigamente. Lula não só terá de colocar a pátria nos trilhos da bonança econômica e social, como promover a normalização institucional, tonificar a laicidade do Estado, apaziguar uma coletividade estressada e belígera, reconquistar o respeito global e fortalecer a crença na democracia. E ainda construir diques políticos impeditivos da volta de Bolsonaro ou de avejão assemelhado ao poder central. Tarefas hercúleas e labirínticas. Pelo seu gigantismo político e pela sua senioridade, talvez, facilite enfrentá-las se Lula se desatar de anacrônicas conexões inférteis e se assumir, realmente, como o presidente de todos, e não somente do PT, dos acerejados ideologicamente e dos desamparados.
Com a trágica situação socioeconômica pulsante – fome, desemprego, endividamento de mais de 53% das famílias auriverdes etc. -, Lula se surpreenderá ao ver que eventuais esforços poderão ficar aquém do estabelecido por ele mesmo nos seus governos anteriores. Neste século, Lula consolidou-se, indubitavelmente, como o presidente que ocasionou os maiores avanços para os empobrecidos. Pelos obstáculos conjunturais – aqui e no exterior – e pela regressão dos atuais índices sociais, o desafio da governança de Lula será repetir o estágio de progresso que lhe certificou, conforme o Ibope, 83% de ótimo e bom no desfecho do seu segundo mandato. Sarrafo altíssimo. No complicado contexto corrente, a missão reveste-se de enorme dificuldade, beirando a impossibilidade.
Além do espinhoso capítulo gerencial, coloca-se a questão da democracia, sob ataque em várias regiões do planeta. À direita e à esquerda, forças antidemocráticas, que usam os mecanismos democráticos para desmantelar a democracia, posicionam-se à espreita, tal temos visto frequentemente. A um custo considerável – inclusive, em vidas -, nos safamos do encosto Bolsonaro. Não podemos dar margem para o retorno desse pesadelo. Lula, que gosta de se ombrear com Nelson Mandela, deve atentar para a sabedoria do ilustre sul-africano. “Democracia com fome, sem educação e saúde, é uma concha vazia”, ensinou Madiba.
Lula tem dito que não pensa em reeleição, pois estará com 81 anos ao término do mandato. Melhor assim. O argumento, porém, baseia-se em circunstância privada, em sua idade, e não em concepção arraigada sobre o assunto. A reeleição, em tese, é pertinente. Governante bem avaliado merece bis. Na Terra de Santa Cruz, todavia, a reeleição presidencial constituiu-se em catástrofe retumbante e incubadora de crises. Inúmeros truques, delinquências e absurdos protagonizados nas gestões Fernando Henrique, Lula, Dilma e Bolsonaro originaram-se pelo prisma da reeleição. O promíscuo e infame “orçamento secreto” exemplifica. Passa da hora de se acabar com a reeleição presidencial, para o benefício da nação. Lula julga-se o melhor presidente da história do Brasil; e muitos concordam com ele. O seguinte quadriênio servirá para o prócer petista reforçar ou não essa impressão e dar os tons finais à sua biografia pública. Reparar a confiança na democracia, reafirmar a natureza laica do Estado brasileiro, revogar a danosa reeleição e amenizar a belicosidade entre os brasileiros poderão lhe render um epílogo de ouro.
Agora, é comemorar o triunfo da civilização sobre a barbárie e a queda do “Führerbunker”. E, como sugere Dorrit Harazim, rimar democracia com alegria.





