Não tem como passar batido. Ao subir a RJ 125 até Miguel Pereira o viajante facilmente reparará que a estrada apresenta mais outdoors de novidades grandiosas no turismo do que anúncios de borracheiros. São mais de 30 placas pelo caminho (contra meia dúzia de três ou quatro oficinas) anunciando novidades hiperbólicas como uma estrada com túnel de 12 quilômetros de exuberantes flores amarelas; um parque da Bíblia, com uma estrutura representando o livro sagrado com 12 metros de altura; outro onde se promete que vai cair neve o ano todo; e até um museu de cera no melhor estilo Madame Tussauds. Todos no campo das boas intenções, é verdade, mas há também anúncios de projetos já realizados, como um circuito numa Maria Fumaça, a instagramável Rua Torta e o mais importante deles: a Terra dos Dinos, um parque temático dedicado à história dos dinossauros, inaugurado em 2022 e que marcou um ponto de virada na economia e na vida dos moradores da pequena Miguel Pereira.  “Queremos atrair pelo menos um milhão de pessoas anualmente para a cidade, tornando-a uma das principais referências turísticas do interior do estado do Rio de Janeiro “, diz o ex-prefeito André Português, um dos responsáveis por apontar o norte da cidade para esta vocação turística.  E os resultados já começam a aparecer: no ano passado, a arrecadação municipal cresceu 42,5% em relação ao ano anterior.

A Prefeitura de Miguel Pereira, cidade que ostenta o título de Terceiro Melhor Clima do Mundo, com colinas e montanhas exuberantes e cachoeiras e rios de água cristalina não hesita quanto a sua fonte de inspiração:  Gramado, no Rio Grande do Sul. “Gramado tem programação o ano inteiro, para vários tipos de públicos e por obvio buscamos influências dali, decidimos começar atraindo o público infantil e partimos para construir parcerias “, diz o secretário de Comunicação, Hélio Araújo.

Assim, em outubro de 2022, foi inaugurada a Terra dos Dinos, fruto de um investimento de R$ 15 milhões na criação de um equipamento no melhor estilo Jurassic Park, onde o visitante pode observar mais de 40 modelos de dinossauros em escala real e cientificamente comprovados, divididos pelos três mais importantes períodos da história da terra: triássico, jurássico e cretáceo. O destaque é uma réplica de um  argentinossauro, de 30 metros de comprimento.  

Imerso numa reserva de mais de 1,4 milhões de metros quadrados de Mata Atlântica, com direito a uma trilha suspensa com mais de 200 metros de percurso e uma tirolesa de 300 metros de extensão que chega a 100 metros de altura, o parque já recebeu quase 400 mil visitantes desde a inauguração _ mais de 15 vezes o número da população nativa. E se tornou tão impactante para a economia local que a Prefeitura está orçando um novo pórtico, no formato de um tiranossauro rex de 18 metros de altura, que rosnará na entrada da cidade.

Dá a impressão de que a cidade comeu um cogumelo de Alice e tudo passou a ser gigante. Miguel Pereira desfraldou a ” maior bandeira do Brasil de todo o estado “, com 13mx10m no alto de um mastro de 55 metros de altura.  Na Terra dos Dinos está o “maior trenó de montanha da América Latina”, um rolê de 12 km de extensão e velocidade máxima de 50 km/h. E encontram-se em plena execução as obras de outro portento: o Mirante Marco Antônio Vaz Caputo, que além da espetacular vista para as montanhas, anuncia-se, sem falsa modéstia, como ” o maior mirante do Brasil “.

O consultor Andrè Matos e a esposa Julia

“Eu diria que Miguel Pereira é hoje uma cidade em reconstrução “, diz o consultor financeiro André Matos, nascido e criado na vizinha Petrópolis, que aproveitou as férias para apresentar a cidade a mulher, Julia. “Frequento aqui desde garoto e entendo que as pessoas desconfiem quando ouvem que lá em Miguel Pereira tem um parque como o dos dinossauros que não deve nada a qualquer outro do tipo “, analisa André: “Mas coisas estão acontecendo. E acredito mesmo que em mais dois anos a cidade vai estar em ‘ outro patamar ‘ como destino turístico”.

Álea de ipês amarelos na entrada da cidade

A Prefeitura tem escalado a aposta. Ao longo de 12 km da RJ-125, que liga a cidade ao Rio, foram plantados duas mil mudas de ipê amarelo. A ideia é que, durante a florada, que costuma acontecer entre julho e setembro, as arvores formem uma espécie de corredor florido, proporcionando uma experiência visual deslumbrante para quem chega na cidade.  “Em uns 30 anos vai ficar como o prefeito quer “, ironizou um jardineiro que trabalhava no local.

Gramado inspirou a criação de uma Rua Torta, para momentos instagramáveis e de lá veio a parceria com o Grupo Dreams, do empresário Rodolfo Medina, para a criação de um museu de cera e um bar de gelo semelhantes ao da cidade gaúcha. “Os bonecos já chegaram em Miguel Pereira, e estão guardados em um ambiente refrigerado enquanto não termina a obra do equipamento “, informa o secretário Hélio Araújo. A cidade também planeja a construção de um grande parque temático de luzes, arte e entretenimento chamado Lumiland, que…adivinhe…promete ser  “o maior espetáculo luminoso da América Latina”. Afff…

E tem muito mais. E entre todos os projetos ousados ou grandiloquentes de Miguel Pereira para se consolidar como a Gramado Fluminense, nada supera o da Cidade da Bíblia. O parque temático terá uma reprodução da sagrada escritura em 12 metros de altura e 22 de largura. Embora a bíblia seja de todos os cristãos, os evangélicos a cultuam com mais fervor. Para eles, a Bíblia é a inspiração divina, revelando a vontade de Deus e fornecendo orientação para a vida, a fé e a prática religiosa.  É de olho neste público que o projeto foi concebido. Além disso, terá até mesmo árvores descritas no documento, como aloés, acácias, figueira, oliveiras e amendoeira, que darão origem assim ao “Jardim Santo de Israel “. Segundo o Ministério do Turismo, o turismo religioso movimenta 15 milhões de pessoas pelos municípios do país anualmente. O Santuário de Aparecida recebe milhões de peregrinos católicos. “Acreditamos que a Cidade da Bíblia vai revolucionar o turismo do Rio de Janeiro “, empolga-se Hélio Araújo. O projeto do parque prevê ainda um museu, cinema de imersão de última geração, Via Crucis  (seja lá isso o que for), lojas de souvenirs, restaurantes e cafeterias.

O projeto do Colline de France

Agora o plot twist. Não é que as coisas em Miguel Pereira correm o risco de dar certo? Em abril começaram as obras de uma unidade debruçada sobre o Lago Javary do Hotel Colline de France, eleito ano passado pelo Tripadvisor apenas como…o melhor do mundo. O projeto, um investimento estimado em R$ 160 milhões, contempla um cinco estrelas com 36 suítes, e duas torres residenciais com 60 apartamentos cujos preços variam entre R$ 2 e R$ 5 milhões. Mas não se empolgue. Todas as unidades foram vendidas em um único dia, em setembro do ano passado, em um evento no Copacabana Palace. A entrega está prevista para janeiro de 2017.

E não é só na hotelaria que Miguel Pereira está dizendo ao que veio. Também estão em andamento as obras de uma filial do restaurante Pedro dos Leitões, uma das casas mais antigas de Portugal, com 81 anos de bons serviços prestados, e a primeira no mundo a vender leitão assado à Bairrada. A iguaria consiste em um pequeno leitão assado lentamente em um espeto, de modo que a pele fique dourada e crocante e a carne muito macia. A ideia é que ele atraia outros restaurantes para a criação de um polo gastronômico chique as margens do Lago Javary.

Mas, se como alguns afirmam, muitas vezes é nas embalagens mais modestas que se encontram os presentes mais preciosos, Miguel Pereira tem um tesouro. Em meio ao Espaço do Artesão fica o único museu dedicado a Francisco Alves, o Rei da Voz, o maior cantor brasileiro da Era do Rádio, nas primeiras décadas do século XX, em um tempo em que a MPB ainda tropeçava nas consoantes. Foi dele a primeira gravação de disco elétrico feita no Brasil.  O músico era um apaixonado por Miguel Pereira, onde mantinha uma casa, e foi justamente numa descida de lá que morreu, aos 54 anos, em um acidente de carro, em 1952.

O museu de Chico Viola

O Museu Francisco Alves guarda algumas relíquias, como um violão, gramofone, roupas, objetos de uso pessoal do cantor. Tem como administrador, monitor e faz tudo Marco Aurelio Bastos, um auxiliar administrativo da Prefeitura, que, cuidadoso, guarda um caderninho com nomes e número de visitantes – até o fechamento deste post, exatos 2019 pessoas visitaram o acervo. “Por um lado, sim, é raro aparecer aqui alguém com menos de 60 anos que realmente conheça Francisco Alves”, conta ele: “Por outro, como estamos no meio da Praça do Artesão, entram muitos jovens atrás de alguma informação e ficam impressionados quando veem a grandeza da história do Chico Viola “.  Miguel Pereira, como se vê, pode ser gigante até nos detalhes.

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