Morre Ideval Anselmo, compositor de sambas-enredo clássicos de São Paulo, aos 85 anos

Autor de clássicos da Camisa Verde e Branco e multicampeão do Carnaval de São Paulo deixa legado que atravessa gerações

A Quarta-Feira de Cinzas amanheceu mais silenciosa para o samba de São Paulo. Morreu aos 85 anos Ideval Anselmo, um dos mais importantes compositores de samba-enredo da história do Carnaval paulistano. A família confirmou a notícia à Folha de S. Paulo e ressaltou o compromisso de preservar e difundir o legado do artista.

Ideval foi o criador de obras marcantes da avenida, entre elas “Narainã, a Alvorada dos Pássaros”, samba-enredo da Camisa Verde e Branco de 1977, composto em parceria com Zelão e considerado um clássico da folia paulistana.

A causa da morte não foi divulgada. O velório será realizado nesta quinta-feira (19), das 8h30 às 12h30, no Cemitério Vila Nova Cachoeirinha.

Da roça ao asfalto do samba

Nascido em Catanduva, Ideval passou a infância e a adolescência em Votuporanga, no interior paulista. A juventude foi marcada por dificuldades e pelo enfrentamento do preconceito racial.

“Eu trabalhava na roça, por falta de serviços. O preconceito influenciou também”, ele contou à plataforma Iniciativa Negra ao relembrar os primeiros anos de vida como jovem negro no interior do estado.

Aos 18 anos, mudou-se para a capital paulista. Trabalhou como torneiro mecânico, construiu família ao lado da esposa Hayde, já falecida, e teve quatro filhos, além de netos, bisnetos e uma tataraneta. Foi na cidade grande que o samba passou a ocupar o centro de sua trajetória.

Na mesma entrevista, Ideval relatou o impacto que sentiu ao assistir, ainda jovem, a uma apresentação da escola Salgueiro no Anhangabaú. A experiência foi decisiva para que ele se aproximasse dos antigos cordões carnavalescos e passasse a se dedicar à composição de sambas-enredo.

Vitórias e consagração na avenida

Ainda como aprendiz, Ideval conquistou sua primeira vitória em uma disputa de samba na Camisa Verde e Branco com “Literatura de Cordel”, em 1972. O triunfo abriu caminho para uma sequência de conquistas.

Ao lado de parceiros, foi campeão do Carnaval de São Paulo em 1974, 1976, 1977 e 1979, defendendo a Camisa Verde e Branco. Em 1984, levantou mais um troféu, desta vez com a Rosas de Ouro. Também compôs para outras agremiações tradicionais, como Peruche e Tom Maior, ampliando sua presença na história da festa.

Seu talento extrapolou os limites da avenida. Sambas de sua autoria foram gravados por intérpretes consagrados, entre eles Jamelão, Eliane de Lima, Tobias da Vai-Vai e Fabiana Cozza.

Homenagens e reconhecimento

A morte de Ideval gerou comoção entre artistas e integrantes das escolas de samba. A cantora Fabiana Cozza manifestou pesar ao lembrar a importância do compositor.

“O senhor foi, e seguirá sendo, o maior compositor de samba-enredo de São Paulo”, disse Cozza ao lamentar a morte. “O artista que conheci, abracei, elogiei e que me fez, ainda tão menina, imaginar e sonhar as histórias, os lugares e as personagens que poetizou e que, por força do destino, a voz do meu pai defendeu no solo sagrado das avenidas”.

Reconhecido pela capacidade de transformar enredos em poesia cantada, Ideval Anselmo ajudou a moldar a identidade do Carnaval paulistano em uma época de consolidação das escolas de samba na capital. Sua obra permanece viva nas gravações, nas memórias das comunidades e nos desfiles que seguem ecoando seus versos.

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