A manifestação pelo fim da escala de trabalho 6×1 reuniu algumas centenas de pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, nesta sexta-feira (15). O protesto, convocado pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), teve início de forma discreta, mas ganhou adesão aos poucos. Os manifestantes ocuparam parte da avenida, seguindo em direção à Rua da Consolação.
A iniciativa está associada à PEC defendida por Hilton e pelo coautor, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP), que propõe uma mudança na jornada de trabalho no Brasil. A proposta, que já conquistou mais de 170 assinaturas de parlamentares, atingiu o quórum necessário para tramitação no Congresso e será formalmente protocolada.
Durante o ato, Erika Hilton destacou exemplos internacionais que mostram como a redução da jornada de trabalho pode aumentar a produtividade e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. Guilherme Boulos reforçou a importância de manter a pressão popular nas ruas e nas redes sociais, afirmando que “a luta não pode esmorecer”.
O ato reflete um contraste entre a ampla repercussão da proposta nas redes sociais e a menor presença física nas manifestações. Para manifestantes como os fotógrafos autônomos Rafaela Carvalho e João Rocha, a adesão limitada a eventos de rua pode ser explicada por fatores como a falta de tempo ou o receio de exposição, mas o movimento sinaliza um crescente interesse público no tema.
– Quem está trabalhando na escala 6×1 não pode estar aqui. Não é uma causa que me atinge necessariamente, mas estou aqui por quem não pode estar. O cerne de um movimento popular é um pouco isso: quando você não tem força individual, você se junta no coletivo – disse Rafaela.
João a corrigiu brevemente: “Somos autônomos, nossa escala é 7×0 [sem dia de folga]”.
O debate sobre a escala 6×1 — seis dias de trabalho para um de descanso — ganhou força nas redes sociais e no mundo político nesta semana.
O início da discussão foi um desabafo de Rick Azevedo, eleito vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro na última eleição e fundador do movimento VAT (Pela Vida Além do Trabalho).
Ele trabalhava no balcão de uma farmácia no ano passado quando gravou um vídeo que viralizou na rede social. A então chefe havia ligado em seu dia de folga para pedir que ele começasse a trabalhar mais cedo na manhã seguinte.
– Quando é que nós da classe trabalhadora iremos fazer uma revolução nesse país contra essa escala 6×1? Gente, é uma escravidão moderna. Moderna, não: ultrapassada – disse.
– Isso tira do trabalhador o direito de passar tempo com sua família, de cuidar de si, de se divertir, de procurar outro emprego ou até mesmo se qualificar para um emprego melhor. A escala 6×1 é uma prisão, e é incompatível com a dignidade do trabalhador – completou.
Com 31 anos, Rick Azevedo faz parte da geração de jovens que procura equilibrar a vida pessoal com a profissional.
A causa é cara para a enfermeira Lara Corsi, de 51 anos, que trabalha na escala 6×1. Prestes a se aposentar, ela foi à manifestação da avenida Paulista sozinha, mas com uma defesa clara: não quer que os profissionais em início de carreira tenham a mesma rotina exaustiva que ela tem desde os 20 anos.
– No começo da vida profissional, todo mundo sente uma necessidade de provar seu valor, de conquistar seu próprio espaço, e muitos não percebem essa exploração. As coisas estão mudando agora. No início da minha carreira, eu trabalhava, trabalhava e trabalhava, sem pensar na qualidade de vida, na saúde mental, em passar mais tempo com a minha família. Agora não é mais assim – relata.
Ela disse ter convidado colegas de trabalho mais jovens para a manifestação, mas nenhum se mobilizou para ir. Não é de todo incômodo: quando bater o ponto no plantão do hospital que trabalha, ainda nesta sexta, espera ser um exemplo para os enfermeiros mais novos que não puderam — ou quiseram — ir.
O clima amistoso do ato permitiu a presença dos mais jovens dos jovens. Helena, de sete anos, estava nos ombros do padrasto com uma placa feita em casa.
Na parte da frente, os dizeres “VAT” e “Basta 6×1”. Atrás, um desenho da própria família: ela, a irmã, a mãe e o padrasto Alexandre de Paula Cruz Silva, professor de geografia de uma escola pública do estado de São Paulo.
– Essa é uma pauta da família”, disse Alexandre, que trabalha nos dias úteis e folga aos finais de semana. – Eu e minha esposa, também professora, temos crianças para cuidar e não temos tempo nenhum de lazer. Eu acho até que a escala deveria ser de 4×3, para a gente ter mais dignidade, tempo livre, tempo com nossa família.
Com informações da Folha de S. Paulo





