A eletricidade foi praticamente restabelecida na Espanha e em Portugal nesta terça-feira (29), após mais de 20 horas de apagão que causou caos generalizado em toda a Península Ibérica, informa o portal Metrópoles. A falha massiva no fornecimento de energia elétrica, ocorrida na segunda-feira (28), paralisou serviços essenciais, afetou milhões de pessoas e reacendeu o alerta sobre a vulnerabilidade das redes elétricas e digitais na Europa.
De acordo com o operador da rede elétrica espanhola REE, às 6h da manhã (horário local), 99,16% do fornecimento já havia sido normalizado no país. Em Portugal, o governo informou que cerca de 6,2 milhões de residências estavam com eletricidade durante a madrugada, de um total de 6,5 milhões.
A interrupção teve início por volta de 12h (7h em Brasília), atingindo grandes áreas da Espanha e de Portugal, além de provocar instabilidades em países como França, Alemanha e Marrocos. Durante cerca de doze horas, aeroportos, estações de metrô, hospitais, trens e redes de telecomunicação ficaram paralisados. A gravidade do incidente levou especialistas a considerar a hipótese de um ciberataque como causa provável.
Segundo o Cloudflare Radar, a conectividade da internet caiu até 90% em Portugal e 80% na Espanha. Aplicativos de mensagens como o WhatsApp ficaram fora do ar, e sistemas bancários e caixas eletrônicos deixaram de funcionar. Pagamentos eletrônicos foram interrompidos, dificultando ainda mais a rotina da população.
Nas ruas, os reflexos foram imediatos: sinais de trânsito apagados, engarrafamentos, supermercados lotados, filas nos postos de gasolina e relatos de hospitais que precisaram adiar cirurgias. Em Lisboa, o ator e produtor cultural Danilo Kin, de 35 anos, vivenciou o início do apagão no metrô:
“Descobri foi no metrô, indo para a academia. De repente, o vagão parou dentro do túnel. Ficamos lá por um tempo, até que um funcionário do metrô nos ajudou a sair. No final, deu tudo certo, e todo mundo ajudou o outro. Foi um momento de muita solidariedade”, contou.
No Porto, o aposentado Oswaldo Júnior relatou à rádio RFI os transtornos que enfrentou:
“Fui ao mercado com minha esposa, enfrentamos filas enormes. Ficamos sem luz, sem internet, sem dinheiro nos caixas eletrônicos. Mas estamos bem, com saúde e em paz. Estocamos água e estamos aguardando a normalização”, declarou.
Sete horas após o início do blecaute, a operadora REE informou que 45% das subestações espanholas já haviam sido restabelecidas. A partir das 16h45, a energia começou a retornar em áreas de Lisboa e do Porto.
As causas do colapso ainda são investigadas. O especialista em crimes cibernéticos Wanderson Castilho afirmou que a magnitude do apagão indica a possibilidade de um ataque planejado:
“Acidentes só poderiam acontecer bem localizados. A estrutura de redes elétricas e de dados foi criada para se tornar apenas local. Outros nós de redes se estabilizarão fazendo com que tudo não pare. Isso é projetado para ser assim. Quando vejo um apagão geral, não consigo imaginar outra coisa, se não uma ação arquitetada para tal acontecimento”, afirmou.
Em pronunciamento feito ainda na noite de segunda-feira, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou que “nenhuma hipótese está descartada”. Segundo ele, “jamais houve um colapso dessa magnitude” na rede elétrica espanhola. O chefe de governo revelou que “15 gigawatts” foram “subitamente perdidos” em apenas cinco segundos — o que representa aproximadamente 60% da demanda do país naquele momento.
Sánchez deve se reunir nesta terça-feira com o rei Felipe VI para tratar da crise. Já o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, classificou o episódio como “grave e sem precedentes”, sugerindo que a origem da falha pode ter ocorrido em território espanhol.
O fornecimento de energia foi parcialmente restabelecido por meio de interconexões com a França e o Marrocos, além da reativação de usinas hidrelétricas e termelétricas. As usinas nucleares espanholas foram desligadas como medida preventiva. Um comitê de crise foi acionado, e a previsão das autoridades é que a recuperação total da rede elétrica possa levar até uma semana.
Apagões dessa escala são raros, mas não inéditos na Europa. Em 2006, uma falha na rede da Alemanha deixou 10 milhões de pessoas sem luz. Em 2003, quase toda a Itália, com exceção da Sardenha, ficou no escuro. A diferença, segundo especialistas, é que o episódio atual ocorre num cenário de crescente tensão geopolítica e dependência de infraestruturas digitais, o que torna a hipótese de uma ação cibernética ainda mais preocupante.





