Maior retrospectiva de Vik Muniz reúne obras icônicas, inéditas e arte feita com lixo e cinzas no CCBB

Mostra “A olho nu”, em cartaz no CCBB do Rio, apresenta mais de 220 obras de Vik Muniz e revisita três décadas da carreira do artista com trabalhos feitos de macarrão, açúcar, lixo reciclável, geleia e cinzas do Museu Nacional.

O Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, recebe a maior retrospectiva já realizada sobre a trajetória do artista plástico Vik Muniz. A mostra “Vik Muniz – A olho nu” reúne mais de 220 obras produzidas ao longo de três décadas e ocupa onze salas do CCBB com fotografias, esculturas e instalações que exploram ilusão, memória e percepção.

Depois de temporadas em Recife e Salvador, a exposição desembarca na capital fluminense trazendo trabalhos históricos, séries consagradas internacionalmente e obras inéditas criadas especialmente para a montagem carioca. Entre elas, uma gigantesca escultura de pterossauro feita com cinzas recolhidas após o incêndio do Museu Nacional.

Segundo o curador Daniel Rangel, a exposição foi concebida para provocar dúvidas constantes no visitante sobre aquilo que está vendo. As obras dialogam entre si por meio do humor, do uso de materiais comuns e das referências a imagens conhecidas da cultura mundial.

“A exposição tem uma coisa lúdica, convida a um olhar infantil, que vê através dos símbolos”, resume Vik Muniz.

Arte feita com macarrão, açúcar, geleia e lixo reciclável

Logo na entrada da exposição, o público encontra “Medusa Marinara”, obra criada em 1997 a partir de macarrão e molho de tomate. A peça antecipa o universo visual do artista, conhecido por transformar materiais improváveis em imagens sofisticadas e carregadas de significado.

Ao longo do percurso, o visitante se depara com releituras de imagens clássicas produzidas com chocolate, feijão, pasta de amendoim, diamantes, açúcar, caviar, fumaça e papel picado. Entre os destaques estão a Monalisa feita de geleia e pasta de amendoim e o retrato de Che Guevara construído com feijão preto.

Outro núcleo importante da retrospectiva é a série “Crianças de açúcar”, criada em 1996 após uma viagem de Vik Muniz ao Caribe. O artista fotografou filhos de trabalhadores da cana-de-açúcar e recriou as imagens usando o próprio açúcar como matéria-prima.

A série se tornou um divisor de águas em sua carreira. Segundo Vik, ele pensava em abandonar a arte naquele período, mas a repercussão internacional das obras — incluindo uma crítica positiva no The New York Times — abriu as portas para sua consolidação no circuito artístico internacional.

As cinco obras imperdíveis da retrospectiva

Entre centenas de trabalhos expostos, Vik Muniz selecionou cinco obras que considera essenciais para compreender sua trajetória artística e sua pesquisa sobre imagem e realidade.

A primeira delas é “Dois pregos” (1988-2017), obra minimalista composta por uma folha com a imagem impressa de um prego ao lado de um prego real. Para o artista, a peça resume a tensão entre o físico e o simbólico presente em praticamente toda sua produção.

Também ganha destaque “Multidão em Coney Island, 32º C” (2009), da série “Imagens de papel”. Inspirada em uma fotografia histórica do americano Weegee, a obra recria uma praia lotada utilizando apenas recortes de papéis em diferentes tonalidades.

Já a série “Imagens de lixo” (2008) aparece como um dos momentos mais emblemáticos da carreira do artista. Produzida no antigo aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, ela retrata catadores em enormes composições feitas com resíduos recicláveis.

O projeto inspirou o documentário Lixo Extraordinário, indicado ao Oscar e premiado em festivais internacionais.

Museu de Cinzas transforma tragédia em arte

Um dos espaços mais impactantes da retrospectiva é dedicado à série “Museu de Cinzas” (2019), criada a partir de resíduos recolhidos após o incêndio do Museu Nacional.

Nas obras, Vik Muniz recria peças destruídas pelo fogo, como fósseis, artefatos históricos e estudos científicos. Entre elas está a representação de Luzia, considerado o fóssil humano mais antigo das Américas.

Suspensa sob a rotunda do CCBB, uma escultura monumental em forma de pterossauro simboliza o renascimento da memória cultural brasileira. A instalação inédita se tornou um dos principais símbolos da exposição no Rio.

Além da carga histórica, a série reforça a capacidade do artista de transformar materiais cotidianos — e até vestígios de tragédias — em obras que questionam os limites entre realidade e representação.

Ferrari gigante e obras inéditas surpreendem visitantes

Outro destaque da mostra é a escultura “Ferrari Berlinetta” (2014/2026), exibida pela primeira vez no Brasil. A obra reproduz em escala real um carrinho de brinquedo da infância do artista, mantendo inclusive as marcas de desgaste provocadas pelo tempo.

Com quatro metros de comprimento e cerca de 650 quilos, a peça foi instalada em frente à bilheteria do CCBB e rapidamente se tornou uma das atrações mais fotografadas da retrospectiva.

Ao longo da exposição, o público ainda encontra esculturas hiper-realistas, papéis amassados que parecem fotografias, chicletes presos sob mesas transparentes e trabalhos que brincam constantemente com o olhar do espectador.

“Você precisa ser iludido para conseguir se comunicar”, afirma Vik Muniz ao explicar sua relação artística com a percepção e a construção das imagens.

Serviço

Exposição: “Vik Muniz – A olho nu”
Onde: CCBB Rio de Janeiro
Quando: De quarta a segunda, das 9h às 20h, até 7 de setembro
Quanto: Entrada gratuita

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