O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentará convencer a presidente eleita do México, Claudia Sheinbaum, a se unir a Brasil e Colômbia para uma atuação em conjunto diante da crise na Venezuela, afirmam integrantes do governo brasileiro envolvidos com o tema. Lula chegou neste domingo à Cidade do México e se reunirá com Sheinbaum nesta segunda-feira, véspera da posse da nova liderança mexicana.
Após receber o respaldo das urnas, a presidente eleita declarou que organismos internacionais deveriam mediar uma solução para a escalada autoritária do governo de Caracas, que prende e persegue opositores. O gesto indica uma consolidação da posição da diplomacia do país.
O México chegou a tentar dialogar com o regime chavista ao lado de Brasil e Colômbia, mas se afastou desde que as suspeitas de fraude no pleito venezuelano se avolumaram.
Cientista, especialista em mudanças climáticas e primeira mulher a presidir o México, Claudia Sheinbaum vai substituir Andrés Manuel López Obrador, seu padrinho político e bastante próximo de Lula.
López Obrador chegou a adotar posição semelhante à dos presidentes brasileiro e colombiano, Gustavo Petro, em relação ao regime bolivariano: defendeu o diálogo entre o líder chavista Nicolás Maduro e a oposição e insistiu na apresentação de documentos eleitorais que comprovem que Maduro venceu a eleição, e não o candidato opositor, Edmundo González.
González está asilado na Espanha após ser alvo de um mandado de prisão pelo Judiciário da Venezuela, alinhado ao governo de Maduro.
Governo e oposição venezuelanos estão em crise há anos, mas a situação se agravou na eleição de 28 de julho. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) anunciou que Maduro venceu o pleito, mas como não foram apresentados os boletins de urna com a votação, vários países reconhecem González como vitorioso . Desde então, Brasil e Colômbia tentam abrir um canal de diálogo entre as partes, mas não conseguem.
Arturo Espinosa Silis, diretor do Laboratorio Electoral, instituição mexicana independente, afirma que, até agora, o governo do país tem tido uma posição mais ausente. López Obrador, assim como Lula e Petro, insistiu na apresentação das atas eleitorais da eleição venezuelana. Contudo, deixou de dar declarações, apegando-se ao princípio de não intervenção em assuntos internos.
— Acho que o relevante dessa possível reaproximação que o presidente Lula teria com a nova presidente vai determinar se o México consegue tomar uma posição. O que vimos é que o governo de López Obrador não tomou qualquer posição, o que me parece relevante para a conversa que possam ter — diz Espinosa.
A cientista política Denilde Holzhacker, professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), avalia que a presença do México fortaleceria o grupo e, por tabela, a proposta de diálogo e verificação das atas. Porém, ela acredita que a aproximação entre Lula, Sheinbaum e Petro ganharia ainda mais importância para que o estreitamento dos laços se contraponham aos governos de direita da região.
— De um lado, essa aproximação consolida os três países como líderes regionais. E o Brasil quer atrair o México para pressionar o governo Maduro — afirma Holzhacker.
Relação estratégica
Integrantes da área diplomática, no entanto, garantem que o interesse estratégico na relação bilateral tem uma prioridade maior do que a crise venezuelana. Lula também deve conversar com Sheinbaum sobre o aumento de comércio e investimentos entre os dois países. Existe a proposta de ampliação de acordos comerciais entre Brasil e México em vigor, que hoje abrangem uma minoria de produtos.
Antes de se reunir com Sheinbaum, na segunda-feira, Lula vai se encontrar com López Obrador, que deixa a presidência do México com mais de 70% de popularidade. No fim do dia, o presidente encerrará um seminário com cerca de 400 empresários dos dois países, sendo 150 brasileiros.
De acordo com Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty, há temas considerados prioritários na relação bilateral. Ela cita como exemplos a mudança climática e a maior participação das mulheres nos cargos de comando, além da parte comercial.
— O México é o sexto parceiro comercial do Brasil e o quinto principal destino das nossas exportações. Alcançamos em 2023 US$ 14 bilhões, crescimento de 15% em relação a 2022. É um comércio que está mostrando o seu vigor e, principalmente, um comércio de alto valor agregado — afirma Padovan.
Não está prevista a assinatura de atos durante a visita de Lula ao México. Na terça-feira, Lula estará na posse de Sheinbaum, no Legislativo do país, prevista para acontecer entre 11h e 13h30, e em seguida retornará ao Brasil.
Com informações de O Globo





