Lojas do Rio oferecem desbloqueio ilegal de velocidade em bicicletas elétricas

Após flagrante do Procon, vereador propõe lei para proibir adulterações que transformam bikes em ciclomotores sem registro nem habilitação

Um flagrante feito pelo Procon Carioca revelou que diversas lojas no Rio de Janeiro estão oferecendo ilegalmente o desbloqueio de velocidade de bicicletas elétricas vendidas como autopropelidas. A prática, além de contrariar normas do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), transforma os veículos em ciclomotores sem o devido emplacamento, habilitação ou segurança exigidos para circulação.

Segundo apuração do portal G1, essas bicicletas, que deveriam ter limite de 32 km/h, chegam a alcançar até 70 km/h após a adulteração de software. Em conversas gravadas durante a fiscalização, vendedores chegaram a admitir a irregularidade. “Dá pra desbloquear, pra ter um pouco mais de velocidade, mas aí é por conta e risco do cliente”, disse um atendente. Outro funcionário afirmou com naturalidade: “Tirando o limitador, ela bate até 70 km/h”.

Além da violação às regras de trânsito, a adulteração compromete a segurança pública. Em muitos casos, esses veículos passam a circular em ciclovias e calçadas — onde o limite permitido é de apenas 6 km/h — colocando pedestres e ciclistas em perigo. Um dos episódios mais graves aconteceu com Mônica Miranda, atropelada no Aterro do Flamengo: “O impacto foi rápido e violento. O ciclista fugiu. Ali é espaço de lazer, não de velocidade”, disse ela ao G1.

Dados obtidos pela Comissão de Segurança no Ciclismo do RJ mostram o tamanho do problema. Em um ano, os atendimentos na rede pública do município relacionados a acidentes com veículos de micromobilidade subiram 702%, passando de 274 em 2023 para 2.199 em 2024. O número não inclui acidentes com bicicletas comuns.

O vereador Flávio Valle (PSD), que acompanhou a fiscalização, criticou a prática e protocolou um projeto de lei para coibir a venda e o aluguel de bicicletas adulteradas no município. “O que está acontecendo é que o consumidor compra um suposto teco-teco e acaba levando um Boeing para pilotar. Isso é um risco”, alertou. A proposta também prevê que lojistas informem claramente ao comprador se o veículo exige habilitação e onde ele pode trafegar.

Atualmente, o Contran determina que veículos com potência superior a 4.000W ou velocidade acima de 50 km/h não sejam sequer classificados como ciclomotores. Eles exigem, portanto, registro no Detran, habilitação específica, uso de capacete e circulação apenas em vias asfaltadas.

O secretário municipal de Proteção e Defesa do Consumidor, João Vitor Pires, disse que o Procon Carioca está autorizado a atuar nas lojas que oferecem esse tipo de adulteração. “Elas ludibriam o consumidor ao vender um produto com características ilegais sem informar as implicações legais e de segurança”, afirmou.

Apesar da fiscalização, a Prefeitura do Rio ainda não regulamentou oficialmente o uso das bicicletas elétricas na cidade. Em nota, informou apenas que segue a portaria do Contran e que a Guarda Municipal atua na orientação de ciclistas. Em casos de descumprimento, condutores podem ser levados à delegacia.

Enquanto isso, a cabeleireira Rafaela Barros e a babá Camila Moreira, que testemunham o risco diariamente, alertam: “Passam acelerando como motos, principalmente perto de crianças”, disse Rafaela. A falta de controle regulatório e a facilidade com que lojas oferecem a adulteração agravam um problema crescente e que, para muitos, já saiu do controle.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading