Irmãs reabrem biblioteca voltada para cultura afro-brasileira na região da Gamboa

Iniciativa das gêmeas de 16 anos também resultou em documentário exibido em escolas públicas

As gêmeas Helena e Eduarda Ferreira, de 16 anos, cresceram no Morro da Providência e sempre sentiram a necessidade, como meninas negras, de se enxergar nos personagens dos livros que procuravam para ler. No entanto, nem sempre foi fácil encontrar essa identificação. Com isso em mente, as irmãs fundaram a Biblioteca do Erê, na Gamboa, região também conhecida como Pequena África. Totalmente voltada para a cultura afro-brasileira, a biblioteca foi idealizada para ser um espaço onde os leitores possam se ver como protagonistas e se orgulhar de sua própria história.

— Queremos mostrar o que as pessoas negras sentem e que elas podem ser protagonistas também — afirma Eduarda, a Duda.

A iniciativa que nasceu em meados do ano passado, fez uma pequena pausa para se reestruturar e vai reabrir neste começo de ano, quando o Rio se tornará a primeira cidade lusófona a ser declarada Capital Mundial do Livro pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O trabalho das irmãs gerou o documentário “Biblioteca Erê, uma aventura na Pequena África”, que registrou todo o processo de implementação do projeto. Lançado no começo de novembro na Escola Municipal Darcy Vargas, na Saúde, para as turmas de 5º ano, será levado ao longo do ano para outras escolas da região, além das plataformas digitais.

Duda e Helena se tornaram conhecidas a partir de 2018, quando o projeto Pretinhas Leitoras, criado por elas, tomou as redes sociais. Hoje conta com mais de 67 mil seguidores no Instagram. Pouco tempo depois, as duas ganharam um quadro fixo no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, que durou três anos. Mas, elas sentiram que precisavam ir além.

Sempre foi nosso sonho ter um espaço para os nossos livros. O Pretinhas Leitoras era um projeto mais voltado para as crianças, mas queríamos desenvolver também um trabalho com adolescentes — acrescenta Helena.

A Biblioteca do Erê foi aberta em julho, em parceria com a Associação Cultural Lanchonete Lanchonete, responsável pela estrutura física da unidade. Na sua fase inicial, promoveu uma imersão que formou dez dinamizadores com idades entre 12 e 17 anos. A intenção é que esses adolescentes funcionem como multiplicadores.

Quando reabrir, o espaço seguirá com as oficinas gratuitas com contadores e autores. A ideia também é de que o local seja um espaço para receber atividades como encontros sobre educomunicação, contação de histórias, leitura dramatizada, escrita criativa e encontro com autores. Para isso, busca a ajuda de parceiros.

O Pretinhas Leitoras, que deu origem à biblioteca, nasceu como uma necessidade de reagir à violência presente no cotidiano no Morro da Providência. O início foi com ações locais, como rodas literárias, em parceria com o Instituto Entre o Céu e a Favela. Depois migrou para as redes sociais. Um dos desafios é atrair os leitores.

— Tem uma metodologia no Pretinhas Leitoras que é fundamental no convencimento dos adolescentes e das crianças: falar da realidade delas. A gente faz uma curadoria literária com os assuntos que mais se sobressaem das discussões do nosso cotidiano, no bairro, e a gente busca livros que suscitem essas ideias a partir da literatura. Isso faz muita diferença — explica Elen Ferreira, mãe das meninas e curadora do projeto.

Um desses exemplos de livro que trouxe para a roda discussões de temas do cotidiano do público do projeto foi “Meu Crespo é de Rainha”. Nele, a autora Bell Hooks, aborda de forma delicada e elogiosa a diversidade e a beleza dos cabelos crespos e cacheados, ajudando a melhorar ao autoestima de meninas negras.

Com informações de O GLOBO.

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