INSS vai cancelar contratos do Credcesta do Master por irregularidades

Presidente do instituto afirma que modalidade operada pelo Banco Master omite juros e promove migração ilegal de crédito; defesa nega irregularidades

O presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Gilberto Waller Júnior, afirmou que os contratos do Credcesta, produto operado pelo Banco Master nos últimos anos, são irregulares e serão cancelados. Segundo ele, a modalidade apresenta falhas contratuais, ausência de clareza sobre juros e possível cobrança de juros sobre juros.

De acordo com o dirigente, o Credcesta foi estruturado como cartão de benefício consignado, mas funcionava com lógica considerada ilegal pelo instituto. A principal crítica é a migração automática de contratos de empréstimo pessoal para consignado, sem a formalização adequada exigida pelo INSS.

A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro sustenta que a instituição financeira sempre atuou dentro das normas estabelecidas para o crédito consignado, com identificação do contratante e comprovação de consentimento.

Migração de crédito é considerada ilegal pelo INSS

Segundo Waller Júnior, o modelo iniciava com um empréstimo pessoal, que possui juros mais altos. Posteriormente, ao surgir margem consignável, o contrato migrava para consignado, modalidade com taxa menor. Para o presidente do INSS, essa transição é irregular e não tem respaldo legal.

“O aposentado precisa assinar um contrato específico de crédito consignado do INSS, com todas as cláusulas e informações claras”, afirmou. Ele destacou que não há comprovação de que, na migração, a taxa mais alta do empréstimo pessoal fosse devidamente excluída.

Ainda conforme o presidente, essa prática pode gerar incidência de juros sobre juros. Para ele, o mecanismo aparenta ter sido uma estratégia de proteção de crédito da instituição financeira.

Contratos serão levados à Justiça Federal

Os contratos do Credcesta deverão ser cancelados e o caso será informado à Justiça Federal no Distrito Federal. Uma decisão judicial determinou que os descontos em aposentadorias, anteriormente bloqueados pelo INSS, sejam depositados em conta judicial após a liquidação do banco, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025.

O INSS autoriza três modalidades de crédito com desconto em folha para aposentados e pensionistas: o empréstimo consignado tradicional, com parcelas fixas; o cartão de crédito consignado, com desconto mínimo mensal e saldo no rotativo; e o benefício consignado, categoria na qual o Credcesta se enquadra.

No caso do benefício consignado, além de saques, há possibilidade de uso rotativo e oferta de serviços adicionais, como cartão para compras, descontos em farmácias e auxílio-funeral. O presidente do instituto afirma, no entanto, que o contrato precisa apresentar taxa de juros, custo efetivo total e ausência de encargos extras de forma explícita.

Explosão de contratos acende alerta

Dados elaborados pelo INSS com base em informações da Dataprev indicam crescimento expressivo do Credcesta. O número de contratos saltou de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024, alta superior a 2.500% em dois anos.

Em 2025, segundo o instituto, o Banco Master encerrou o ano com 324.849 contratos ativos relacionados a crédito e benefício consignado. O aumento acelerado é alvo de investigação do Ministério Público Federal no Distrito Federal, que aponta ausência de justificativa econômica clara para o salto nas operações.

Executivos do setor financeiro avaliam como improvável a expansão em tal escala na modalidade de benefício consignado. Para o presidente do INSS, uma hipótese é que diversos contratos tenham sido consolidados em um único crédito, prática que exigiria refinanciamento formal e autorização específica.

Falta de registro dificultou fiscalização

O INSS também identificou que contratos não eram inseridos na plataforma da Dataprev no momento da contratação, o que teria impedido análise prévia de regularidade. Segundo Waller Júnior, a verificação começou apenas em junho de 2025, quando ele assumiu o comando da autarquia.

Os contratos só teriam sido informados integralmente quando o banco buscou renovar o acordo de cooperação técnica para operar o consignado do INSS, encerrado em setembro de 2025. Ao analisar os documentos, o instituto afirma ter encontrado fragilidades nas cláusulas.

A prioridade agora, segundo o presidente do INSS, é garantir que aposentados e pensionistas não tenham prejuízos financeiros. O órgão também pretende apurar eventual responsabilidade jurídica, caso sejam confirmadas irregularidades na concessão dos créditos.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading