O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República solicitou à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a produção de perfis detalhados de 152 bispos católicos que, em 2020, assinaram uma carta com críticas contundentes ao então presidente Jair Bolsonaro (PL). A informação consta do relatório final da Polícia Federal (PF) sobre o funcionamento de uma estrutura paralela de espionagem no governo Bolsonaro, conhecida como “Abin Paralela”.
Segundo a investigação, o pedido partiu do GSI durante a gestão do general Augusto Heleno, que hoje é réu por suposto envolvimento em uma trama golpista. O levantamento de dados dos bispos foi encaminhado a Frank Márcio de Oliveira, então diretor-adjunto da Abin, e está listado como uma das ações ilegais realizadas por servidores públicos no uso indevido da estrutura de inteligência do Estado.
O documento da PF menciona ainda trocas de mensagens internas que indicam que os agentes envolvidos estavam alinhados com interesses políticos do grupo que controlava o governo. Em uma dessas comunicações, Marcelo Bormevet — ex-servidor da Abin — compartilha um arquivo classificado como parte da operação de monitoramento indevido, que teria como foco os religiosos contrários ao governo.
A carta dos bispos, divulgada em julho de 2020, criticava duramente a condução do Executivo nas áreas da saúde, educação e cultura. O documento apontava que o país enfrentava uma crise profunda agravada por decisões do próprio presidente da República. “A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança”, afirmaram os líderes religiosos à época.
A investigação sobre a Abin Paralela vem revelando uma série de operações clandestinas realizadas entre 2019 e 2022, envolvendo monitoramento ilegal de autoridades, adversários políticos e até membros do Judiciário. A atuação da estrutura paralela de espionagem é apontada como parte de um esquema mais amplo de aparelhamento do Estado.
A inclusão do nome de religiosos na lista de alvos da Abin evidencia, segundo investigadores, o uso da máquina pública para fins de intimidação e perseguição política, especialmente contra vozes críticas ao governo Bolsonaro.
O caso está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal (STF), e pode embasar novas denúncias contra ex-integrantes do GSI e da Abin. A defesa dos citados ainda não se pronunciou publicamente sobre as acusações.





