Governo interpreta avanço de pautas bolsonaristas como tática de Lira para consolidar apoio do PL na sucessão da Câmara  

Odair Cunha, líder do PT na Câmara, afirmou que projetos ideológicos conservadores não são determinantes para a decisão do partido sobre aliança com Lira na sucessão

O avanço de iniciativas defendidas por bolsonaristas na Câmara tem sido interpretado por alguns membros da Casa como uma estratégia de Arthur Lira (PP-AL) para consolidar o apoio do PL, que conta com 95 deputados, e fortalecer a escolha de seu sucessor na presidência da Câmara. Essas medidas também pressionam o PT, que, junto com outras siglas de esquerda, enfrenta dificuldades para se posicionar firmemente contra projetos polêmicos, como o que equipara o aborto após a 22ª semana ao homicídio.

Um exemplo dessa dinâmica ocorreu com a urgência do projeto que endurece a punição ao aborto. O PT se manifestou contra a aceleração do texto somente após sua aprovação pelo plenário e ainda não tomou uma posição quanto ao mérito do projeto. Até agora, apenas PSol e PCdoB declararam sua posição antes da medida ser aprovada.

Ao pautar a urgência deste projeto, aprovado rapidamente pela Câmara sem o registro dos votantes, e ao permitir o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que criminaliza o porte de qualquer quantidade de droga, parte dos aliados do governo acredita que Lira quer demonstrar sua força e capacidade de controlar a Câmara, mesmo sem o apoio do governo e do PT.

Nas últimas semanas, o Palácio do Planalto sofreu derrotas consecutivas em votações ideológicas, que têm favorecido agendas bolsonaristas.

Além da PEC das Drogas, já aprovada pelo Senado e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, com Ricardo Salles (PL-SP), ex-ministro de Jair Bolsonaro, como relator, o governo também enfrentou reveses na sessão do Congresso. Há duas semanas, o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre um ponto central da lei que restringe as “saidinhas” temporárias de presos foi derrubado, e o veto de Bolsonaro em um trecho da nova Lei de Segurança Nacional que endurecia a repressão contra fake news foi mantido.

Arthur Lira nega utilizar a pauta como instrumento de pressão e descarta qualquer relação com o processo de sucessão na Casa. Ele afirmou que a PEC das Drogas segue tramitação normal e que não há previsão para a votação do mérito do projeto do aborto, pois ainda não há relator nem texto definido.

Lira pretende anunciar seu apoio para a sucessão na Câmara em agosto. Parlamentares avaliam que Elmar Nascimento (BA), líder do União Brasil, é o mais próximo de Lira, mas a disputa ainda está aberta.

Outros interessados na cadeira são Marcos Pereira (SP), presidente do Republicanos, Antonio Brito (BA), líder do PSD, e Isnaldo Bulhões (AL), líder do MDB. Desses, Isnaldo é o que menos agrada Lira, devido à sua aliança com o senador Renan Calheiros (MDB-AL), rival do presidente da Câmara.

O governo ainda não decidiu quem apoiar na disputa, mas uma ala do PT na Câmara defende a união com o candidato escolhido por Lira. Odair Cunha (MG), líder do PT na Câmara, afirmou que os projetos ideológicos conservadores não são determinantes para a decisão do partido sobre uma possível aliança com Lira na sucessão. Cunha também mencionou que a bancada do PT vai decidir, no momento adequado, quem apoiar e como apoiar.

Para integrantes do PT, o que importa no processo de sucessão é o espaço que o partido terá na Mesa Diretora, nas comissões e nas relatorias de projetos. Por outro lado, aliados de Bolsonaro veem positivamente as sinalizações de Lira nas votações, acreditando que isso pode ajudar a bancada bolsonarista a apoiar o candidato escolhido por ele.

O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e padrinho político do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), autor do projeto que endurece a pena contra o aborto, afirmou que Lira está ganhando pontos por sua coragem de colocar essas pautas em discussão.

Com informações de O Globo.

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