Governo brasileiro terá reunião com representante comercial dos EUA ainda esta semana para debater tarifas, diz Durigan

Ministro da Fazenda confirma reunião com representante comercial de Donald Trump e defende diálogo setorial para evitar impactos às exportações brasileiras

O governo brasileiro iniciou uma nova ofensiva diplomática para tentar conter o avanço das medidas tarifárias anunciadas pelos Estados Unidos contra produtos nacionais. Nesta terça-feira (9), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que participará, nos próximos dias, de uma reunião virtual com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, para discutir as novas tarifas propostas por Washington, incluindo uma sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros.

O encontro também contará com a participação do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e representa a primeira tentativa formal de negociação após o anúncio feito pelo governo do presidente Donald Trump na última semana.

Em entrevista ao UOL, Durigan afirmou que a conversa será concentrada na agenda comercial entre os dois países e poderá abrir espaço para novos contatos com integrantes da equipe econômica estadunidense.

“A próxima reunião é para tratar das tarifas entre o ministro Márcio Elias Rosa e o Greer, que é o representante da agenda comercial dos EUA. Eu devo estar presente e acompanhar, e a depender de como essa reunião acontecer, eu não teria problema nenhum em fazer reuniões subsequentes com o Scott Bessent e outros interlocutores dos EUA”, afirmou Durigan.

Pressão sobre exportações brasileiras

O anúncio das novas medidas comerciais elevou a preocupação de setores produtivos brasileiros. Na última quarta-feira (3), a administração Trump apresentou uma proposta que prevê uma sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros exportados para o mercado estadunidense.

A medida foi divulgada um dia após a recomendação de um novo tarifaço de 25% sobre exportações do Brasil destinadas aos Estados Unidos, ampliando a tensão comercial entre os dois países.

Apesar da apreensão do setor produtivo, a decisão definitiva ainda não foi tomada. O governo dos EUA marcou para 7 de julho uma audiência que deverá servir como etapa decisiva para definir os rumos da política tarifária em relação ao Brasil.

Até lá, o Palácio do Planalto tenta construir canais de diálogo que possam reduzir ou evitar os impactos das novas barreiras comerciais.

Reunião deve ocorrer nos próximos dias

Segundo Durigan, os detalhes finais do encontro ainda estão sendo ajustados entre as equipes brasileira e estadunidense.

“Ela deve ser virtual, eu preciso confirmar a data e horário com o meu colega Márcio Elias Rosa, não tenho essa informação aqui, mas ela deve acontecer nos próximos dias”, disse.

A expectativa do governo é aproveitar a reunião para apresentar argumentos favoráveis à manutenção do fluxo comercial entre os dois países e demonstrar os possíveis prejuízos de medidas que afetem cadeias produtivas integradas.

Etanol, açúcar e aviação entram na pauta

De acordo com o ministro, a estratégia brasileira será concentrar as negociações em questões econômicas e setoriais, evitando ampliar o debate para temas políticos ou institucionais.

Entre os assuntos que poderão ser discutidos estão interesses mútuos ligados ao agronegócio, à indústria, ao setor de serviços e à área de tecnologia.

Durigan citou como exemplos temas relacionados ao comércio de etanol e açúcar, além de questões envolvendo a indústria aeronáutica, telecomunicações e computação em nuvem.

“O que pode ser discutido são questões setoriais, dentro do agro, quais são os temas importantes, os EUA tem a questão do etanol, nós temos o açúcar com eles. Na indústria aeronáutica, temos temas a tratar com os eua, setor de serviços, de infraestrutura de telecomunicação, e serviço de tecnologia de nuvem por exemplo, esse debate cabe. O que deveríamos afastar são essas grandes ameaças ao país todo, dizer que o Pix está afetado com isso, esse tipo de coisa tem que estar fora da mesa”, afirmou.

Pix fica fora das negociações

Um dos pontos enfatizados pelo ministro foi a exclusão do Pix das tratativas comerciais.

Nos últimos meses, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos passou a ser citado em discussões e investigações conduzidas por autoridades dos EUA, o que gerou preocupação em setores do governo e do mercado financeiro.

Durigan, no entanto, afirmou que o tema não deve ser misturado às negociações sobre tarifas e comércio exterior.

Ao defender a separação entre os assuntos, o ministro sinalizou que a prioridade do governo é concentrar os esforços em temas diretamente ligados à relação econômica bilateral e aos interesses dos setores exportadores.

Contexto de tensão entre Brasil e EUA

A nova rodada de negociações acontece em meio a uma série de decisões recentes adotadas por Washington envolvendo o Brasil.

No fim de março, os Estados Unidos classificaram as facções criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida foi anunciada pouco depois de uma reunião entre o então pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, e Donald Trump, sendo comemorada por lideranças da oposição brasileira.

Agora, a discussão comercial passa a ocupar o centro da relação bilateral.

Com a audiência marcada para 7 de julho se aproximando, o governo Lula busca ampliar os canais de diálogo com a administração estadunidense para evitar que o aumento das tarifas prejudique exportações brasileiras e afete setores estratégicos da economia nacional.

A reunião entre Dario Durigan, Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer será o primeiro teste dessa estratégia de negociação e poderá indicar o grau de disposição dos dois países para construir uma saída negociada para o impasse tarifário.

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