“Fui metralhada, mas não serei vítima”: juíza rompe o silêncio sobre morte do marido, policial do Core

Tula Mello afirma que vai transformar sua dor em luta por justiça

A juíza Tula Mello, viúva do agente da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) João Pedro Marquini Santana, falou pela primeira vez sobre o assassinato do marido, ocorrido no último domingo na Grota Funda, no Rio. Em entrevista concedida ao Blog Segredos do Crime, ela relatou sua dor e reafirmou sua determinação em transformar o luto em luta por um estado mais seguro.

“Fui metralhada, mas não serei mais uma vítima. Estou aqui na condição de uma mulher que lutará pelo Rio. João me protegeu, mas não está mais comigo. Ele entregou a vida para que eles cessassem os disparos, o que me possibilitou fazer uma manobra de 180 graus, em curva rápida e marcha à ré, garantindo minha sobrevivência ao ataque”, afirmou a magistrada.

O veículo em que ela estava, um Mitsubishi Outlander, foi atingido por tiros de fuzil, que atravessaram o vidro dianteiro. A blindagem do carro, porém, só suportava disparos de pistola. Apesar do choque, Tula Mello conseguiu escapar.

João Marquini, que dirigia um Sandero à frente do carro da esposa, foi alvejado por criminosos armados que bloquearam a estrada com um Tiggo 7 prata. O policial foi atingido por cinco disparos e morreu no local. Segundo fontes da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), as investigações estão avançadas, e um amigo da vítima, que falava com ele pelo viva-voz segundos antes do ataque, pode ser peça-chave na elucidação do crime.

“A vida dele não foi em vão”

A juíza relatou que João sempre a instruía sobre técnicas de direção defensiva e evasiva, ensinamentos que foram fundamentais para que ela escapasse do atentado. “Ele sempre me perguntava se eu saberia fazer as manobras. Minhas respostas eram sempre afirmativas. Relembrávamos os conceitos das técnicas, como distância, métodos de observação, entre outros abordados no curso do tribunal. A vida dele não foi em vão. Salvou a minha”, desabafou.

Emocionada, Tula Mello afirmou que não aceitará o rótulo de vítima e que pretende atuar ativamente para transformar a realidade da cidade. “João me amou como nenhum homem jamais me amou, e me fez sentir a mulher mais amada deste mundo. E essa mulher, hoje aqui, não se encontra na condição de vítima — condição esta que, queiram ou não, me recuso a assumir. Com todas as minhas forças, serei agente de transformação para uma cidade livre, justa e fraterna. Não arrancaram um cordão de ouro do meu pescoço — arrancaram a vida de João, e isso é inegociável.”

“Homens que se organizaram para atos terroristas”

A magistrada também fez questão de classificar o ocorrido não como uma tragédia, mas como um ato planejado e deliberado de violência. “Compareço hoje (02/04), retornando à DH, para me colocar à disposição para esclarecimentos de um fato repugnante — mas que não se trata de uma tragédia. Tragédia é algo inesperado, um evento como o terremoto que aconteceu semana passada na Tailândia. Casais de férias em uma piscina com ondas no alto de um prédio. Isso é uma tragédia. O que aconteceu foi um crime gravíssimo, escolha de homens que se organizaram para atos terroristas”, declarou.

Para ela, não se trata de um episódio isolado, mas sim de um crime cometido por indivíduos identificáveis, que precisam ser responsabilizados. “O que aconteceu tem nome, literalmente tem nomes e sobrenomes, e é nessa condição que me encontro neste local (DHC): para elucidar e permitir a punição de cada um desses nomes. O ato terrorista que cometeram foi contra um casal que não optou pelo crime, mas sim por um trabalho duro, dedicado e diário, pela família — e mais: pela sociedade na qual nós acreditávamos poder circular pelas ruas, ouvir nossas músicas, curtir o futebol nos momentos de descanso e retornar para casa cedo, para o trabalho que se iniciaria novamente na manhã de segunda-feira.”

A juíza optou por não entrar em detalhes sobre o dia do crime para não comprometer as investigações, mas reafirmou seu compromisso em buscar justiça por João e transformar sua dor em ação.

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