Em 2024, quatro mulheres foram assassinadas por dia no Brasil por uma razão: o simples fato de serem mulheres. Os números recém-divulgados pelo Mapa da Segurança Pública 2025 revelam que o país registrou 1.459 feminicídios no último ano — um aumento de 0,69% em relação a 2023. Mas por trás de cada estatística está uma história, um nome, uma vida interrompida ou permanentemente marcada pela violência.

O Agenda do Poder ouviu três mulheres sobreviventes de tentativas de feminicídio. Seus nomes são fictícios para protegê-las. Juntas, elas narram o percurso da violência até o rompimento, e mostram como o sistema ainda falha em protegê-las.

‘Ele dizia que me amava, mas me batia toda noite’: o ciclo invisível da violência

Gisele, de 33 anos, escapou da morte por segundos. O ex-companheiro, com quem viveu por quatro anos, não aceitou o fim da relação e chegou a invadir sua casa duas vezes, fazendo ameaças de morte.

“Na segunda vez que isso aconteceu, eu entendi que seria um ciclo sem fim. Ele dizia que me amava, mas me batia todas as noites. Achei que o ciclo tinha chegado ao fim com o término, mas o pesadelo ficou maior. Eu podia ter morrido”, conta.

Gisele faz parte de um perfil majoritário entre as vítimas de feminicídio no Brasil: mulheres negras, com filhos, assassinadas dentro de casa ou em seus arredores, muitas vezes após tentativas frustradas de denunciar.

“Depois que a relação acabou, comecei a andar na rua com medo. Ficava olhando para trás e para os lados, o tempo todo. Parecia que eu nunca ia ter uma vida norma e isso me acompanharia para sempre”, diz.

Dados alarmantes e desiguais

Segundo o Mapa da Segurança Pública, a cada 100 mil mulheres, foram registrados 1,34 feminicídios em 2024 — número que se manteve estável pelo segundo ano, mas ainda elevado.

O destaque negativo vai para a Região Centro-Oeste, que concentrou a maior taxa do país, 1,87 casos por 100 mil mulheres. O Sudeste, embora com a menor taxa (1,16), teve o maior número absoluto de vítimas: 532 registros, com Rio de Janeiro e São Paulo liderando os casos.

Desde 2020, o Brasil vê uma escalada preocupante:

2020: 1.355 casos

2021: 1.359

2022: 1.451

2023: 1.449

2024: 1.459

‘Me xingou, bateu e apertou meu pescoço’

Marta, de 44 anos, começou a perceber que o relacionamento com o agressor estava tomando rumos fora do convencional quando ele começou a querer controlá-la.

“Acho que o vínculo que ele mantinha comigo era movido pelo desafio de me controlar, pois minha postura sempre foi muito insubordinada”, relembra.

Quando percebeu que suas tentativas de controle eram frustradas, o homem começou a ter comportamentos mais alarmantes, seguindo a vítima na rua. Ela tentou colocar um ponto final na relação, mas quase foi morta.

“Ele me seguiu na rua, me empurrou para dentro de casa quando estava abrindo a porta e me xingou, bateu e apertou meu pescoço até que eu desmaiasse. Eu imaginei que estivesse morrendo. Quando acordei, ele estava sentado ao meu lado assustado e se mostrou arrependido pelo o que fez”, detalha.

Marta não quis procurar a polícia porque acreditou que um processo criminal prolongaria o contato com o agressor. Ele, por sua vez, se viu tão assustado com o que fez que aceitou o fim do relacionamento e desapareceu da vida da vítima.

“Era muito incômodo pensar que alguém tenha se sentido autorizado a me estrangular pelo fato de não ter controle sobre mim. Inclusive, enquanto apertava meu pescoço, ele chegou a dizer: ‘Cadê suas amiguinhas feministas agora para te defender?’”.

Especialista aponta falhas do sistema

Para a socióloga Isadora Vianna, pesquisadora no Núcleo de Estudos das Desigualdades Contemporâneas e Relações de Gênero da Universidade do Estado do Rio (Uerj), os dados de 2025 revelam mais do que números: mostram a falência das respostas institucionais.

“O Brasil conta com um quadro normativo robusto em termos de enfrentamento à violência de gênero, mas a implementação das políticas públicas de prevenção é desigual e inconstante. A cobertura dos serviços especializados – como delegacias da mulher, casas-abrigo e centros de atendimento psicossocial – ainda é limitada, sobretudo em municípios do interior e em regiões periféricas das grandes cidades”, destaca.

Outro ponto levantado pela profissional são as campanhas de enfrentamento a violência. “Elas tendem a adotar mensagens genéricas, como ‘diga não à violência contra a mulher’, sem abordar de forma pedagógica os comportamentos e valores que sustentam a violência, as múltiplas formas que ela pode assumir ou os serviços de apoio disponíveis”, pontua.

‘Era aquela pessoa que todos queriam por perto’

Cristina, de 44 anos, conheceu o agressor na igreja. Os dois começaram a namorar quando ela tinha 16 anos e ele 23. Segundo os relatos, ele era um homem simpático, que cativava as pessoas ao seu redor.

“Era aquela pessoa que todos queriam estar por perto. Solícito, amigo, disposto sempre a promover entretenimento aos que estavam ao redor. Não havia espaço para nenhum tipo de violência naqueles momentos. Tudo era novo para mim, primeiro namorado ‘sério’, momento de muita euforia, pelo menos da minha parte”, relembra.

Os primeiros sinais de controle eram entendidos pela vítima como atitudes de cuidado por parte do companheiro. “Achava que aquilo era muito especial, dizer a ele todos os meus passos, o que eu estava pensando em fazer, receber a aprovação dele era legal. Ele dizia que minhas amigas não eram as garotas que eu devia me relacionar, porque elas não tinham compromisso com Deus. Me acostumei a ser eu e ele, apenas”, conta.

O tempo foi passando e o que parecia aceitável, começou a se tornar conflituoso. Entre idas e vindas, Cristina engravidou do agressor. Criada em família cristã, foi induzida pelo pai a se casar, já que havia ‘cometido algo muito grave’.

“Minha mãe não concordava com essa movimentação, mas não tinha muita voz ativa dentro do lar, eu, extremamente apaixonada, achei foi bom, ia viver um sonho lindo de estrelas, ter um lar e essas coisas que às vezes passam pela cabeça de algumas jovens”, conta.

Mas não foi nem de perto disso o que aconteceu. Cristina começou a sofrer episódios ininterruptos de agressões, violência psicológica e estupros.

“Me lembro de, no início da gravidez, estar com um vestido lavando roupas e ele chegar perto de mim e rasgar o vestido, pois estava muito vulgar. Ele perdeu a mão, se a gente discutisse, ele me agredia na frente de quem estivesse. Na covardia dele, eu recebia socos na cabeça, se me recusasse a ter relação sexual, era estuprada, foi quando fiz meu primeiro boletim de ocorrência”, relembra os episódios de dor.

Na delegacia, no entanto, não foi acolhimento que a vítima encontrou. “Me senti um lixo, as perguntas que me fizeram foi o que eu havia feito para ele me tratar assim, e por que eu havia alterado a voz com ele. Eu ali, sozinha, deixei meus filhos, nessa altura eu já tinha dois, com minha cunhada e fui sozinha. Achei que seria ouvida, mas fui hostilizada. Cheguei a realizar corpo delito, mas não tinha marcas e nada aconteceu”.

Redes de apoio

No Rio de Janeiro, o enfrentamento ao feminicídio tem ganhado força com a ampliação das redes de acolhimento. Desde 2021, a Secretaria de Políticas para Mulheres e Cuidados da capital passou de três para mais de 27 equipamentos especializados, com mais de 65 mil atendimentos diretos realizados até hoje. 

A rede inclui Centros Especializados de Atendimento à Mulher, abrigos sigilosos e as Casas da Mulher Carioca, que oferecem atendimento jurídico, psicológico e social gratuito, além de oficinas e cursos de capacitação.

A cidade também implementou auxílios emergenciais, como o Cartão Mulher Carioca, o Move Mulher (transporte seguro em casos de risco extremo) e o Cartão Órfãos do Feminicídio, destinado a filhos de vítimas.

Por meio da plataforma Mulher Rio, é possível identificar sinais de violência e localizar rapidamente os serviços públicos disponíveis na cidade.

No âmbito estadual, a Patrulha Maria da Penha da Polícia Militar já fez mais de 376 mil atendimentos a mulheres com medida protetiva. A rede inclui ainda o CIAM Márcia Lyra, no Centro, referência no atendimento psicológico, jurídico e social, e o programa Acolhe, que garante abrigo emergencial em hotéis. 

Para acolher mulheres em risco iminente de vida e que não têm uma rede de proteção, o Governo do Estado oferece um abrigo sigiloso. O Lar da Mulher oferece assistência psicológica, social e jurídica às vítimas e a seus filhos.

Ações como o Ônibus Lilás, o programa Vamos Juntas e o projeto ‘Empoderadas’ completam o esforço conjunto para garantir proteção e autonomia na reconstrução de vidas.

Saiba como pedir ajuda

Em casos de emergência, mulheres vítimas de violência devem ligar para o 190 ou acionar o botão de emergência do app Rede Mulher, que envia em tempo real a localização da vítima para a Central da Polícia Militar. 

As mulheres fluminenses contam ainda com as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e os Núcleos Integrados de Atendimento à Mulher (NIAM’s).

Qualquer mulher que sofre violência pode buscar ajuda na rede de proteção do estado, responsável pelos encaminhamentos para o Lar da Mulher. É necessário procurar algum Centro Especializado de Atendimento à Mulher ou as delegacias especializadas. 

Queimados

Dias de funcionamento: 26, 27 e 30 de dezembro; 2 e 3 de janeiro.

Endereço: Rua Ministro Odilon Braga 26, Centro

Horário: 8h às 17h

Telefone (whatsApp): 21 99370-8773

Baixada (Nova Iguaçu)

Dias de funcionamento: 26 e 27 de dezembro; 2 e 3 de janeiro.

Endereço: Rua Terezinha Pinto 297, 2º andar, Centro

Horário: 9h às 17h

Telefone (whatsApp): 21 99370-0206

Márcia Lyra (Rio)

Dias de funcionamento: 26, 27 e 30 de dezembro; 2 e 3 de janeiro.

Endereço: Rua Regente Feijó 15, Centro 

Horário: 9h às 18h

Telefone (whatsApp): 21 99369-1159

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading