Especialistas criticam suspensão de pesquisa AtlasIntel por Nunes Marques e apontam censura

Especialistas em opinião pública, estatística e ciência política afirmam que decisão do presidente do TSE carece de base técnica, pode ferir a liberdade de divulgação de pesquisas e abre precedente preocupante para as eleições de 2026

O presidente do Conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), João Francisco Meira, classificou como um ato de censura a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, que suspendeu a divulgação da pesquisa AtlasIntel sobre a disputa presidencial de 2026.

O levantamento, divulgado em 19 de maio, apontou uma queda de seis pontos percentuais na intenção de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL). A pesquisa foi realizada poucos dias após a divulgação de um áudio em que o parlamentar solicita apoio financeiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Com mais de quatro décadas de atuação no setor de pesquisas, Meira afirmou que a decisão possui fundamentos frágeis e contraria princípios constitucionais relacionados à liberdade de informação.

Críticas à decisão do TSE

Segundo o especialista, não existe previsão constitucional que permita impedir a divulgação de uma pesquisa eleitoral já concluída e registrada.

Meira argumenta que a medida, além de questionável juridicamente, possui pouca efetividade prática, uma vez que os dados já haviam se tornado públicos antes da suspensão determinada pelo magistrado.

Para o presidente do Conselho de Opinião Pública da Abep, a decisão representa um precedente preocupante para a divulgação de pesquisas eleitorais e para o debate democrático durante o processo eleitoral.

A decisão monocrática de Kassio Nunes Marques entrou em vigor imediatamente e será analisada pelos demais ministros do TSE em sessão marcada para esta terça-feira (9), quando poderá ser mantida ou revogada.

Partido Liberal alegou indução dos entrevistados

A suspensão ocorreu após pedido apresentado pelo Partido Liberal (PL). A legenda sustenta que a AtlasIntel teria influenciado negativamente os entrevistados ao incluir perguntas relacionadas ao escândalo envolvendo o Banco Master e às conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Na avaliação do partido, esses questionamentos teriam interferido no resultado da pesquisa, que mostrou Flávio Bolsonaro com 41,8% das intenções de voto contra 48,9% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno.

Entretanto, Meira rebate essa interpretação ao destacar que o próprio questionário disponibilizado no sistema do TSE demonstra que as perguntas eleitorais foram feitas antes dos questionamentos sobre o caso Banco Master.

Questionário é apontado como prova de independência dos resultados

De acordo com a análise do especialista, os cenários de primeiro turno aparecem logo nas primeiras perguntas do levantamento, enquanto as simulações de segundo turno também são apresentadas antes de qualquer menção ao Banco Master.

Somente após essas etapas surgem perguntas relacionadas ao episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

O áudio da conversa entre ambos, apontado como elemento central da contestação do PL, foi disponibilizado apenas ao final da pesquisa, depois que todas as respostas eleitorais já haviam sido registradas.

Para Meira, não há fundamento lógico para afirmar que um conteúdo exibido após o encerramento das perguntas sobre intenção de voto tenha influenciado as respostas fornecidas anteriormente pelos entrevistados.

O especialista acrescenta que eventuais mudanças de opinião durante uma entrevista são naturais e fazem parte do comportamento esperado em pesquisas de opinião pública.

Pesquisadores alertam para precedente perigoso

As críticas à decisão não partiram apenas do setor de pesquisas. O professor Oswaldo Amaral, do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também avaliou que a suspensão apresenta fragilidades técnicas.

Segundo ele, a medida pode abrir espaço para restrições futuras à circulação de informações relevantes para os eleitores, especialmente em períodos eleitorais decisivos.

Na mesma linha, o estatístico Raphael Nishimura, da Universidade de Michigan, ressaltou que o áudio envolvendo Flávio Bolsonaro foi apresentado somente após a conclusão da etapa principal da pesquisa.

Para Nishimura, o argumento de que o conteúdo teria influenciado as respostas eleitorais não encontra respaldo metodológico, já que os blocos de perguntas funcionaram de forma independente.

Especialista vê risco para pesquisas eleitorais

O pesquisador também classificou como preocupante o entendimento de que perguntas relacionadas a acontecimentos políticos recentes possam comprometer a neutralidade de um levantamento eleitoral.

Segundo ele, é prática comum dos institutos de pesquisa avaliar como fatos relevantes repercutem na opinião pública e influenciam a percepção dos eleitores sobre candidatos e governos.

Apesar de considerar inadequada a suspensão do levantamento, Nishimura observou que perguntas relacionadas ao Banco Master poderiam ter sido concentradas integralmente no encerramento do questionário para evitar qualquer tipo de questionamento metodológico.

Ainda assim, o estatístico reforçou que essa observação não justificaria a retirada da pesquisa de circulação nem a suspensão determinada pelo presidente do TSE.

AtlasIntel nega irregularidades

Em nota, a AtlasIntel afirmou que não houve indução dos participantes e que todas as perguntas eleitorais foram respondidas antes do acesso ao áudio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

A empresa informou que, após o encerramento definitivo do questionário principal, os entrevistados eram direcionados para uma página separada, sem possibilidade de retornar ou alterar respostas já registradas.

Segundo o instituto, o teste com o áudio utilizou uma ferramenta específica para medir reações instantâneas da população a conteúdos audiovisuais, com finalidade analítica distinta da pesquisa eleitoral.

A AtlasIntel também declarou que seguiu critérios técnicos, científicos e metodológicos de imparcialidade e transparência. O instituto acrescentou que outros levantamentos identificaram impacto semelhante do episódio na opinião pública, o que, segundo a empresa, reforça a validade dos resultados apresentados.

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