A pesquisa presidencial BR 09353 2026, registrada no Tribunal Superior Eleitoral conforme determina a legislação brasileira, realizada pelo instituto Real Time Big Data, com 2.000 entrevistas entre os dias 28 de fevereiro e 2 de março, margem de erro de dois pontos percentuais e intervalo de confiança de 95 por cento, divulgada publicamente em 03 de março de 2026, não é apenas um retrato numérico. É um mapa social.
É um espelho que devolve ao país sua própria divisão, suas continuidades históricas, seus impulsos e suas fadigas. O fato de estar formalmente registrada no TSE garante transparência metodológica, publicidade dos dados e responsabilidade técnica, elementos indispensáveis em uma democracia que se quer sólida e auditável.
Ao ler cada tabela, cada cruzamento por renda, gênero, idade e região, o que se revela não é somente a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. O que se revela é a persistência de dois campos estruturais que organizam o imaginário político brasileiro.
Na espontânea, Lula aparece com 29 por cento. Flávio Bolsonaro surge com 19 por cento. Jair Bolsonaro ainda é lembrado por 4 por cento. Ratinho Junior e Tarcísio de Freitas registram 2 por cento cada. Ciro Gomes alcança 1 por cento. Outros nomes somam 2 por cento. Branco e nulo atingem 15 por cento. Não sabe alcança 26 por cento. Esse dado inicial carrega uma mensagem dupla.
De um lado, Lula mantém força simbólica. É o nome que emerge primeiro na memória política. De outro, a marca Bolsonaro segue viva, distribuída entre Flávio e Jair. Ao mesmo tempo, 41 por cento do eleitorado está fora do jogo nominal, seja na indecisão ou na recusa. Há um país que ainda não se conectou ao processo. Há também a indicação de que a memória política precede a campanha formal e estrutura preferências antes mesmo da propaganda.
Na estimulada de primeiro turno, três cenários confirmam a centralidade do eixo Lula versus bolsonarismo. No cenário com Ratinho Junior, Lula atinge 39 por cento. Flávio Bolsonaro registra 32 por cento. Ratinho aparece com 9 por cento. Romeu Zema, Aldo Rebelo e Renan Santos marcam 2 por cento cada. Branco e nulo somam 7 por cento. Não sabe alcança 7 por cento.
A vantagem de Lula é de sete pontos, superior à margem de erro. Estatisticamente consistente. Politicamente relevante. Mas não definitiva. É vantagem estrutural, não é hegemonia consolidada.
No cenário com Eduardo Leite, Lula sobe a 40 por cento. Flávio alcança 34 por cento. Eduardo Leite obtém 4 por cento. Zema marca 3 por cento. Aldo Rebelo e Renan Santos mantêm 2 por cento. Branco e nulo registram 7 por cento. Não sabe chega a 8 por cento. A disputa se concentra ainda mais. A chamada terceira via mostra baixa capilaridade nacional neste momento do ciclo político.
No cenário com Ronaldo Caiado, Lula permanece com 40 por cento. Flávio marca 33 por cento. Caiado atinge 5 por cento. Zema registra 3 por cento. Aldo Rebelo e Renan Santos mantêm 2 por cento. Branco e nulo 7 por cento. Não sabe 8 por cento. A terceira via existe, mas não reorganiza o eixo central. A estrutura binária se mantém dominante.
Os cruzamentos sociais revelam a anatomia do voto. Entre mulheres, Lula alcança 43 por cento no primeiro cenário. Entre homens, 34 por cento. Flávio registra 37 por cento entre homens e 28 por cento entre mulheres. Há uma clivagem de gênero que se repete. O lulismo encontra maior acolhimento no eleitorado feminino. O bolsonarismo mantém base masculina mais consistente. Essa diferença não é episódica. Ela dialoga com valores, políticas públicas, narrativas morais e percepções de segurança e proteção social.
Na renda até dois salários mínimos, Lula chega a 44 por cento. Flávio marca 29 por cento. Entre os que ganham acima de cinco salários mínimos, Lula tem 34 por cento. Flávio 35 por cento. O lulismo permanece ancorado na base popular. O bolsonarismo disputa com vigor as faixas superiores. Essa não é uma novidade histórica. É a reafirmação de uma divisão social do voto que atravessa ciclos eleitorais e reorganiza alianças.
Regionalmente, o Nordeste oferece a Lula 47 por cento no primeiro cenário e chega a 50 por cento no segundo. No Sul, Flávio atinge 38 e 40 por cento. No Sudeste, Lula marca 36 por cento enquanto Flávio alcança 34 e 36 por cento. O Centro Oeste dá a Caiado 10 por cento quando ele está presente. O território fala. O Nordeste permanece como coluna do lulismo.
O Sul e parte do Sudeste concentram a energia bolsonarista. O Centro Oeste guarda identidade própria ligada ao agronegócio e ao conservadorismo regional. A geografia continua sendo sociologia aplicada.
No segundo turno, o dado mais sensível emerge. Lula contra Flávio Bolsonaro registra 42 por cento para Lula e 41 por cento para Flávio. Empate técnico. Branco e nulo 10 por cento. Não sabe 7 por cento. A eleição, nesse cenário, é decidida na borda. É decidida no detalhe. É decidida na mobilização dos que ainda hesitam. A margem estatística dialoga com a margem política.
Contra Ratinho Junior, Lula vence por 43 a 39. Contra Romeu Zema, 44 a 35. Contra Eduardo Leite, 46 a 35. Contra Ronaldo Caiado, 45 a 36. Contra Aldo Rebelo, 51 a 19. Contra Renan Santos, 51 a 18. A mensagem é clara. O adversário que tensiona Lula é o representante mais orgânico do bolsonarismo. A direita moderada ainda não consegue capturar integralmente o eleitorado conservador sem perder competitividade no centro.
A polarização, até aqui, organiza o campo com eficiência. A avaliação do governo Lula revela 26 por cento de ótimo e bom. 27 por cento de regular. 46 por cento de ruim e péssimo. Em agregado, 44 por cento aprovam. 51 por cento desaprovam. O governo enfrenta saldo negativo. Isso é um dado desafiador.
O humor social não é majoritariamente favorável. Esse ambiente ajuda a explicar o empate no segundo turno contra Flávio. Governos avaliados negativamente entram em disputa eleitoral com maior vulnerabilidade estrutural.
A pesquisa de votabilidade aprofunda a leitura. Lula registra 35 por cento de voto consolidado. 16 por cento dizem que poderiam votar. 47 por cento afirmam que não votariam. 2 por cento não o conhecem. Flávio Bolsonaro tem 22 por cento de voto consolidado. 22 por cento poderiam votar. 47 por cento não votariam. 9 por cento não o conhecem. A rejeição é simétrica.
Esse é o dado estrutural mais relevante. Dois polos com capacidade de mobilização e com antivoto igualmente elevado. Essa simetria sustenta o equilíbrio competitivo.
Ratinho Junior apresenta 5 por cento de voto consolidado, 38 por cento poderiam votar, 36 por cento não votariam e 21 por cento não o conhecem. Eduardo Leite tem 2 por cento de voto consolidado, 31 por cento poderiam votar, 30 por cento não votariam e 37 por cento não o conhecem. Ronaldo Caiado registra 3 por cento de voto consolidado, 33 por cento poderiam votar, 39 por cento não votariam e 25 por cento não o conhecem.
Romeu Zema possui 2 por cento de voto consolidado, 30 por cento poderiam votar, 36 por cento não votariam e 32 por cento não o conhecem. Renan Santos alcança 1 por cento de voto consolidado, 23 por cento poderiam votar, 21 por cento não votariam e 55 por cento não o conhecem. Aldo Rebelo apresenta alto desconhecimento, 41 por cento, e rejeição de 36 por cento.
Tarcísio de Freitas e Ciro Gomes aparecem na espontânea, mas não estruturam cenário competitivo neste momento. O Real Time Big Data, ao divulgar esses dados em 03 de março de 2026, oferece ao debate público não apenas percentuais, mas uma radiografia do grau de nacionalização e do limite de expansão de cada liderança.
O que há de positivo para Lula. A liderança na espontânea. A dianteira consistente no primeiro turno. A vitória em quase todos os cenários de segundo turno. A força no Nordeste. A supremacia entre os mais pobres. A vantagem entre mulheres. A memória histórica que o mantém como referência central. Há vitalidade política. Há base social sólida. Há um capital simbólico que resiste ao desgaste do governo. Há ainda o fato de que, mesmo com desaprovação superior à aprovação, o presidente permanece competitivo e vitorioso na maior parte dos cenários simulados.
O que há de negativo para Lula. A desaprovação majoritária. O empate técnico contra Flávio Bolsonaro no segundo turno. A rejeição elevada de 47 por cento. A dificuldade maior entre homens e entre os mais ricos. O risco de que o descontentamento econômico e moral seja organizado pelo adversário. A eleição não está ganha. Está aberta. E a abertura é real.
O que há de positivo para Flávio Bolsonaro. A consolidação do campo bolsonarista sem a presença direta de Jair Bolsonaro na disputa estimulada. A competitividade extrema no segundo turno. A força entre homens. A vantagem relativa nas rendas mais altas. O desempenho robusto no Sul e no Sudeste. A rejeição idêntica à de Lula, o que produz equilíbrio estrutural. A marca Bolsonaro continua a mobilizar. E mobiliza a ponto de transformar uma disputa aparentemente inclinada em confronto estatisticamente empatado.
O que há de negativo para Flávio Bolsonaro. A desvantagem no primeiro turno. A fragilidade no Nordeste. A dificuldade maior entre mulheres. O desconhecimento ainda superior ao de Lula. A incapacidade de romper o teto dos 41 ou 42 por cento no segundo turno. A dependência da manutenção da polarização para sobreviver politicamente. A necessidade de ampliar base sem diluir identidade.
O Brasil revelado pela pesquisa é um Brasil dividido, mas não imobilizado. Há 7 a 8 por cento que não sabem em quem votar no primeiro turno. Há 10 por cento que optam por branco e nulo no segundo turno contra Flávio. Há espaço de disputa. Há margem de persuasão.
A existência de registro no TSE e a divulgação formal pelo Real Time Big Data conferem institucionalidade a essa fotografia e reforçam que o debate se apoia em dados auditáveis.
Esta leitura não se limita aos números. Os números são expressão de estruturas sociais. Renda organiza interesses. Região organiza identidades. Gênero organiza experiências. O voto é síntese de biografia e história coletiva. É também síntese de expectativas futuras.
O lulismo permanece como força popular. O bolsonarismo mantém densidade ideológica. Ratinho Junior, Eduardo Leite, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Aldo Rebelo, Renan Santos, Tarcísio de Freitas e Ciro Gomes orbitam como possibilidades que ainda não se transformaram em alternativa hegemônica. A competição segue concentrada.
A eleição de 2026, à luz deste retrato, será menos sobre novidade e mais sobre capacidade de ampliação de base. Lula precisa reduzir rejeição e melhorar avaliação de governo. Flávio Bolsonaro precisa crescer entre mulheres e no Nordeste. Ambos precisam dialogar com o contingente que ainda não se decidiu. Ambos precisam compreender que a estrutura social impõe limites e oferece oportunidades.
A pesquisa não anuncia destino. Anuncia tensão. Anuncia equilíbrio instável. Anuncia que a política brasileira continua organizada por dois grandes polos que se enfrentam, se rejeitam e se necessitam para existir. No fundo, o que se observa é a vitalidade da democracia. Conflitiva. Polarizada. Incerta. Mas viva.
Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ





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