Fuga da fé: número de católicos despenca no Rio e acende alerta na Igreja

Estado com menor percentual de católicos do país, o Rio vê avanço de evangélicos e de pessoas sem religião, enquanto Igreja tenta se adaptar às mudanças sociais e culturais

Enquanto a Igreja Católica vive a transição para o pontificado de Leão XIV, um cenário bem menos simbólico preocupa suas lideranças no Brasil: o enfraquecimento da presença católica no estado do Rio de Janeiro. Apesar do histórico religioso marcado por eventos de massa — como a Jornada Mundial da Juventude e a visita do Papa Francisco em 2013 —, o número de fiéis que frequentam os templos vem encolhendo. Os desafios vão desde a adaptação a temas identitários até a necessidade de reformular estratégias para dialogar com uma juventude cada vez mais distante da vivência religiosa tradicional.

De acordo com levantamento divulgado pela Genial/Quaest há três meses, o Rio de Janeiro tem o menor percentual de católicos entre os oito estados pesquisados, com apenas 32% da população se declarando adepta da religião. Em contraste, estados vizinhos como Minas Gerais (55%) e São Paulo (46%) mantêm índices significativamente maiores. Os números refletem uma tendência que já se desenhava desde o Censo do IBGE de 2010, quando o Rio já aparecia na lanterna com 45,8% de católicos — na época, os evangélicos já somavam 29,3%, acima da média nacional.

Atualmente, segundo o mesmo levantamento, os evangélicos representam 31% da população fluminense, perdendo apenas para Goiás, com 34%. Outro dado relevante é o alto percentual de pessoas que dizem não ter religião no estado: 29%, o maior entre os analisados.

A antropóloga Renata Menezes, do Museu Nacional da UFRJ, destaca que o catolicismo brasileiro carrega uma marca histórica de dominação, por ter sido religião oficial durante o período colonial e o Império. Para ela, isso explica, em parte, o caráter nominal da fé católica por muitos anos, sem envolvimento prático.

— A relação do catolicismo com o Brasil é uma relação colonial, tanto do período como de religião de Estado. Outras manifestações religiosas foram reprimidas ao longo da História. Então, por muitos anos o catolicismo era nominal. A liberdade religiosa, apesar do questionamento do termo, vem a partir da República. E a perseguição das religiões de matriz africana, por exemplo, não deixou de existir — explica.

Segundo Renata, a queda no número de fiéis se acentuou a partir da década de 1970, impulsionada por mudanças de comportamento, transformações sociais e pelo surgimento de expressões religiosas mais flexíveis, como o pentecostalismo e a umbanda. A dificuldade de reprodução da hierarquia clerical também é apontada como um dos fatores que afastaram os fiéis.

A força das igrejas evangélicas também se reflete na ocupação do espaço urbano. Um estudo conduzido pelo pesquisador Victor Araújo Silva, do CEM/USP, com base nos dados da Receita Federal, revelou que o Rio contava, em 2019, com cerca de 13 mil templos evangélicos — o equivalente a mais de 80 por 100 mil habitantes. Já a Arquidiocese do Rio informa que o estado possui hoje 296 paróquias e 1.127 espaços de culto católico.

Leão XIV é novo papa. Rio tem menor percentual de católicos entre estados pesquisados no Brasil — Foto: Vatican Media/AFP

Para o padre Carlos Augusto Azevedo da Silva, doutorando em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, a reconquista de fiéis passa pela presença e pela capacidade da Igreja de se inserir em todos os espaços da vida social.

— Analisar o fenômeno religioso é diferente de uma corrida eleitoral. Há pormenores complexos envolvidos, como a crescente daqueles que se declaram sem religião. Entenda, eles não se declaram ateus, e sim pessoas sem identificação religiosa. Então, é importante a gente estar presente ao máximo em todas as esferas, sejam elas familiares, comunitárias, culturais, universitárias e até em presídios — afirma o padre.

Ele destaca que o avanço das tecnologias e a globalização trouxeram novos atrativos que competem com a fé. Para enfrentar esse cenário, a Igreja precisa se adaptar ao universo digital e repensar a forma como apresenta sua mensagem, especialmente aos mais jovens.

— Nossos meios de comunicação católicos tentam preencher espaços e dialogar. Muitos jovens procuram respostas para fugir do descartável e da superficialidade atual. Se eles querem se aprofundar em algo, sair da perseguição ao material, é em Deus que vão encontrar isso. Ao mesmo tempo, a Igreja disputa a atenção deles com um monte de informações e estímulos. Se não dão atenção a vídeos com mais de 45 segundos, imagina assistir a missas. Para alguns jovens, tudo é cansativo e precisa ser rápido. O Papa Francisco dizia que “o evangelho tem que ser atraente”, e é isso que tentamos fazer — diz.

A publicitária Anna Clara Joia, de 22 anos, viveu esse processo de afastamento da fé católica. Criada em colégio religioso, se identificou com a Igreja até a adolescência, mas se distanciou com o passar dos anos. Hoje, é umbandista e diz ter buscado uma religião que não limitasse sua liberdade.

Pesquisa em oito unidades da federação mostra que o estado do Rio tem o menor percentual de adeptos da religião católica. Na foto, a Igreja da Candelária, no Centro — Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

— Eu dependia de algum responsável para me levar a igrejas. Minha família não era religiosa, então eu parei de ir. Passei a me identificar com a umbanda mais velha, quando visitei terreiros. Até voltei a missas, mas faltava um lugar com que me identificasse. Eu tinha muito o pensamento de que, para frequentar esses espaços, eu teria que abdicar da minha liberdade, e isso me influenciou. Só após conviver com católicos que eram tão livres quanto eu é que eu abri minha cabeça. A fé não é algo que tem que limitar, é para a gente se sentir seguro — afirma a jovem, que é bissexual.

Para a antropóloga Renata Menezes, essa mudança de perfil entre os fiéis pode estar associada a posições morais rígidas da Igreja diante de temas como sexualidade e divórcio. Ela acredita que parte da crise decorre da dificuldade de conciliar o discurso institucional com o desejo de acolhimento de quem está à margem das normas tradicionais.

— A Igreja Católica lida com esses temas de forma que não faz sentido para muita gente. E, talvez, a perda de adeptos esteja relacionada a esses postulados morais muito rígidos. O Papa Francisco percebeu isso, tanto que adaptou discursos à necessidade de inclusão. Só que a gente tem visto surgir uma onda conservadora tão grande no mundo que a Igreja pode atrair mais fiéis sendo conservadora também. As lideranças vão ter que avaliar a perda de alguns desses fiéis para continuar com o legado afetuoso — conclui.

O retrato atual da Igreja Católica no Rio revela um impasse: entre manter suas tradições ou se reinventar para dialogar com novas gerações. O resultado dessa escolha poderá redefinir o futuro da fé católica em um dos estados mais simbólicos da história religiosa brasileira.

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