O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou nesta sexta-feira (2) que é preciso deixar as diferenças de lado ao governar o país. A afirmação veio durante um discurso em evento de anúncio de uma parceria com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para construção do túnel submerso que vai ligar Santos e Guarujá.
— Se não, a democracia fica capenga e a democracia é o respeito à diversidade, às diferenças, é a gente aprender a conviver com quem a gente não gosta, a gente respeita o direito até da pessoa não gostar da gente. Isso não impede que a gente seja responsável de lidar com as nossas diferenças, e eu quero dizer, governador Tarcísio, eu governei com o Alckmin, com o Serra, e nunca em nenhum momento eu tratei São Paulo diferente porque ele não pertencia ao meu partido. Eu quero te dizer, Tarcísio, que você terá da presidência tudo aquilo que for necessário, porque estou beneficiando o estado mais importante da federação. São Paulo merece respeito e o governador merece ser tratado com muito respeito — falou o presidente.
Em seu discurso, Tarcísio acenou para Lula e agradeceu ao petista pela parceria, que não se limita ao túnel: também houve um acordo para reformas na Avenida Perimetral, nos arredores do Porto de Santos, e para construção de moradias destinadas a pessoas que vivem em palafitas nas cidades do Litoral Sul.
— Me sinto privilegiado de estar celebrando essa parceria federal para entregar para a população um sonho de cem anos. E nós vamos sair esse sonho sair do papel. A gente está falando de R$ 6 bilhões de investimento. Quando a gente soma todo o investimento do túnel, na perimetral e nas casas, a gente passa fácil dos 8 bilhões, presidente Lula, e nós vamos fazer isso juntos. Temos que fazer a diferença na vida do cidadão, vamos deixar um legado trabalhando juntos, muito obrigada pela parceria, presidente Lulaassinaram nesta sexta-feira (2) uma parceria para construção do túnel submerso que vai ligar Santos e Guarujá.
A obra vai custar R$ 6 bilhões, custo que será dividido entre o estado e a União, e deve beneficiar cerca de 80 mil pessoas por dia e tem previsão de um fluxo de 14 mil automóveis nas três pistas em cada sentido. Hoje, a travessia é feita por balsa, que leva aproximadamente 18 minutos. Pela estrada, o trajeto dura cerca de uma hora. Pelo túnel, serão apenas dois minutos.
Lula e Tarcísio chegaram juntos ao palco, às 10h20, assim como o vice-presidente Geraldo Alckmin e os ministros Rui Costa (Casa Civil), Fernando Haddad (Fazenda), Silvio Costa Filho (Porto e Aeroportos), Márcio França (Empreendorismo), Marcio Macedo (Secretaria-Geral), Alexandre Padilha (Relações Institucionais), além do presidente da Autoridade Portuária de Santos, Anderson Pomini. Presidente do Republicanos, Marcos Pereira foi ao evento representando o presidente da Câmara, Arthur Lira.
O presidente foi recebido pela plateia com gritos de “olê, olê ole olá, Lula”, e Tarcísio foi vaiado em sua chegada e durante seu discurso. No evento, os dois ficaram lado a lado no centro do palco.
Enquanto Lula discursava, algumas pessoas na plateia gritaram para Tarcísio: “Vai para o PT”. Lula disse, sorrindo para Tarcísio, que vai se preparar para derrotá-lo nas próximas eleições. O governador paulista é um dos nomes cotados para se candidatar a presidente em 2026, já que Jair Bolsonaro, seu principal padrinho político, ficou inelegível.
— Eu vou me preparar para te derrotar nas próximas eleições, mas da minha parte não faltará um minuto de respeito a você em São Paulo. Olha o Alckmin, nós brigamos tanto e olha como a gente está agora, casadinho — falou o petista.
Lula destacou que decidiu recuar na ideia de tocar o projeto sozinho porque São Paulo já tinha o projeto, que já tinha inclusive aprovação preliminar da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
— A gente não poderia ficar com uma ideia de que o governo federal iria fazer e São Paulo ficar só olhando. Humildemente, falei pro Rui Costa para fazermos uma parceria com o estado. E é assim que a gente tem que governar esse país, um presidente da República não pode ter inimigo, não pode gostar de um estado e não gostar de outro, não pode gostar de uma cidade e não gostar de outra — destacou.
O projeto de túnel submerso deve ser dividido igualmente entre governo federal e estadual, que vão bancar R$ 2,7 bilhões cada. Os R$ 600 milhões restantes virão de uma privada que vai operar o túnel, com a cobrança de pedágio. O túnel será pedagiado e atenderá veículos, pedestres e ciclistas e a licitação está prevista para novembro.
Esta é a maior obra do Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC) de Lula e foi alvo de conflitos entre o governo federal e o estado. Isso porque, há algumas semanas, o presidente havia decidido que o túnel seria construído apenas com recursos da União, o que desagradou Tarcísio, que defende dividir os investimentos e os louros políticos da obra.
Na terça-feira, o governador foi até Brasília onde se reuniu com o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos), seu correligionário, e com o presidente. Após as conversas, Lula recuou e ficou acertado que o túnel será bancado metade pelo governo federal e metade pelo estadual.
Promessa antiga
O túnel ligando Santos ao Guarujá é uma reivindicação antiga da região e se tornou um desafio para diversas gestões, sem nunca ter saído do papel. Era 2009 quando o então governador de São Paulo, José Serra (PSDB), anunciou que iniciaria as obras do túnel. A promessa foi repetida em 2013 pelo sucessor Geraldo Alckmin (na época, no PSDB). Mais uma vez, o projeto ficou na gaveta. Em 2017, Alckmin enterrou a proposta de vez, justificando que seria muito caro e que a gestão tinha outras prioridades.
Em 2018, a gestão Márcio França (PSB) chegou a anunciar o projeto para a construção de uma ponte, e não mais um túnel, ideia que também não foi para frente. Dois anos depois, João Doria ameaçou ir à Justiça para garantir o início imediato da obra, que não havia recebido autorização do governo federal. Nada feito.
A paternidade da obra vem sendo disputada entre o governo federal e estadual desde o ano passado. Tarcísio já trabalhava para viabilizar o túnel quando era ministro da Infraestrutura do governo Jair Bolsonaro (PL). A construção do túnel estava na modelagem de privatização do Porto de Santos elaborada por ele.
Com informações do GLOBO.





