Após disputa entre milícias no Rio matar um estudante, UFRRJ suspende aulas

Bernardo Paraíso cursava Biologia e foi baleado num tiroteio em Seropédica por milicianos vestidos como policiais

O estudante de biologia Bernardo Paraíso (foto), de 24 anos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) morto na tarde desta segunda-feira, é mais uma vítima de uma sangrenta disputa entre milicianos pelo espólio de Luis Antonio Braga, o Zinho, preso em dezembro de 2023. Desde que o miliciano se entregou à polícia, nove pessoas morreram em disputas de poder dos grupos paramilitares. Uma das vítimas foi uma criança de 9 anos, filha do miliciano Antônio Carlos dos Santos Pinto, o Pit, que foi morto no mesmo ataque. Ele estava no carro com o filho quando sofreu uma emboscada na Zona Oeste do Rio. Ele era o braço direito de Zinho.

Milicianos mortos após prisão de Zinho

  • Sérgio Rodrigues da Costa, o Sérgio Bomba — foi executado num quiosque na orla do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. Ele era investigado por chefiar uma milícia em Sepetiba, também na Zona Oeste
  • Antônio Carlos dos Santos Pinto, o Pit — apontado como braço direito de Zinho, também foi morto em dezembro numa emboscada na comunidade Três Pontes, em Paciência, na Zona Oeste
  • Jairo Batista Freire, o Caveira — era apontado como um dos homens de confiança de Zinho e foi morto em janeiro, também em Três Pontes
  • Tauã de Oliveira Francisco, de 25 anos, conhecido como Tubarão, era considerado chefe de uma milícia que atua em Seropédica. Foi morto em fevereiro em operação da Polícia Civil.
  • Ricardo Coelho da Silva, conhecido como Cientista, morto em março numa casa de festas no Tanque, na Zona Oeste do Rio

Outras mortes

  • Amarildo Rodrigues Salles e Lucas Zulche Suhet Salles — foram mortos num ataque contra um bar em Seropédica, em dezembro do ano passado. Na ocasião, uma terceira pessoa ficou ferida
  • Criança de 9 anos — filho do miliciano Pit estava com o pai quando ele foi executado e também foi atingido. Ele chegou a ficar internado, mas morreu três dias depois.
  • Bernardo Paraíso, de 24 anos, foi morto no Centro de Seropédica. Ele era estudante de Biologia da Universidade Rural do Rio (UFFRJ).

Confronto em Seropédica

Nas últimas semanas, Seropédica convive com uma disputa sangrenta entre milicianos. O início dos confrontos foi a morte de Tauã de Oliveira Francisco, o Tubarão, durante uma operação da Polícia Civil em fevereiro. De acordo com investigações, ele era chefe de um grupo rival ao da milícia de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, e atuava em Seropédica, Itaguaí e parte de Nova Iguaçu.

Um mês depois, o miliciano Ricardo Coelho da Silva, conhecido como Cientista, foi morto durante um aniversário numa casa de festas no Tanque, na Zona Oeste do Rio. Ele teria assumido a milícia de Seropédica após a morte de Tubarão. A Polícia Civil investiga quais grupos armados tem disputado o espólio de Zinho.

Nesta segunda-feira aconteceu mais um capítulo dessa disputa, que matou outro inocente. O estudante do curso de Biologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Bernardo Paraíso, de 24 anos, saiu com a amiga com que divide o apartamento para comprar um lanche num mercado no centro de Seropédica, na Baixada Fluminense, perto de onde fica o campus. Eram 15h30, e a Avenida Ministro Fernando Costa estava movimentada, quando explodiu um tiroteio. Milicianos vestidos como policiais, com balaclavas e coletes à prova de balas, corriam pelas ruas carregando fuzis em meio a carros e pedestres, que tentavam se proteger em desespero. Bernardo sequer entrou no mercado — foi baleado e morreu na hora. Duas crianças, de 1 e 6 anos, também foram baleadas e levadas para o hospital.

Uma granada encontrada ao lado do corpo do universitário dá a dimensão dessa guerra entre milicianos rivais travada pelo controle territorial em Seropédica. Os carros parados em frente ao supermercado ficaram crivados de balas. Um deles tinha 16 marcas de tiros no vidro dianteiro. Um dos bandidos foi atingido no tórax e atendido no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu. Com ele, foi apreendido um fuzil. Um segundo suspeito foi preso com uma pistola.

A mãe das crianças baleadas foi com os filhos para o Hospital Municipal Pereira Nunes, em Duque de Caxias. Ela tinha hematomas na perna esquerda, sem gravidade. O bebê de 1 ano foi atingido no joelho, mas exames de imagens mostram que não há fraturas. Já a menina de 6 anos foi atingida na região cervical, e o projétil ficou alojado na altura da vértebra C4. Outra bala entrou pelo ombro esquerdo e parou na região do tórax, mas permaneceu apenas sob a pele sem atingir órgãos vitais. Ela está sendo acompanhada pela equipe de neurocirurgia do hospital. Na noite de ontem, as balas ainda estavam alojadas no corpo dela. O estado de saúde dos dois era considerado estável.

Aulas são suspensas

A família de Bernardo, que mora em Niterói, chegou ao local do crime antes de o corpo ser levado para o Instituto Médico-Legal (IML). Foi um momento de muita tristeza. A mãe do jovem teve que ser amparada. Fã do gênero musical KPop, originário da Coreia do Sul, e afetuoso com os colegas, o jovem se formaria em Biologia no fim deste ano.

Por causa da violência, a administração central da Rural suspendeu as atividades presenciais no turno da noite de ontem. “É com imenso pesar que comunicamos o trágico falecimento do discente Bernardo. A Administração Central da UFRRJ se solidariza com toda a família e amigos neste momento de dor”, divulgou a universidade, por nota.

Imagens dos bandidos correndo pela avenida principal da cidade e do corpo do universitário diante do supermercado circularam pelas redes sociais. O local do tiroteio fica a apenas 200 metros da Câmara de Vereadores de Seropédica e é cercado de agências bancárias, farmácias e restaurantes.

A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, que assumiu a investigação do caso, fez uma perícia no local do crime ontem à noite.

Disputa sangrenta

O tiroteio teria sido uma emboscada planejada: uma quadrilha espalhou a informação falsa de que estava cobrando taxa do comércio na área do bando rival. Nas últimas semanas, os confrontos entre milicianos se intensificaram em Seropédica. A morte de Tauã de Oliveira Francisco, o Tubarão, durante uma operação da Polícia Civil em fevereiro, teria agravado a guerra entre quadrilhas rivais. De acordo com investigações, ele era chefe de um grupo que é inimigo do bando de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, e atuava em Seropédica, Itaguaí e parte de Nova Iguaçu.

Ricardo Coelho da Silva, conhecido como Cientista, que teria assumido a milícia no lugar de Tubarão, acabou morto um mês depois durante um aniversário numa casa de festas no Tanque, na Zona Oeste do Rio. A Polícia Civil investiga quais grupos armados estão disputado o controle dessa região. Zinho está preso desde dezembro.

Com informações do GLOBO.

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