O Brasil registrou em 2022 o maior salto de envelhecimento entre dois censos e hoje tem 55 idosos para cada 100 jovens, segundo os dados do Censo 2022. Essa tendência não para de crescer. Ter cada vez mais idosos e menos jovens aumenta os desafios para a economia brasileira.
Esse movimento altera a dinâmica produtiva e causa reflexos no mercado de trabalho e no Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todos os bens e serviços. E sobrecarrega a Previdência e a saúde pública.
Para economistas ouvidos pelo g1, o Brasil precisa aplicar medidas estruturais e de longo prazo para sustentar o envelhecimento populacional. A avaliação, no entanto, é que o país ainda demora a agir.
“Nós estamos sempre atrasados. Não fizemos as reformas quando o país era mais jovem, e não fizemos quando começou a envelhecer. Mudanças demográficas são mais previsíveis. Se conseguimos prever, deveríamos agir de maneira mais adequada”, afirma Luis Eduardo Afonso, professor da USP e especialista em Previdência
Para Luis Eduardo Afonso, a reforma da Previdência de 2019 foi essencial, mas não o suficiente. Ele aponta que o texto deixou pontos importantes em aberto — e que precisarão ser revisados nos próximos anos.
A principal falha, segundo ele, seria justamente a exclusão de um trecho relacionado ao envelhecimento da população. O ponto vetado estabelecia o aumento automático da idade de aposentadoria conforme o aumento da expectativa de vida dos brasileiros.
“Essa precisa ser uma regra automática”, diz. “É um sistema já aplicado em países da Europa.”
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, aponta que outro desafio está no orçamento público.
Ele lembra que, desde a Constituição Federal de 1988, diversos gastos estão engessados — ou seja, com destino obrigatório —, o que aumenta os desafios quando o país precisar destinar mais recursos para Previdência e Saúde.
“Temos que fazer uma mudança estratégica de longo prazo, e não esperar que uma nova rodada de aumento da taxa de desemprego nos obrigue a tomar decisões precipitadas”.
Galhardo lembra que, antes da reforma da Previdência em 2019, houve uma forte crise do mercado de trabalho e o consequente desequilíbrio do orçamento previdenciário em 2015 e 2016. Naqueles anos, o PIB brasileiro teve queda de mais de 3%.
“Agora nós temos um cenário relativamente melhor. Então, não devemos esperar o próximo ciclo negativo para adotar medidas. Caso contrário, certamente seria uma decisão de curto prazo e que iria expor a população mais carente”, continua.
Segundo estimativas da Secretaria do Regime Geral de Previdência Social do Ministério da Previdência Social, o déficit do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) deve mais que dobrar até 2060 e quadruplicar até 2100.
Os números constam na proposta da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2024. De acordo com o governo, o rombo previdenciário previsto para esse ano é de R$ 276,9 bilhões, o equivalente a 2,6% do PIB.
A projeção é que o resultado negativo avançará em 2060 para R$ 3,3 trilhões ou 5,9% do PIB e, em 2100, para R$ 25,22 trilhões — 10,4% do PIB.
O diretor do FGV Social, Marcelo Neri, destaca que, nos últimos 35 anos, o Brasil fez o dever de casa em questões sociais, com avanços na expectativa de vida, no número de crianças na escola e queda da pobreza. Mas deixou a desejar na economia. O especialista explica que o Brasil é um caso especial de mudança demográfica acelerada, “talvez só comparável à China”, e destaca que as reformas implementadas no Brasil costumam ter efeitos limitados, já que, geralmente, são tardias, e incluem muitas exceções que comprometem sua efetividade.
Uma outra alternativa para mitigar os efeitos econômicos do envelhecimento da população, diz Neri, seria a adoção de medidas que busquem reinserir os aposentados no mercado de trabalho — o que também traz desafios.
“Temos que pensar em formar equipes de trabalho mais diversas, também com diferentes faixas etárias. Mas isso não é uma tarefa simples. Envolve uma mudança cultural”, conclui.
Em geral, os especialistas reforçam que, além de adotar reformas baseadas nas mudanças demográficas, é preciso entender que esse o envelhecimento da população vai exigir realocações de recursos.
“O investimento em educação também ajuda a manter vidas mais produtivas, fazendo com que pessoas cheguem com mais segurança [financeira] à terceira idade. Porque o problema não são os idosos de hoje. São os idosos do futuro.”
Para Luis Eduardo Afonso, da USP, outro ponto fundamental nesse processo é o Brasil pensar na qualificação profissional dos idosos, além de elaborar políticas públicas que incentivem a inclusão dessa população no mercado de trabalho.
“É um desafio. Não temos muita experiência nesse sentido. O contingente de idosos está aumentando e, ao mesmo tempo, essas pessoas terão que ficar mais tempo no mercado de trabalho. É uma combinação que nunca tivemos na história do Brasil”, diz o especialista em Previdência.
“As pessoas se aposentavam mais cedo, mas agora têm que trabalhar até os 65 anos. Elas terão que se desenvolver, buscar acompanhar novas tecnologias”, conclui.
Com informações do g1





