* Paulo Baía
A democracia não é um dom natural nem uma dádiva permanente. É construção diária, conquista histórica e prática social que exige vigilância, participação e presença. No Brasil contemporâneo, diante da ascensão de forças autoritárias, do avanço da desinformação e do esvaziamento dos vínculos sociais em nome de uma polarização artificial, manter e aprofundar as conquistas democráticas tornou-se tarefa urgente e vital. Neste cenário, o ativismo — presencial e digital — emerge como a principal ferramenta de resistência, de mobilização e de afirmação da dignidade humana. Ele é, ao mesmo tempo, instrumento e expressão de um pacto social que se quer renovado, inclusivo e plural.
A defesa da democracia hoje exige muito mais do que votos periódicos. Exige ação constante, engajamento e consciência crítica. Especialmente no Brasil, país marcado por profundas desigualdades e um histórico de exclusão social, a democracia só se sustenta se estiver ancorada na participação cidadã e no reconhecimento dos múltiplos sujeitos que compõem a vida social. É nesse contexto que o ativismo ganha centralidade. Não se trata de uma militância abstrata, mas de uma prática viva, que se dá nas ruas, nas redes sociais, nos coletivos culturais, nas igrejas, nos grupos comunitários, nos espaços formais e informais de poder.
A mobilização das classes médias — que hoje são amplas, diversas e em constante transformação — é essencial nesse processo. O Brasil já não abriga as mesmas classes médias das décadas de 1970 e 1980. Hoje, elas são formadas também por segmentos populares que ascenderam econômica e simbolicamente, carregando novos valores, desejos e formas de se relacionar com a política e com o Estado. Essas classes médias contemporâneas valorizam a autonomia, o empreendedorismo, o mérito individual, mas também almejam justiça social, respeito e reconhecimento. São sujeitos ambivalentes, muitas vezes em disputa simbólica com as próprias origens, mas absolutamente centrais na luta pelo aprofundamento democrático.
É imprescindível, portanto, que o ativismo democrático dialogue com esses setores sem arrogância, sem superioridade moral, sem se fechar em bolhas acadêmicas ou partidárias. O ativismo precisa ser escuta, acolhimento, construção coletiva. Precisa reconhecer que o Brasil mudou e que a sociedade brasileira é nova — com novas reivindicações, novos sonhos e novas formas de luta. A comunicação política e social não pode mais ser verticalizada. É necessário construir pontes reais com a população, em especial com os grupos religiosos, como os evangélicos, que hoje representam uma parcela expressiva do tecido social. Não basta declarar respeito; é preciso conviver, dialogar, compreender de dentro as dinâmicas e os valores que os mobilizam. Somente assim será possível manter vivas as ideias clássicas da democracia: a liberdade, a justiça, a alteridade, o reconhecimento do outro como legítimo portador de direitos e opiniões.
Outro elemento central dessa batalha democrática é o combate às fake news, que minam o tecido da confiança pública e corroem os fundamentos do diálogo social. A desinformação não é apenas um problema técnico, mas político. É ferramenta estratégica de grupos que querem enfraquecer o Estado democrático de direito, fomentar o ódio, deslegitimar adversários e impedir que a sociedade formule consensos mínimos. E se é verdade que a extrema-direita tem investido fortemente nesse tipo de manipulação, também é fato que certos setores da esquerda, por vezes, reproduzem práticas semelhantes em nome de disputas de poder. Por isso, as agências de checagem e os protocolos de verificação da informação tornam-se imprescindíveis. Antes de qualquer pronunciamento, compartilhamento ou engajamento, é preciso responsabilidade. A ética democrática começa pela palavra, pela informação correta, pelo compromisso com a verdade dos fatos.
Não se combate a extrema-direita com apatia ou cinismo. Combate-se com organização, com presença e com coerência. A força da extrema-direita no Brasil está em sua capacidade de mobilização, de produzir identidade coletiva, de construir narrativas que fazem sentido para parcelas significativas da população. Se os setores democráticos querem manter e expandir suas conquistas, precisam se equiparar em intensidade, em capilaridade, em presença concreta. Fora do ativismo não há esperança: perde-se o sentido da ação política, enfraquece-se o vínculo com a realidade social e cede-se espaço para os discursos de ódio e autoritarismo.
A luta pela democracia é, também, a luta pela dignidade humana. É o reconhecimento de que todas as pessoas têm direito à palavra, à escuta, ao respeito, à participação nas decisões que moldam suas vidas. Por isso, o ativismo deve promover a diversidade, combater todas as formas de intolerância — inclusive a religiosa — e criar laços que superem o isolamento e a fragmentação. A democracia não é um estado estático, mas um processo permanente de abertura ao outro. A alteridade é sua essência. Respeitar pontos de vista divergentes, mesmo quando dissonantes, é um exercício de maturidade cívica. É isso que pode nos ajudar a superar a “polarização calcificada” que hoje contamina as relações sociais e afetivas no Brasil.
Em tempos sombrios, o ativismo democrático é farol. Ele ilumina caminhos possíveis quando tudo parece ruir. Ele sustenta a esperança quando o medo ameaça tomar conta. E ele exige, de cada um de nós, coragem, escuta, ação e compromisso com os valores que fundam uma vida em comum. Não há democracia sem participação. Não há dignidade sem respeito. E não há futuro possível sem o esforço coletivo de manter vivo, vibrante e pulsante o espírito democrático.
* Sociólogo, cientista social e professor da UFRJ.





