Ela não tem formação profissional para prescrever medicamentos emagrecedores, suplementos alimentares ou anabolizantes. Mas usava a própria história como estratégia para fisgar clientes nas redes sociais, exibindo o corpo escultural em uma rotina de musculação, em contraste com fotos do período em que era obesa. O caso de Larissa Caetano, influencer fitness com quase 400 mil seguidores, expõe riscos em relação à busca por perda de peso ou pelo corpo sarado sem auxílio profissional adequado, segundo especialistas ouvidos por Agenda do Poder.
Ela e o companheiro Marcus Vinicius da Anunciação foram presos há uma semana em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, por venda ilegal de medicamentos, incluindo emagrecedores e até anabolizantes. Eles irão responder por crime contra a saúde pública e contra a economia popular.

A influencer fitness também está sendo investigada por exercício ilegal da profissão. A Polícia Civil apreendeu os medicamentos armazenados na casa dela em condições impróprias. Agora, a Delegacia do Consumidor (Decon), responsável pelas investigações, irá analisar dados de celulares e laptops para identificar uma rede composta por fornecedores e distribuidores dos produtos.
“Apreendemos o princípio ativo do Mounjaro, anabolizantes, hormônio e suplementos. A investigação inicial é de uma das células responsáveis pela venda dessas substâncias no Rio. Mas as investigações ainda estão em andamento para que possamos responsabilizar outros envolvidos”.
Wellington Vieira, delegado da Decon

Cupons de desconto, emagrecimento e grupo VIP
Em seu perfil no Instagram, Larissa Caetano registra o vídeo de março de 2019, quando fez uma cirurgia bariátrica. Em outras postagens, já com o corpo sarado, faz mensagens falando sobre os benefícios do Mounjaro, medicamento indicado para o controle de peso. “O Mounjaro promove um emagrecimento rápido (…). Emagrecer é ótimo, mas precisa vir acompanhado de cuidados, procedimentos e equilíbrio”, recomenda.
Em um texto sobre o vídeo do seu treino na academia, compara o tempo de digestão de alimentos com ou sem o uso do emagrecedor. Na ação feita pela Polícia Civil, os agentes apreenderam tirzepatida, um dos princípios ativos do remédio.

A influencer fitness também usava o seu perfil na rede social para oferecer a venda de suplementos alimentares e para divulgar vendas em farmácia de manipulação, oferecendo cupons de desconto em seu nome. “Vocês perguntaram sobre os meus chás. Se quiserem dar uma acelerada no metabolismo, queimar calorias e queimar gordura, esse é sensacional. Toma ele 20 minutinhos antes do seu treino. Se quiser fazer ‘cardio’, você pode tomar um comprimido. Ele é incrível demais. Vou deixar o link e cupom ‘Larissa Caetano’”.
“Garota, tem variedade incrível de sabores. Whey é saúde, vai te dar mais energia, saciedade. Vai te ajudar no emagrecimento e na reposição de proteínas. Vocês vão amar”, segue.
Ela também divulgava um grupo no WhatsApp, onde dizia colocar promoções e tirar dúvidas das clientes. O canal “Dicas da Lari” tinha mais de 3 mil membros. “A gente bate aquele papinho de amiga. Então, tu clica aqui nesse link e corre lá, garota. Quero te ver lá, hein?”.
No começo deste ano, fez outro vídeo com convite para um grupo fechado de clientes, sugerindo um tratamento intenso, mas sem citar diretamente treinos ou uso de anabolizantes. “Vou criar um grupo VIP. Quero mulheres que estejam dispostas a subir o nível e se dedicar. Vai ser um projeto presencial, mas não será aberto para qualquer pessoa. Por isso, já fiquem atentas. Porque, quando liberar vagas, eu preciso que somente quem tiver um objetivo entre para esse grupo. Vai ser um divisor de águas na vida de vocês”, promete.
A Agenda do Poder entrou em contato com pessoas próximas a Larissa e de seu companheiro solicitando contato dos seus representantes legais, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
‘Solução milagrosa’: especialistas detalham riscos à Saúde
Médicos, nutricionistas e profissionais de Educação Física ouvidos pela Agenda do Poder alertam para os riscos à saúde devido ao uso de medicamentos emagrecedores sem orientação profissional adequada.
Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, o endocrinologista João Salles diz ver riscos de Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou de infarto devido à pressão arterial em decorrência desse tipo de prática. “Não é simplesmente tomar um remedinho para emagrecer. Esses medicamentos têm efeitos colaterais e só podem ser prescritos com auxílio profissional”.
“Influencer da internet não podem exercer a função de quem dá consulta médica. Medicamentos precisam ser comprados na farmácia, com certificados da Anvisa. É extremamente perigoso para a população comprar medicamento de origem desconhecida”.
João Salles, endocrinologista
O profissional de Educação Física e personal trainer Yuri Rodrigues diz ver o uso da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, como ferramenta terapêutica valiosa para o emagrecimento. Contudo, alerta para o risco de perda de massa muscular sem orientação profissional. Já o uso de anabolizantes podem causar desregulação hormonal, diz.
“Combinados com tirzepatida, esses riscos se multiplicam, levando a dependência e desequilíbrios metabólicos graves”, adverte. “Em vez de atalhos ilegais, é preciso buscar profissionais com conhecimento sobre uma ciência atualizada, melhorando corpo e saúde metabólica. A venda ilegal desses medicamentos é um risco ético e de saúde pública”.
“Esse caso é um alerta importante para o mundo do fitness digital. Larissa usava suas redes para promover esses produtos como atalhos para emagrecimento e ganho muscular, compartilhando sua rotina como prova social. Vejo isso como marketing predatório, explorando vulnerabilidades de mulheres em busca de resultados rápidos”.
Yuri Rodrigues, educador físico
A nutricionista Verônica Laino alerta aos riscos para quem busca esse tipo de consultoria com influencers nas redes sociais. “Isso abriu portas para oportunistas, que viram uma oportunidade de venda como se fosse um simples produto digital. As redes sociais deram voz para pessoas que enxergaram a vulnerabilidade de quem quer emagrecer com a promessa do resultado rápido. Aí, vemos a banalização dos medicamentos, vendidos como se fossem suplementos e como solução milagrosa”, diz.
Segundo ela, esses medicamentos precisam de acompanhamento profissional para evitar o uso de forma indiscriminada, com dosagens inadequadas. “A dose precisa ser ajustada para ajudar o paciente a seguir um plano alimentar. Por isso, ocorrem efeitos colaterais, como queda de cabelo e até complicações mais graves, como pancreatite”.
“Como esses produtos estão sendo vendidos por uma influencer com corpinho bonitinho, as pessoas pensam: ‘Se não deu ruim para ela, não vai dar ruim para mim’. O principal foco é reduzir a fome de forma estratégica, para que o paciente consiga atingir o plano alimentar e preservar a massa muscular. Mas falta senso crítico. As pessoas precisam entender que, quando o acompanhamento sai do consultório e passa a ser vendido por influencers, deixa de ser um produto para promover saúde”.
Verônica Laino, nutricionista
O especialista em fisiologia e nutrição esportiva Alex Henrique da Silva Feitoza concorda. “Há muitos charlatões tirando proveito desse nicho”. Ele alerta para os riscos da volta do apetite e do ganho de peso em casos de uso sem orientação médica.
“É preciso ter esse acompanhamento para a mudança de hábitos alimentares e manutenção de perda de peso com emagrecedores, porque cada indivíduo vai ter uma resposta diferente. No caso de anabolizantes, só um médico pode fazer a prescrição, porque o uso sem auxílio profissional traz riscos à saúde”.


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