Casa Firjan, localizada em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, poderá alcançar um novo patamar de proteção patrimonial. O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) analisa nesta terça-feira, em Brasília, o pedido de tombamento do Palacete Linneo de Paula Machado e de seus jardins como patrimônio cultural brasileiro.
O imóvel, construído a partir de um projeto de 1906, ocupa uma área de mais de 8 mil metros quadrados. O casarão possui cerca de 1.100 metros quadrados de área construída, distribuídos em 30 cômodos, enquanto os jardins ocupam a maior parte do terreno.
Caso a proposta seja aprovada, o conjunto passará a contar com proteção em três esferas. O local já é tombado pelo município desde 1987 e pelo estado do Rio de Janeiro desde 2006.
Importância arquitetônica e urbanística
Segundo o Iphan, o palacete representa um dos exemplos mais expressivos da arquitetura eclética do início do século XX no Rio de Janeiro. A construção preserva características que ajudam a compreender a paisagem urbana da época e a evolução histórica do bairro de Botafogo.
A superintendente regional do Iphan no Rio de Janeiro, Patrícia Corrêa, destaca que o imóvel reúne qualidades arquitetônicas e paisagísticas consideradas excepcionais, sendo um importante retrato da cidade em um período de intensa transformação urbana.
Além da relevância estética, o casarão é visto como um marco histórico que ajuda a contar parte da trajetória econômica e social da capital fluminense.
Ligação histórica com a indústria brasileira
O presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, ressalta que a propriedade mantém uma forte conexão com a história da indústria nacional. O imóvel foi construído por Eduardo Guinle, fundador da Companhia Docas de Santos e um dos nomes mais influentes do setor empresarial brasileiro no início do século passado.
Ao longo das décadas, a residência serviu como ponto de encontro para importantes lideranças empresariais e industriais. Atualmente, a Casa Firjan continua exercendo um papel de articulação, promovendo debates sobre inovação, economia e desenvolvimento.
A instituição transformou o espaço em um centro de conhecimento e convivência voltado para temas relacionados ao futuro da indústria e da sociedade.
Detalhes preservados impressionam especialistas
Entre os elementos mais valorizados pelos especialistas estão os azulejos históricos, os pisos originais e diversos acabamentos preservados ao longo do tempo. Embora a escada em caracol seja um dos símbolos mais conhecidos da Casa Firjan, ela está longe de ser o único destaque arquitetônico do imóvel.
Os azulejos, datados do final do século XIX, foram cuidadosamente conservados e permanecem presentes em grande parte dos ambientes. O trabalho de restauração também garantiu a manutenção de revestimentos e elementos decorativos originais.
De acordo com o Iphan, uma futura etapa poderá incluir a análise do mobiliário histórico para eventual proteção patrimonial. O anexo contemporâneo inaugurado em 2018, entretanto, não faz parte do processo de tombamento.
A história do palacete e da família Guinle
O Palacete Linneo de Paula Machado nasceu como presente de casamento para Celina Guinle e Linneo de Paula Machado. A residência foi construída em frente à casa dos pais de Celina, Eduardo e Guilhermina Guinle, em uma área que concentrava parte da elite carioca da época.
O projeto original foi desenvolvido pelo arquiteto John Oberg. Posteriormente, a construção passou por ampliações e intervenções coordenadas pelo arquiteto Armando Carlos da Silva Telles, responsável por mudanças na fachada, decoração e distribuição dos ambientes.
Ao longo dos anos, novas adaptações foram incorporadas ao imóvel, contribuindo para a configuração arquitetônica que permanece praticamente intacta até hoje.
Influência francesa marcou reformas posteriores
Em 1925, Celina Guinle promoveu uma nova reforma na residência. O projeto contou com a participação do arquiteto francês Joseph Gire, conhecido por obras emblemáticas no Rio de Janeiro.
A intervenção alterou a disposição dos ambientes internos e introduziu elementos inspirados na arquitetura parisiense. Gire também assinou parte da decoração e do mobiliário fixo da residência.
Entre os espaços preservados desse período está o famoso banheiro azul, concebido com referências estilísticas do século anterior e considerado uma das curiosidades históricas do imóvel.
Transformação em espaço cultural e de inovação
A adaptação do casarão para se tornar a Casa Firjan exigiu intervenções que conciliaram preservação histórica e modernização. Foram instalados elevador, sistemas de climatização, automação, informática e equipamentos de segurança.
Mesmo com as mudanças, os ambientes mantiveram revestimentos originais de pisos e paredes. Alguns espaços ganharam novas funções, como armários transformados em estantes para livros e áreas de apoio convertidas para uso gastronômico.
Hoje, o imóvel abriga exposições, atividades culturais, eventos corporativos, exibições de cinema e projetos voltados à inovação. Entre os destaques estão a Sala Lucy e Luiz Carlos Barreto, a Sala Firjan e a Sala Sérgio Rodrigues.
Decisão do Iphan será tomada em Brasília
O possível tombamento da Casa Firjan integra a pauta da 113ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan. O encontro também analisará outros processos relacionados à preservação de bens culturais brasileiros.
Entre os temas previstos estão a avaliação de patrimônios históricos, manifestações culturais tradicionais e registros de práticas consideradas relevantes para a memória nacional.
Se aprovado, o tombamento consolidará a Casa Firjan como um dos mais importantes patrimônios históricos do Rio de Janeiro e reforçará a preservação de um dos símbolos da arquitetura carioca do início do século XX.






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