Baile Charme de Madureira completa 35 anos como símbolo de resistência, estilo e identidade negra

Movimento celebra legado sob o Viaduto Negrão de Lima com festa especial comandada por DJ Corello e nomes históricos da cena

Quando a batida do charme começa a ecoar sob o Viaduto Negrão de Lima, em Madureira, o tempo parece desacelerar. A música preenche cada espaço entre as pilastras grafitadas e transforma o concreto em pista de dança, território de afeto, cultura e afirmação da identidade negra. É ali que o mais tradicional dos bailes de charme do Brasil completa 35 anos, em meio às comemorações também dos 45 anos do Movimento Charme no país. As informações são do jornal O GLOBO.

Celebração

A festa será em grande estilo. A partir das 22h, o Viaduto de Madureira recebe uma edição especial do baile, comandada por ninguém menos que DJ Corello, figura histórica e criador do termo “charme”. Também participam da celebração os DJs residentes Michell, Fernandinho, Vig, Gab e Guto, além do DJ Sammy, representando o Coletivo Sampa Charme, de São Paulo.

Criado em maio de 1990 por um grupo de amigos que buscava democratizar o acesso à cultura e à dança, o Baile Charme de Madureira nasceu da vontade de romper com os códigos sociais e estéticos dos clubes fechados da cidade.

— Na ocasião, quem queria curtir um baile no Vera Cruz, no Magnata ou no Bola Preta precisava estar de sapato social, bem vestido. Nem tênis entrava, por melhor que fosse. O viaduto deu oportunidade ao cara com menos condição de vida: ali ele podia ir de bermuda e chinelo, sem problema algum. Hoje, chinelo virou moda, mas naquela época não era assim — lembra Evandro Nascimento de Souza, o Leno, um dos fundadores do baile.

Do improviso à consagração cultural

A escolha do viaduto não foi por acaso — e tampouco fácil. Segundo Leno, o grupo tentou ocupar outros espaços, como a Praça do Patriarca, mas enfrentava limitações estruturais e resistência social. Foi então que o Negrão de Lima, até então frequentado por jovens em situação de vulnerabilidade, se tornou solução e símbolo.

— Procuramos vários lugares, como a Praça do Patriarca. Mas, e quando chovia? Não tinha lona como tem hoje. Aí, veio a ideia do viaduto. Foi uma luta grande. Tinha mais de 20 meninos que cheiravam cola ali. Nós comprávamos dois litrões de refrigerante e sanduíche de mortadela para trocar por paz. Dizíamos: “Vão pra Praça de Cascadura durante o evento, depois vocês voltam”. E eles iam mesmo — relata.

Com o tempo, o espaço ganhou vida, cor, respeito e reconhecimento. O Baile Charme de Madureira passou de encontro de rua a patrimônio cultural e imaterial da cidade do Rio de Janeiro, título conquistado em 2013. Foi também nesse ano que DJ Michell, hoje um dos nomes centrais do evento, viveu uma das maiores emoções de sua trajetória: a vinda de Keith Sweat, ícone do R&B mundial, ao viaduto.

— Em 2013, trouxemos Keith Sweat, um dos maiores nomes do R&B mundial. Ninguém acreditou que ele viria, mas veio — relembra Michell, que teve o primeiro contato com o charme ainda criança, ajudando o pai e o padrinho a montar os equipamentos de som.

— Minha primeira residência como DJ aconteceu ali. Foi onde conheci amigos que tenho até hoje e minha esposa. Estamos juntos há 21 anos e temos um filho de 9 — diz.

Charme como linguagem e resistência

Mais do que um ritmo, o charme se consolidou como expressão cultural e política da população negra periférica. A batida mais lenta e marcada do R&B americano encontrou, sob o viaduto, uma tradução brasileira de pertencimento e orgulho.

— O charme é um símbolo de resistência e valorização da cultura preta. É um lugar onde a gente se vê bonito e forte. Onde o cabelo, a roupa e o jeito de dançar viram expressão de identidade. Madureira hoje representa isso: a moda da negritude vem dali — afirma Leno.

Ele completa:

— O bairro recebe gente de todos os lugares: Belford Roxo, Copacabana, Barra da Tijuca. Sabem que lá vão encontrar negras lindas, negões estilosos, cabelo black, trança, dread, moda preta. É onde tudo é lançado. A negritude se fortalece ali.

Para DJ Michell, o charme é coletivo por essência.

— O charme tem um BPM mais lento, swingado, que favorece a dança em grupo. É coletivo por natureza. E ali, no viaduto, se escuta o lado B dos discos. Às vezes, uma canção famosa só ali acaba virando hit em outras pistas depois.

A batida que virou identidade

O nome “charme”, segundo os fundadores do movimento, é mérito exclusivo de DJ Corello, figura essencial na história do ritmo.

— O Corello foi fundamental. Quando chegou ao viaduto, ele já vinha organizando bailes em clubes como Vera Cruz, Magnatas… Mas o mais marcante foi ele batizar o movimento com o nome “charme”. Isso ninguém pode tirar dele — diz Leno.

Corello explica:

— O charme é o rhythm and blues (R&B) americano. Já tinha material guardado desde os anos 1970 e misturei com as novidades do início dos anos 1980, que vinham com um BPM mais baixo. Mas, em vez de dizer “Você está ouvindo R&B”, eu dizia “Você está ouvindo charme”. E por quê? Porque chegava a hora do “charminho” no baile. Era aquele momento de dançar com o corpo devagarinho, com suavidade. Era preciso ter charme para entrar naquela batida, mais lenta e cadenciada.

Para ele, o movimento é uma forma de afirmação estética e social.

— O negro tem o seu próprio som. O fundo musical da vida dele é outro. A nossa cultura é outra. Isso vem lá de trás, dos bailes soul dos anos 1970, e foi evoluindo até virar charme. Criou-se uma identidade real: o charmeiro se veste diferente, fala diferente, se comporta diferente. Ele entra num ambiente e carrega esse estilo.

Celebração e futuro

Os ingressos para o baile comemorativo no Viaduto de Madureira partem de R$ 20, mas a festa começa ainda mais cedo: às 17h, integrantes do movimento se apresentam na Praça Mauá, abrindo o show da cantora Iza, marcado para as 19h.

DJ Michell aposta agora em um novo desafio:

— O próximo passo é nacionalizar o nosso som. Já há artistas como os Garotin, que começaram no baile e hoje ganharam até Grammy. É só deixar o charme tocar sob o Viaduto Negrão de Lima para tudo acontecer.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading