Quando o sinal fecha na Avenida Visconde do Rio Branco, no Centro de Niterói, um grito já conhecido desperta a atenção para o espetáculo: “Alegria, alegria, alegria”. É desse jeito que um homem com maquiagem de palhaço, roupas coloridas e cinco bolas de malabares entra em cena e anuncia o show. Ao fim, passa de carro em carro com um sorriso no rosto, na espera de receber uma contribuição dos motoristas. É quando o artista vira empreendedor.
Wellington ‘Alegria’ Batista, de 37 anos, faz apresentações na rua desde os 12. Nascido e criado no Jacaré, Zona Norte do Rio, ele encontrou na arte uma forma de sobreviver.
“Comecei minha relação com a arte aos meus 12 anos de idade, no Leblon, quando, ali na praia, cheio de fome e necessitado de comer algo, fiz malabares com limão. Dali em diante fui aprendendo. Costumo falar que aprendi por necessidade, comprar uma roupa no fim do ano, levar alimentos para dentro de casa”, conta o artista.
Wellington é um entre tantos artistas de rua que, longe dos palcos formais, ocupam a cidade com música, humor e muita cultura. Eles transformam a arte em trabalho e, muitas vezes, ela é a sua única fonte de renda.
No sinal, malabares contra o desemprego

Pelo menos quatro vezes por semana, das 9h até às 17h, Wellington monta seu próprio palanque, com o uso de um banco de madeira decorado com uma chave Pix, e faz os espetáculos. Desde 2009, ele se apresenta em Niterói e, por lá, encanta cada vez mais os moradores, principalmente as crianças.
“Meu lugar preferido para se apresentar é Niterói, as pessoas valorizam a arte. Não tem coisa melhor do que tirar o sorriso de uma senhora, de uma criança, tô quase há seis anos ali. Dá para ver a alegria das pessoas que estão tristes, muitas vezes pela rotina de trabalho”, diz Wellington.
O dinheiro que ganha na rua é investido na família. Foi com a renda das apresentações que conseguiu comprar a casa própria.
Ele conta que uma das histórias que marcaram sua vida foi quando um amigo influente publicou no X um vídeo de sua apresentação e pediu ajuda de torcidas de clubes esportivos. As imagens viralizaram e o carioca foi surpreendido.
“Hoje, meu coração é até dividido, um pouco Vasco e um pouco Flamengo. Porque em 2022, meu amigo colocou nas redes para me ajudar e juntou algumas torcidas, mas a torcida do Vasco foi a maior, mais gente que colaborou com Pix. Na época, eu estava fazendo uma obra em casa e tinha quase R$10 mil de dívida no cartão. Deus usou esse amigo e me abençoou”, relembra.
Apesar de carregar o nome Alegria e ter como marca registrada no rosto o sorriso, Wellington já passou por episódios desafiadores nas ruas. Em um deles chegou a ser chamado de macaco.
“Muitas das vezes recebo olhares de descriminação, outro dia um cara mandou o dedo para mim. No Leblon, um cara passou e me chamou de macaco. Tem pessoas que acham que somos vagabundos, mas não é isso. Tenho uma família, um filho, arco com meus compromissos dentro de casa. Tem pessoas que passam por mim a tanto tempo e, quando me vê no sinal, levantam o vidro do carro”, expressa, decepcionado.
Mas uma coisa ele não deixa de enfatizar: foi o Palhaço Alegria que transformou a vida do Wellington Batista. Vindo de uma realidade difícil, o artista conta que chegou a morar em um local onde dormia com ratos.
“Nossa casa era chamada de senzala. É uma verdade que eu carrego, e a arte mudou o cenário da minha casa, da minha mãe e meus irmãos. Vivíamos com mais de 10 ratos passando na cozinha. Consegui reformar a casa da minha mãe toda”, diz orgulhoso, com os olhos cheios de lágrimas.
Música nos trilhos: o trem como palco

Quem costuma pegar o trem na Baixada, já conhece os acordes do Salomão Elias, de 26 anos. Dentro dos vagões em movimento, ele é conhecido por outro nome: Saluh. Nascido em Belford Roxo e criado em Nova Iguaçu, o cantor aprendeu a tocar violão sozinho, enquanto assistia o pai se apresentando em cultos da igreja.
“Eu via ele tocar, ensaiando para o culto e, assim, só de olhar, eu e meus irmãos começamos a tocar também. Me lembro que, aos 9 anos, eu peguei a guitarra de um irmão da igreja, todo mundo riu da minha cara quando eu disse que ia cantar louvor. Toquei e cantei perfeitamente, quando abri os olhos estavam todos chorando, até a irmã que estava segurando o microfone para mim. Comecei a compor e, aos 17 anos, conheci a arte de rua dentro das linhas ferroviárias“, relembra Saluh.
Já são 10 anos que ele se apresenta em pé nos trens, sempre com o violão preso no corpo e se equilibrando no balanço do coletivo. Foi na rua que o cantor encontrou aquilo que sua arte sempre clamou: liberdade.
“Eu tinha pais muito religiosos, não podia cantar coisas seculares e sempre compus de tudo. É na rua que eu via essa liberdade de ser quem eu era, de lutar por aquilo que eu realmente acreditava, sem medo e repressão”, conta.
Hoje, a única fonte de renda de Saluh é a arte. Quando não está nos trens, ele se apresenta em bares, eventos, e dá aulas de violão. Além do talento, Wellington e Saluh, apesar de não se conhecerem, têm outra coisa em comum: os dois já sofreram ataques racistas durante o trabalho.
“Já sofri racismo no vagão, um cara gritou: ‘Cala a boca, seu macaco’. No entanto, o vagão inteiro me abraçou e me aplaudiu. Falaram para eu não desistir”, mas nem tudo é só agressão, como ele completa: “Outra vez, estávamos cantando, eu e uma amiga, no metrô. Quando estávamos saindo, uma moça nos chamou e disse: ‘Ei, vocês me salvaram. Estava indo me matar, tenho depressão. A música de vocês me salvou’. Nunca vou esquecer disso”.
O rei das barcas: ‘Aqui o público já me conhece‘

Nas barcas que ligam Rio e Niterói, a música ecoa entre as cadeiras e o som das ondas. Quem entoa é Mesquitta, de 28 anos, cantor de voz grave e repertório variado — de Jorge Vercillo a Preta Gil.
“Já faz uns quatro anos que estou nessa missão. Comecei aos poucos, meio na coragem, meio na necessidade. Hoje, já faz parte da minha rotina, do meu corpo, do meu sustento e da minha identidade. Me apresento bastante nos ônibus e nas barcas, onde o público já me conhece — inclusive tem gente que me chama de ‘rei das barcas’”, conta com humor.
Foi na rua que Mesquitta encontrou o acolhimento que sua arte precisava para crescer. É nesse grande palco que, segundo o cantor, nasce o artista e o empreendedor, os dois trabalhando em harmonia.
“A rua foi o lugar que me aceitou de verdade. É onde a arte não precisa de ingresso, figurino ou estrutura; ela precisa só de coragem e verdade. O povo tá ali, vivendo, correndo, cansado… E, de repente, você chega com música e aquilo muda o clima. A rua é crua, mas sincera”, diz o artista, que completa: “Ser artista de rua no Brasil exige muito mais do que talento. Tem que saber se virar, cuidar do som, do repertório, do transporte, da abordagem. Então, além de artista, tenho que ser empreendedor do meu próprio ‘corre’”.
Toda semana, ele tira pelo menos a parte da tarde ou da noite para se apresentar nos transportes públicos. Nascido e criado em São Gonçalo, na Região Metropolitana, Mesquitta relata os desafios que enfrenta todos os dias.
“O preconceito, muita gente ainda não entende que ali tem arte de verdade. Depois, a instabilidade financeira, que é pesada; e tem também o cansaço físico, o calor, os guardas, os dias de chuva, os equipamentos que dão problema… Enfim, é tudo na raça”, enumera.
Trabalho que não é reconhecido
Para o sociólogo Rafael Mello, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a arte de rua no Brasil é, há décadas, desvalorizada.
“A falta de um ‘carimbo’ oficial ou de um palco tradicional faz com que esses artistas sejam, muitas vezes, vistos com preconceito. A sociedade, acostumada a valorizar o trabalho formal e que gera lucro, acaba rotulando-os como ‘pedintes’ ou até ‘vagabundos’. É como se a arte deles não fosse trabalho de verdade porque não se encaixa nas caixinhas que a gente conhece”, explica.
Esse evento produz o que o especialista chama de ‘choque de classes’. “Quem tem menos dinheiro costuma se identificar mais e ajudar, talvez por entender a realidade da luta diária. Já quem tem mais dinheiro, às vezes, nem presta atenção ou até demonstra desaprovação, vendo a apresentação como um incômodo ou um pedido de esmola”.
Qual é o seu maior sonho como artista?
Fernando Pessoa diz: “De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos”. Sonhar é um descanso para a alma. É esquecer a realidade sem sofrimento. É um refúgio leve, silencioso, em que o corpo está desperto, mas a mente paira em outro lugar, como um sono sem sonhos, mas ainda assim fora da vigília dura da vida real.
O Agenda do Poder perguntou aos três artistas quais os maiores sonhos deles. Essas foram as respostas:
“Que minhas canções cheguem no maior número de ouvintes possíveis, e que alcance os corações deles. Que as letras possam bater com a vivência delas. E que artista de rua não sejam mais visto como vagabundo” – Saluh
“Passar na prova de habilitação para carro e comprar o meu veículo. Trabalhar como motorista de aplicativo e continuar crescendo com a arte”, Palhaço Alegria.
“Poder viver da arte com dignidade, sem precisar me apagar ou me adaptar a moldes que não são meus. Quero crescer, rodar o mundo, tocar mais corações, transformar mais vidas com minha voz, minha história, minha presença. E quero também abrir caminho para os que vêm depois, para que mais artistas de rua tenham orgulho de ser quem são e de onde vêm”, Mesquitta.


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