Na década de 1970, uma menina de apenas 10 anos vestia a pesada indumentária de porta-bandeira mirim da Portela. Era o sonho do pai, o histórico Wanderley Francisco. Mas, sob as saias rodadas e a responsabilidade de carregar o pavilhão ao lado de um mestre-sala, a menina sentia um incômodo que ia além do calor do subúrbio: faltava espaço.
“A dança de mestre-sala e porta-bandeira é uma dança a dois, precisa ter essa entrega. Eu entendia a importância, tinha muito respeito, mas eu era muito solista, muito dona dos meus movimentos”, relembra Nilce Fran. “Queria liberdade”.
Quase cinco décadas depois, a liberdade conquistada por aquela menina a levou ao topo da hierarquia de Oswaldo Cruz. Vice-presidente da Portela, eleita em 2025 ao lado de Junior Escafura, Nilce hoje não carrega mais o pavilhão na Avenida, mas sustenta o peso de toda uma nação nos ombros ao lado do neto de Piruinha.
Personagem do novo episódio da série especial Artistas da Avenida, da Agenda do Poder, Nilce Fran é tida pelos corações azuis e brancos como uma revolução silenciosa. Conhecida pelo carisma — que chegou a render o apelido carinhoso de “Vovó Vrau” pelos portelenses nas redes sociais —, ela assume a gestão com um estilo próprio, rejeitando rótulos corporativos.
Portela era destino: ‘na minha casa não tinha escolha’
O sobrenome pelo qual Nilce é conhecida mostra que o destino não poderia ser outro: era Portela. “É Fran de Francisco, do meu pai”, explica a sambista. “Meu pai era um homem preto, um rapaz muito inteligente, com duas faculdades, músico que não bebia nem fumava e um apaixonado pela Portela”, conta.
Ela lembra que Wanderley chegou à Portela ainda na década de 1930, menos de 10 anos após a fundação da agremiação, considerada a mais antiga das terras fluminenses, e criou, ali pelos anos 1960, a hoje célebre Ala dos Impossíveis, além do bloco carnavalesco Rosa de Ouro — que acabou virando agremiação, chegando a ser presidida por Nilce Fran — ao lado de outros bambas como Candeia e Waldir 59. “Minha alma e meu coração são portelenses”, resume Nilce.
Apesar de nutrir um certo amor proibido pela escola vizinha, a Império Serrano, e brincar que sua “placenta é imperiana” por influência materna, ela diz que nunca houve, de fato, outro caminho. “Na minha casa não tinha escolha. Nem a minha mãe podia abrir a boca pra dizer que não era Portela. Ela só disse isso depois que meu pai morreu”, conta, rindo. “Então, a minha essência, a minha vida, o meu crescimento é falando de Portela”.
Ela conta que a relação com a escola sempre foi atravessada pela arte. Nilce lembra que cresceu vendo o pai tocar, compor e dançar, cercada por uma família em que a criação artística era cotidiana: vinha do pai, que era professor de dança de salão, dos irmãos dançando e da mãe e tias bordando. Foi nesse ambiente, respirando cultura, que ela foi forjada.
“A arte veio mesmo de berço, de ver como o artista crescia dentro da minha casa”, afirma “Eu entendi muito cedo a força da minha arte, as minhas possibilidades. Ela chegou cedo na minha vida”, completa. Aos seis anos, Nilce já sambava. Aos oito, atendendo ao desejo do pai, iniciou aulas de porta-bandeira, mas logo migrou para onde seu corpo pedia: a ala das passistas. Ali, coordenou o segmento por 25 anos, tornando-se referência de samba no pé e disciplina.

Essa trajetória, construída com o corpo na Sapucaí, se desdobrou em liderança. Nilce diz que passou por praticamente todas as funções possíveis dentro de uma escola de samba: desfilou em carros alegóricos, foi madrinha de bateria, diretora artística, diretora de harmonia, além de coordenadora da ala das passistas.
Fora da escola, fez shows, coordenação artística e chegou a ser referência de samba no pé no Sambola, na Abolição. “Trabalhar com gente é exercício o tempo inteiro”, resume. “É troca o tempo todo”.
Parceria de sangue e lealdade
A relação com a família Escafura, central na história recente da Portela, nasceu desse ambiente. Na década de 1990, na época do Sambola, Luiz Carlos Escafura, o Bolão, a convidou para ser madrinha de bateria da Portela. Com o filho dele, Luiz Carlos Escafura Júnior, construiu uma parceria que atravessou disputas de samba-enredo, bastidores e afetos. “Nós éramos parceiros de alma”, diz. “Eu liderei torcida, briguei por samba, saía na pancada se fosse preciso. Era eu e ele, um pelo outro.”
A gestão nunca foi um plano formal, segundo ela, apesar de ser algo já esperado. Nilce sempre diz que tudo acontece no tempo certo, guiado pela ancestralidade. Espírita convicta, vê a espiritualidade como eixo de leitura da própria trajetória. “Minha ancestralidade me traz tudo no tempo certo, no tempo deles. Não era uma coisa do tipo ‘vou ser amanhã”.

Ela conta, porém, que quando Escafura afirmou que só se candidataria à presidência da escola se a tivesse como vice, a reação inicial foi de espanto. Mas a lealdade falou mais alto. “Como eu estaria contra o filho de um cara que foi meu amigo no claro e no escuro?”, lembra. “Um dia eu acordei e falei: ‘vambora”.
Liderança sem pompa
Hoje, na vice-presidência da escola, Nilce diz encarar o desafio da gestão com naturalidade — ainda que reconheça o peso da função. Primeira mulher a ocupar a vice-presidência da Portela, ela não aceitou enquadramentos. “Não permiti que exigissem mudanças, do tipo ‘agora você vai colocar um terninho’”, afirma. “O que eu mais prezo em mim é a minha inteligência, o meu discernimento”.
Sambista, mulher preta, formada, independente, Nilce afirma saber exatamente onde pisa. “Eu sei onde estou, e quem esquece eu lembro”, sublinha. “Eu vim quebrando paradigmas. Sou uma mulher preta que viajou, que fez show de mulata, mas que se formou, que tem a própria casa, o próprio carro, a própria independência e que chegou num cargo em que tem postura para estar”.
A dor mais profunda de sua vida também atravessa essa postura. Há 10 anos, Nilce Fran perdeu o único filho no dia do desfile da Portela. “Foi a maior dor que eu senti na minha vida”, diz. “Qualquer outra dor não tem significado, porque eu conheço a maior dor do mundo”.
Ela conta que encontra forças no samba, no trabalho, na agitação cotidiana e na própria espiritualidade para seguir de pé. “Eu choro se tiver que chorar, eu me emociono, mas não permito que nada nem ninguém me jogue pra baixo”.
Resgate da alma portelense
À frente da Azul e Branco há nove meses, Nilce enxerga a felicidade como estratégia de gestão. Para ela, uma escola precisa “sair campeã de casa”. O resultado na Sapucaí, diz, não está escrito nas estrelas — mas a energia com que a agremiação atravessa a Avenida, sim. “Uma empresa tem a cara do seu gestor”, costuma repetir. “Como vou ficar triste se vejo eles ali pulando, rindo, felizes?”.

Às vésperas do desfile, a gestora tem apostado em motivar a escola, que segundo ela chega preparadíssima na disputa pelo primeiro lugar. No último ensaio técnico, fez questão de acompanhar a agremiação da concentração à dispersão, observando cada ala “chegar energizada”. “Eu estava lá, abrindo passagem para minha Portela. Exu é abertura de caminhos. O caminho está aberto, agora vamos neutralizar”, fala.
“A Portela já está provando que ela está forte, feliz e comprometida, está pronta para disputar com amor e determinação. Não é sobre dinheiro, mas resgate de alma”, adianta. “A Portela está dormindo e acordando no dendê”, crava.
No fim, ao olhar para trás, a vice-presidente resume a própria trajetória sem grandiloquência. “Cheguei”, afirma. “Se a maioria entender, eu já me conformo”. Para os portelenses, o pedido é simples: energia positiva, de onde estiverem, quando a escola passar. “A Portela precisa estar feliz”, diz. “O resultado vem no pacote”.
A Portela é a terceira escola a desfilar no domingo de Carnaval, no dia 15. A saída está prevista para começar entre 0h55 e 1h15. Confira o samba-enredo da escola:


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