Abstenção mais alta para o segundo turno desafia Nunes e Boulos em SP

Índice de não comparecimento é mais frequente entre eleitores menos escolarizados e os mais velhos

A queda no interesse dos eleitores em relação à eleição de São Paulo traz alertas para as campanhas dos dois adversários no segundo turno, Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL). A capital paulista teve abstenção de 27,3% na votação do dia 6, taxa que só fica atrás da registrada em 2020, em meio à pandemia (29,3%). Historicamente, os índices de não comparecimento são ainda mais elevados na segunda rodada.

A abstenção é mais frequente entre eleitores menos escolarizados e os mais velhos — o que se justifica pelo fato de o voto ser facultativo para analfabetos e maiores de 70 anos. Nesses dois grupos, Nunes tem vantagem nas intenções de voto contra Boulos, conforme mostra a pesquisa mais recente do Datafolha.

Segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, as taxas de não comparecimento no primeiro turno foram maiores em regiões centrais da cidade, onde Boulos se sai melhor que o candidato à reeleição. Dentre as dez zonas eleitorais com maior abstenção, o psolista foi o mais votado em cinco, enquanto Nunes teve maioria só em duas — nas outras três, o mais votado foi Pablo Marçal (PRTB).

Ainda segundo o último levantamento do Datafolha, cerca de um terço dos eleitores aptos a votar (30%) atribui notas de zero a três (numa escala até dez) para sua vontade de ir às urnas no próximo domingo. Entre os que votaram em Marçal no primeiro turno, a taxa é ainda mais elevada, de 42%.

O tema preocupa Nunes, que agora atrai a preferência da maioria dos eleitores do ex-coach (de 77% dos que votaram no candidato do PRTB). O candidato à reeleição tem pedido a lideranças partidárias e vereadores de sua base aliada para convencerem as pessoas da importância do voto. O assunto também deve estar em sua propaganda na televisão e no rádio nos próximos dias.

— Eu vou pedir, inclusive, para colocar no meu horário eleitoral desta semana para reforçar isso, porque é importante exercerem seu direito de voto. A gente tem tido um número de abstenção muito grande nas últimas eleições. Teve aquele período da pandemia, que ali até se justificava, mas mesmo depois, diante desse primeiro turno, a gente pode trabalhar para as pessoas irem votar — disse Nunes no domingo.

‘Não voto’ preocupa

Boulos, por sua vez, já fez apelos pelo comparecimento de idosos às urnas quando acompanhou a avó, Cida, de 100 anos, no primeiro turno da eleição. O candidato hoje se diz preocupado em “encorajar” o eleitorado que ainda se declara indeciso.

— Nós temos ainda um número incrível de pessoas que estão indecisas. Indecisas porque querem a mudança, mas porque ainda não foram convencidas de que o nosso caminho de mudança na cidade de São Paulo é um caminho forte e responsável, é um caminho que elas podem apostar sem medo. Nós temos uma semana para vencer a barreira do medo, nós temos uma semana para não deixar São Paulo mais quatro anos nas mãos do descaso da desumanidade e de coisas piores — disse na segunda-feira o candidato.

Além do não comparecimento, outra ameaça para a pretensão dos candidatos é a alta taxa de eleitores que consideram aderir ao voto nulo ou em branco. No primeiro turno, foram 9,8% os que fizeram essa opção. Na última pesquisa do Datafolha, 14% disseram ter essa intenção na disputa entre Nunes e Boulos, e 72% afirmaram ter o voto em branco ou nulo como segunda opção caso desistam de apoiar o candidato que hoje tem sua preferência.

Um dado que ajuda a explicar a inclinação de parte do eleitorado pelo não voto é a falta de identificação com os dois candidatos a prefeito. Dentre os que escolhem Nunes, 69% dizem que o fazem porque “não há opção melhor” — taxa que vai a 83% entre os que votaram em Marçal no dia 6 e agora escolhem o candidato à reeleição. No eleitorado de Boulos, são 43% os que falam não ver alternativa melhor.

Queda no interesse

Diretora científica do Centro para Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CCI/Cebrap), Camila Rocha avalia que a grande vantagem que as pesquisas de intenções de voto indicam para Nunes é um dos fatores que colaboram para o declínio do interesse dos eleitores na atual disputa — no Datafolha, o prefeito tem 51% das menções, contra 33% de Boulos. Diante dos números, eleitores do emedebistas podem pensar que não precisam votar, enquanto apoiadores do psolista podem achar que ir às urnas será em vão.

— No primeiro turno, havia um interesse maior até pela presença do Marçal, que despertava curiosidade mesmo em quem não queria votar nele. Agora, além dessa ausência, o Nunes tem faltado a debates, o que ajuda a diminuir o interesse. Para Boulos, pode se repetir no segundo turno o que ocorreu no primeiro, de pessoas anularem os votos ao apertar “13” em vez do “50”. Já para Nunes, será decisivo ver se os eleitores do Marçal de fato vão ter disposição para sair de casa — analisa.

Com informações de O Globo

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