A república das tribos: cultura woke, exagero identitário e a fragmentação do Brasil em 2026

O tecido da vida social parece ter sido reconfigurado por uma lógica de pertencimento que já não admite mediações

Observo o Brasil de 2026 com uma inquietação que não se dissipa. Não se trata apenas de divergência política, nem de alternância de poder, nem de disputa eleitoral nos termos clássicos. O que se impõe é uma transformação mais densa, mais silenciosa e, por isso mesmo, mais decisiva.

O tecido da vida social parece ter sido reconfigurado por uma lógica de pertencimento que já não admite mediações. As identidades deixaram de ser pontos de partida para o diálogo e passaram a funcionar como trincheiras. E, nesse cenário, a chamada cultura woke, atravessada pelo exagero identitário, converte-se em linguagem dominante de organização do mundo.

A ideia de vigilância moral diante das injustiças, que poderia ampliar horizontes de compreensão, foi progressivamente convertida em um sistema de classificação. O que antes era sensibilidade tornou-se critério. O que era escuta tornou-se julgamento. O que era abertura tornou-se fechamento.

Cada sujeito passa a ser definido por marcadores prévios que organizam sua legitimidade de fala. E, nesse processo, a experiência humana, complexa e contraditória, é comprimida em categorias rígidas.

Percebo, no cotidiano, que essa lógica não se restringe a um campo ideológico. Ela atravessa a esquerda e a direita, a extrema esquerda e a extrema direita, produzindo uma simetria inquietante. Os discursos são distintos, os valores proclamados são diferentes, mas a estrutura é a mesma.

Em ambos os polos, há a absolutização de pertencimentos, a recusa do contraditório, a transformação de valores em dogmas inquestionáveis. A cultura woke, sob o signo do exagero identitário, torna-se simultaneamente expressão de crítica e mecanismo de controle. Ela denuncia e, ao mesmo tempo, vigia. Ela inclui e, ao mesmo tempo, exclui.

Nas salas de aula, esse processo se torna visível de maneira concreta. Ministrar aulas para turmas grandes tornou-se uma atividade cada vez mais difícil e, em muitos momentos, arriscada. Não pelo conteúdo em si, mas pelas classificações que recaem sobre ele. Cada conceito, cada autor, cada argumento pode ser imediatamente enquadrado como ameaça.

O conhecimento deixa de ser explorado como campo de investigação e passa a ser percebido como território de disputa identitária. Estudantes e docentes caminham sobre um solo instável, onde qualquer formulação pode ser interpretada como violência simbólica.

A cada dia, uma preferência se estabelece. Não uma preferência no sentido banal do gosto, mas uma preferência que organiza pertencimentos e delimita fronteiras. Fala-se cada vez mais em grupos fechados, previamente definidos por identidades compartilhadas. O debate, que deveria atravessar diferenças, recolhe-se a espaços homogêneos.

A ideia de conhecimento universal, que nunca foi plena, mas que funcionava como horizonte regulador, vai sendo abandonada. Em seu lugar, instala-se uma lógica de validação interna, onde o que importa não é a consistência do argumento, mas a adequação ao grupo.

Nas ciências sociais, nas humanidades, nas artes, esse movimento assume contornos ainda mais evidentes. O pensamento teórico clássico, construído ao longo de décadas de reflexão e disputa intelectual, passa a ser descartado com rapidez. Não por revisão crítica rigorosa, mas por rejeição sumária. Afirmações dogmáticas de identidade substituem a mediação conceitual.

O formalismo epistemológico, que organizava o campo do conhecimento, perde espaço para enunciados que se legitimam pela posição de quem fala, e não pela consistência do que é dito. A territorialização do discurso torna-se regra. Fala-se a partir de lugares definidos, e esses lugares passam a funcionar como autorização ou interdição.

A noção de lugar de fala, que poderia enriquecer a compreensão das experiências, transforma-se em mecanismo de delimitação. A agência identitária substitui a pesquisa como prática cotidiana. A reflexão, que exige tempo, dúvida e abertura, cede lugar à afirmação imediata. O conhecimento deixa de ser construção e passa a ser declaração.

Há, nesse processo, um empobrecimento teórico e analítico que não pode ser ignorado. A complexidade social é reduzida a esquemas simplificados. As contradições são eliminadas em nome da coerência identitária. O conflito, que poderia ser produtivo, é evitado ou transformado em ataque. E, pouco a pouco, instala-se uma espécie de teologia da existência.

Cada identidade passa a ser afirmada como verdade última, como fonte de consciência e como medida de superioridade moral. Não se trata apenas de reconhecer experiências, mas de hierarquizá-las em termos éticos.
Nesse ambiente, o escrutínio das opiniões, dos fatos e das situações torna-se secundário. Tudo parece já estar previamente definido.

O exagero identitário opera como matriz interpretativa total. Cada tribo de pertencimento constrói sua própria narrativa, seu próprio sistema de valores, sua própria leitura do mundo. O diálogo entre essas narrativas torna-se raro. Quando ocorre, é marcado por desconfiança ou hostilidade. A escuta perde espaço. A confirmação ganha centralidade.

Do ponto de vista sociológico, o que se observa é a substituição de formas complexas de integração por estruturas segmentadas. A sociedade deixa de ser percebida como um espaço de interdependência e passa a ser vivida como um mosaico de grupos fechados. Cada grupo organiza sua própria lógica interna, suas regras, seus códigos. A mediação institucional enfraquece. A negociação perde lugar. O pertencimento torna-se a principal fonte de orientação.

A política, nesse contexto, adquire uma tonalidade emocional intensa. As eleições de 2026 refletem essa transformação. O debate público já não se organiza em torno de projetos amplos, mas em torno de identidades em disputa. Candidatos são percebidos como representantes de tribos. Eleitores se reconhecem nesses pertencimentos. O voto torna-se gesto de afirmação. A racionalidade programática cede espaço à lealdade identitária.

No plano psicológico, a adesão a essas estruturas oferece segurança. Em um mundo percebido como instável, a identidade funciona como abrigo. Ela fornece sentido, reconhecimento, pertencimento. Mas esse mesmo mecanismo produz fechamento. O outro passa a ser visto como ameaça.

A diferença é interpretada como risco. A convivência torna-se difícil. A ansiedade cresce. A necessidade de confirmação constante reforça os limites do grupo.

Do ponto de vista antropológico, o que se desenha é uma retribalização da vida social. Em um ambiente urbano e digital, formam-se comunidades que funcionam como aldeias simbólicas. Compartilham linguagem, códigos, referências. Reforçam continuamente suas fronteiras. A alteridade, em vez de ser incorporada, é rejeitada ou simplificada. O mundo exterior torna-se um campo de suspeita.

No campo jornalístico, essa lógica encontra ressonância. A mediação informativa, que deveria ampliar a compreensão, muitas vezes reproduz a segmentação. Narrativas são direcionadas a públicos específicos. Fatos são enquadrados de acordo com expectativas prévias. A ambiguidade é reduzida. A complexidade é simplificada. A informação passa a operar como instrumento de validação identitária.

A cultura woke, nesse cenário, deixa de ser apenas um conjunto de pautas e transforma-se em forma de organizar a percepção. Ela se converte em estilo de pensamento. Um estilo que, ao absolutizar identidades, reduz a capacidade de mediação. Um estilo que, ao enfatizar pertencimentos, dificulta o trânsito entre diferentes. Um estilo que, ao transformar valores em dogmas, empobrece o debate.

É necessário reconhecer que as demandas por reconhecimento são legítimas. As desigualdades que atravessam a sociedade brasileira são históricas e persistentes. Ignorá-las seria um erro. No entanto, quando a busca por justiça se converte em fechamento identitário, perde-se a possibilidade de construção comum.

A identidade, que poderia ser ponto de partida para o diálogo, transforma-se em ponto de chegada inquestionável.
A simetria entre os extremos revela um dado inquietante. Grupos que se percebem como opostos reproduzem estruturas semelhantes.

Ambos operam com categorias rígidas. Ambos constroem inimigos absolutos. Ambos rejeitam a complexidade. A polarização, nesse sentido, não é apenas conflito entre diferentes. É também convergência na forma de organizar o pensamento.

O Brasil de 2026 enfrenta, assim, um desafio que ultrapassa o calendário eleitoral. Trata-se de reconstruir as condições de convivência em uma sociedade fragmentada. Trata-se de recuperar a ideia de espaço público como lugar de encontro. Trata-se de reintroduzir a dúvida, a escuta e a negociação em um ambiente saturado de certezas.

A cultura woke, no eixo do exagero identitário, é ao mesmo tempo sintoma e agente desse processo. Ela revela tensões reais e, simultaneamente, contribui para sua intensificação. Ela ilumina desigualdades e, ao mesmo tempo, pode obscurecer a possibilidade de convivência. Ela amplia vozes e, em certos momentos, reduz o espaço do diálogo.

Diante desse quadro, o desafio que se impõe é reconfigurar a relação entre identidade e alteridade. Reconhecer que toda identidade se constitui no encontro. Reafirmar que a diferença é condição da vida social. Recuperar a ideia de que o conflito pode ser produtivo quando mediado por instituições e valores compartilhados.

Sem esse movimento, a República corre o risco de se dissolver em tribos. Cada uma com sua verdade. Cada uma com sua linguagem. Cada uma com seus limites. Um país onde todos falam e poucos escutam. Onde todos pertencem e poucos convivem. Onde a política deixa de construir pontes e passa a reforçar distâncias.

Observo esse processo com a sensação de que algo essencial está em jogo. Não apenas a forma da política, mas a possibilidade mesma de vida comum. A República das tribos não é um destino inevitável. É uma construção em curso. E, como toda construção, pode ser transformada. Mas essa transformação exige coragem intelectual, disposição para o diálogo e, sobretudo, a recusa de transformar identidades em prisões.

Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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