A Copa do Mundo ainda nem começou oficialmente mas, no Rio, ela já ocupa estações de metrô, corredores de shopping e rodas improvisadas de troca de figurinhas. Em meio a pastas plásticas, listas numeradas e negociações rápidas, o álbum da Copa do Mundo Fifa 2026 transformou diferentes pontos da cidade em espaços de convivência e mobilização coletiva.
Nas estações Carioca, Uruguaiana, Central do Brasil e Pavuna, do MetrôRio, grupos se formam diariamente em busca das figurinhas que faltam. Nos shoppings, áreas específicas foram montadas para atender colecionadores de todas as idades.
Em um desses pontos de encontro, o pequeno Davi Lucas Pereira, de 8 anos, comprou o primeiro álbum da vida. Flamenguista fanático, conta que ficou animado ao descobrir que quatro jogadores do clube apareceriam na competição.
“Eu gosto dos jogadores, sempre quis colecionar e sou muito fã de futebol. Se eu tirar uma figurinha rara, só troco se a outra pessoa me der dez em troca”, enfatiza.

Para o professor do departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Henrique Juvêncio, o colecionismo ultrapassa a lógica tradicional do consumo.
“O hábito de colecionismo não tem uma diferença muito grande de um hábito de consumo, porque ele é uma parte da indústria de consumo. O colecionar faz parte dessa indústria. Mas ele se diferencia porque ele tem um critério, um quê de afeto. O colecionismo tem relação com os nossos sentimentos”, explica.
Mais do que um produto, o álbum virou um ritual coletivo capaz de unir memória afetiva, sociabilidade e impacto econômico, conforme apontam especialistas no setor em entrevista ao Agenda do Poder.
Aprisionando o tempo
Para Juvêncio, o álbum da Copa ocupa um espaço simbólico raro porque funciona como um registro emocional do tempo.
“Você aprisiona o tempo ali, coleciona um álbum para estar próximo daqueles jogadores, próximo das outras seleções, conhecer o mundo. Eu achava muito bacana quando colecionava pequeno, porque ia sabendo onde eram os países, os escudos, elenco… Então, é meio que uma relação de ligação com aquele evento tão grande.”, explica o especialista, que, por anos, pesquisa sobre coleções e colecionismo.
“A Jordânia está participando pela primeira vez da Copa. Então, os primeiros jogadores que jogaram por aquela seleção em uma Copa do Mundo vão ficar registrados ali naquele álbum.”
Carlos Juvêncio, professor de Ciência da Informação
Essa relação afetiva aparece nos relatos de quem circula pelos pontos de troca. O profissional de TI José Renato Canejo, de 39 anos, disse que a família tem tradição em colecionar álbuns.
“O que me motiva é que eu gosto muito de preservar, eu acho que o álbum preserva uma certa história. E é muito legal você abrir depois um álbum antigo e rever os jogadores que jogavam. Então, eu gosto muito”, diz.

A Copa que movimenta a cidade
Responsável pelos quiosques da Panini no metrô, Christian Nascimento afirma que o movimento cresceu rapidamente após o lançamento do álbum.

“Assim que lançamos o ponto de venda, começaram a surgir muitas pessoas e, gradativamente, tem aumentado, principalmente após sair a lista dos jogadores convocados”, conta.
Segundo ele, o público vai muito além das crianças e, ao longo do dia, o fluxo acompanha o ritmo da cidade.
“Vem muita gente, tem família, criança que está indo para a escola, mas também muitos adultos, principalmente homens na faixa etária de 30 a 40 anos, nosso maior público. O bacana de ter um ponto de trocas aqui no metrô é porque é um lugar muito movimentado. Geralmente, as pessoas passam aqui para ir ao trabalho, resolver as coisas… Então, estamos bem no caminho”, ressalta.
Na hora do almoço e no fim da tarde, pequenos grupos se formam em torno do quiosque. Há quem compre apenas alguns pacotes. Outros preferem grandes quantidades de uma só vez. As perguntas no ar são quase sempre as mesmas: ‘“Tenho repetida”, “falta a 317?”, “troca por duas?”.
“Atualmente, as pessoas estão levando no máximo uns três pacotinhos e vão abrindo… Mas tem alguns que levam logo 20 pacotes de uma vez só”, pontua o comerciante.
O prazer da busca
Em um dos pontos de troca, quando abria o pacote de figurinhas, Sarah Gusman, de 18 anos, encontrou o Messi. Assim que outras pessoas se aproximaram, ela foi enfática: “Essa eu não troco, sou fã”.
Para Juvêncio, o colecionismo se alimenta da sensação de incompletude. Ele explica que, mesmo quando um álbum termina, a lógica da coleção continua viva. A ideia ajuda a explicar por que tantos adultos continuam comprando figurinhas décadas depois da infância.

“O que move uma coleção é sempre o próximo objeto. O Walter Benjamin vai falar que uma coleção nunca está completa. Ela sempre está em busca do próximo. Mas qual é o próximo item de uma coleção do álbum? É o próximo álbum. Você já começa o aquecimento esperando o próximo”, pontua o professor.
O engenheiro Cristiano de Almeida, de 45 anos, voltou ao hábito por influência do filho, também apaixonado por futebol.
“Coleciono desde a época de infância, mas abandonei essa prática. Agora, voltei por conta do meu filho, de 8 anos. Ele vibrou muito com a convocação do Neymar. Me animei para isso”, conta. Hoje, os dois percorrem pontos de troca atrás das figurinhas mais desejadas.
“Faço um esforço de completar, vou em todos os lugares tentando trocar as repetidas. Queremos a do Cristiano Ronaldo, Messi, Haaland…”
Cristiano de Almeida, colecionador
Quanto custa completar a coleção?
A febre das figurinhas também movimenta uma economia própria. O professor de Economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), Gilberto Braga, afirma que o álbum se tornou um produto de alto custo, especialmente nesta edição, que reúne 48 seleções e quase mil figurinhas.
“O álbum é um luxo, sempre vai pesar no orçamento de qualquer família, mesmo nas mais abastadas. Se a pessoa for muito ágil nas suas trocas, ela poderia completar algo em torno de dois mil reais a três mil reais”
“Entretanto, colocando o comportamento médio que se tem histórico e fazendo uma projeção para essa nova quantidade de seleções, chega a ser um valor estimado de sete mil reais como custo médio para você completar o álbum.”
Gilberto Braga, economista
No site oficial da Panini, o álbum com a capa brochura está no valor de R$ 24,90, enquanto versões de capa dura saem por preços a partir de R$ 70. Já o pacote com sete figurinhas custa R$ 7. A coleção completa conta com 980 cromos, sendo 68 especiais, contemplando todas as 48 seleções.

Braga destaca que o fenômeno movimenta diferentes setores do comércio.
“A Copa, de uma forma geral, movimenta a economia como um todo. Desde bares e restaurantes até decoração. Pessoas que preparam as ruas, suas casas com bandeirinhas, com enfeites típicos dessa época, até o setor de eletroeletrônicos que é sabido que existe um movimento de compras de TVs de melhor definição, qualidade e tamanho para a Copa do Mundo”, enumera.
As bancas de jornal, embora tenham perdido protagonismo nos últimos anos, ainda aproveitam o período, conforme o economista: “É importante para o varejo de uma forma geral, mas não especificamente é a redenção das bancas de jornal, embora elas possam tirar proveito também desse momento”.
O álbum como espaço social
As trocas ajudam a explicar por que o álbum sobreviveu à digitalização de quase tudo ao redor. Enquanto músicas, filmes e fotografias migraram para telas, as figurinhas continuam dependentes do toque, da circulação e do encontro presencial.
“O digital é muito útil em várias esferas, mas ele não conseguiu uma coisa: dar o suporte que a gente precisa”, afirma Juvêncio. “O colecionar envolve quem te deu aquilo, se você comprou, quando comprou, onde”.
Para o pesquisador, a coleção funciona também como uma construção de memória.
“Você vai criando uma série de artifícios de afeto e lembrança. Então, vamos dizer, você me deu um pacote de figurinha. Eu abri e tirei o Messi. Aí eu vou lembrar sempre que essa figurinha rara foi você que me deu.”
Nos espaços de troca, essa dimensão social fica evidente. As pessoas não apenas negociam números, elas permanecem, conversam, comparam coleções e constroem pequenas comunidades temporárias.
“Eu cheguei a colecionar desde 94, mas era muito pequenininho e não consegui completar. O álbum ficou todo rasgado. Mas, desde 2006 tenho todos eles íntegros, quase novos. Bem colados, inclusive. Que eu sou chato com isso. Procuro colecionar aquilo que gosto mais, que tenho mais afinidade”, pontua Canejo.

Pontos de trocas
- Shopping Nova América: 2º piso, próximo à Tim
- Shopping Boulevard: 2º piso, próximo à Jump Arena
- Madureira Shopping: 3º piso, próximo à Praça de Alimentação
- Carioca Shopping: 2° piso, próximo ao restaurante Kawari
- Livraria Leitura, Rio Sul: 2° piso
- Livraria Leitura – New York Center
- Ilha Plaza: 3° piso
Metrô
As estações Central do Brasil, Uruguaiana, Carioca e Pavuna, do MetrôRio, contam com espaços exclusivos para troca de figurinhas, compra do álbum e pacotes de cromos, em parceria com a Panini.
Funcionamento:
- Segunda a sábado: 7h às 19h
- Domingos: 8h às 12h


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